terça-feira, 24 de março de 2020

Es muss sein

Insultos afincados em silêncio,
indultos que não chegam,
sentimentos que não cegam,
Amor que não vingou
e vingou-se em mim.
Dizem que o fim é apenas um novo começo...
Adormeço a pensar nisto,
não insisto mais
devo isto a mim mesma!
Lá fora o mundo mudou
e tem-se medo de um abraço...
Que pessoa serei depois desta distância toda?
Não tenho medo que dure,
tenho medo que acabe e nunca cure nada.
Já não tenho o alento da ânsia dos teus braços,
de sermos passos no caminho um do outro,
afinal já caminho sem sombra há tanto tempo
o que são mais uns milhares de kilometros?
Karma do desapego que carrego...
Só quero que a banda continue a tocar
enquanto me estou a afogar, lentamente,
sempre me salvei a trinta segundos do fim...
Preciso sempre de sentir o corpo a desistir
para me obrigar a reagir, sabias?
É tão doce a respiração da Morte no nosso pescoço
a sussurrar com voz rouca que a dor pode finalmente acabar...
O Amor não cura merda nenhuma,
somos nós que nos remendamos sozinhos
e vivemos cheios de suturas por dentro,
até um dia escorrer tudo cá para fora...
 O momento é agora?
Não.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Adore



Correntes,
cadeados apertados,
dentes serrados,
aço frio e morto contra o corpo,
ciclo de violência,
dormência e ansiedade...
Ruído da cidade adormecida, lá fora,
vida escorrida como sangue da tua boca...
Talvez seja louca,
talvez seja a ultima vez..
Chicote,
açoite durante a noite,
medo,
segredo respirado ao ouvido,
mordido e engolido à pressa.
Palavras a esquartejar a alma devagar,
Amor até que a Morte nos separe...
Teu corpo no meu contra a parede,
meia de rede a escorregar perna abaixo,
unhas cravadas na carne,
desejo que arde e consome,
fome.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Indigente

Há um lapso perdido 
entre o sonho e o encontro que perdemos muitas vezes,
um tempo que não volta,
um ombro que não chega,
uma palavra que não solta o que cala o coração...
Somos apenas distânsia, 
ansia de um chão que não se percorre
e morre um pouco, dentro de nós,
todos os dias...
Orgulhosamente sós,
ocupantes e ocupados pela dor,
Amor que se sonega,
não nos chegam os abraços
e entre nós sempre mais passos,
sempre mais migalhas
onde te atrapalhas e escorregas...
Habituei-me ao conforto do vazio,
a respirar em salas poluídas de gente
que nunca sente,
gosto da sofreguidão do ar a insuflar o peito,
da pulsação a disparar,
da vida a trespassar-me de Dor
e a provar que o Amor
é um sem abrigo de castigo dentro de mim
que no fim de contas só pede esmola
e consola a fome no sorriso de quem passa...

terça-feira, 17 de março de 2020

Last waltz

Sussurro,
palavra mordida
perdida em mim,
murro do teu silêncio,
fim da linha,
a minha existência em suspenso...
Valsa Vienense,
os meus pés sem tocarem o chão,
a minha mão na tua
como tantas e tantas vezes...
Opera de olhos fechados
sentimentos atropelados cá dentro,
tento reter tudo
desta ultima vez
embalada pelos teus pés...
O teu abraço de despedida,
traço leve do teu sorriso
perdida na paz dos teus olhos!
Vieste despedir-te de mim
 e fizeste anos há quatro dias...
We always have Schubert!

domingo, 15 de março de 2020

Eu vou ficar em casa, sou uma sortuda!

Hoje começa o meu primeiro dia de clausura voluntária, sou asmática, alérgica à maioria dos antibióticos e mãe solteira com dois filhos menores de 12 anos. Vou receber apenas 66% do meu vencimento e vou estar sem sair de casa com duas crianças não sei por quanto tempo. Eu sou uma sortuda.
-Quem não é sortudo neste momento são os médicos e enfermeiros que estão a meter a vida em risco, sem descansar, sem ver as suas famílias para salvarem quem precisa. Respeitem o seu sacrifício.

Fiquem em casa, não saiam só porque está sol e é só um cafezinho, evitem aglomerados de gente, mantenham distância, tussam para o braço, lavem as mãos, sejam conscientes, pensem um bocadinho nos outros e não corram para o Hospital só porque tossiram uma vez.

Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.


 -Quem não é sortudo neste momento são os bombeiros e as forças de segurança publica que têm de zelar pelo nosso bem estar e protecção tantas vezes com meios técnicos e humanos insuficientes e se calhar sem álcool para se desinfectarem e máscaras para se protegerem porque quem não precisava açambarcou tudo.


Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.


 -Quem não é sortudo neste momento são os auxiliares de acção medica, os administrativos e todos os outros profissionais de saúde que têm de permanecer nos seus postos de trabalho e trabalhar ainda mais sujeitos a ser contaminados por pessoas que sendo sortudas não fizeram a sua parte e meteram a sua saúde em risco bem como a dos outros e agora também destes profissionais.

 Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.

-Quem não é sortudo neste momento são as pessoas que trabalham nas Farmácias e Parafarmácias que estão a ser bombardeadas de gente que não respeita o distanciamento e "só querem ter uma garrafinha de alcool em gel para andar na mala", pedem aconselhamento nos cremes de beleza (a serio pessoas???) ou na maquilhagem (se o fazem agora são mesmo pessoas feias, por isso desistam!) e largam perolas tais como pode chegar-se ao pé de mim que eu não estou doente e que atrasam o atendimento de pessoas que vêm aviar receitas ou comprar bens essenciais.


 Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.

-Quem não é sortudo neste momento são os operadores de supermercados que estão a trabalhar o triplo do normal, a repor prateleiras que não param de esvaziar, a registar  milhares de produtos nas linhas de caixas sem conseguirem manter o distanciamento do cliente, sem se conseguirem proteger durante os atendimentos convenientemente porque são milhares de produtos que já foram manipulados sabe Deus por quantas pessoas a passarem-lhes pelas mãos, a fazerem mais horas, a verem os colegas com filhos a irem para casa e a saberem que vão ficar ainda mais sobrecarregados.


 Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.
  

Cada vez que alguém tosse o coração destas pessoas dispara, cada vez que o despertador toca todas estas pessoas têm medo de ir trabalhar mas vão, por nós os sortudos que só temos de ficar em casa.







domingo, 8 de março de 2020

Homeopatia

Misturo-me em milhões de litros de água,
separo a  minha essência da demência de sentir,
e deixo-me diluir...
Pudesse eu fluir com a inocência da agua
que mata a sede sem exigir nada em troca
e morre na sede da tua boca.
Pudesses tu beber-me com a mesma coragem
que devoras a agua da torneira,
sem questionares a origem da ribeira,
ou a pureza da sua margem.
Pudéssemos nós ser combinação molecular
em vez de bóias perdidas no mar...
Misturo-me em milhões de litros de agua
para perder a intensidade
e render-me ao peso da superficialidade
e do  amor descartável
e solúvel em cafés...
Bato com os pés até ao expoente da loucura,
nado até à exaustão do corpo...
podíamos ter sido sede,
mas não,
estás sempre à procura do furo na rede.





Purpurinas

(...) Ela era um rio a desaguar mares nunca antes navegados, tinha a dureza da vida tatuada num olhar cirúrgico e escuro que nos obrigava a viajar por galáxias enquanto nos rasgava a alma e arrancava todas as máscaras de protecção, tinha a limpidez de um lago e a profundidade misteriosa de um pântano de águas mornas que nos convida a flutuar contemplando o céu sem pensar em mais nada senão nas formas das nuvens.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Eutanásia.

As horas passam e espaçam os outros,
somos ponteiros sempre a cometer os mesmos erros,
relógios parados que só acertam duas vezes por dia.
E o tempo corre,
escorre-nos, devagar, para sarjetas e valetas,
onde somos cenários de liceu,
de popularidade bacoca.
O meu tempo esgota,
tic tac sombrio e vazio que me arranca de mim
e me tranca cá dentro.
Tento demais,
Amo demais,
Rasgo-me demais
e tatuo mais um remendo.
Aprendo e sigo,
digo que vou ficar bem,
consolo-me,
sou o meu próprio colo
e durmo abraçada a mim.
O fim chega a todos,
nem a Dor nos poupa,
nem o Amor nos salva
e o corpo é apenas a roupa suja da Alma.


domingo, 1 de março de 2020

Breakfast

O Amor é um rumor,
um sussurro que nos mostra o caminho, 
devagar,
como se nos estivesse a moldar por dentro.
É um carinho,
um olhar mais demorado,
silêncio partilhado,
comunhão.
Chão que se despede dos nossos pés,
mas que nos espera quando pousamos,
sem cobrar nada.
Madrugada fria partilhando café e torradas,
na cama,
com o mundo a matar-se lá fora.
Chama que não queima mas que aquece
e nos conhece, 
sem máscaras,
sem rótulos,
sem roupa!
Amor é lamber-te as lágrimas,
é sermos praia um do outro,
sermos mar,
bússola, 
mas também ancora 
e porto.
Ser nascente e tu poente
E poder respirar fundo, finalmente!



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Purpurinas...

(....) E tudo começara com um toque suave no rosto, um breve tocar de dedos que quase a medo lhe saboreavam a pele, um momento que se vincava na eternidade, se tatuava nos segredos mais profundos do tempo, um instante que significava uma vida inteira, entre tantas vidas passadas à espera de um sentido irrelevante qualquer...
Talvez fosse esse o honesto significado do Amor um toque que resume tudo e se partilha na sabedoria do silêncio entre dois olhares que se bastam (...)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Basorexia

Lapso do Universo,
prolapso de verso na estrofe,
o silêncio interrompe tudo,
grito em mímica
o infinito a contorcer-se
e o Amor a encolher-se,
cá dentro,
para caber numa cave,
amarrado à trave de uma dor qualquer.
Mentiras em espargata perfeita,
quando a boca foi feita para beijar.
Ofensa gradual à minha inteligência emocional...
Relaxo e contemplo o horizonte,
corpos que se atropelam,
lábios que apelam o calor dos meus.
Deus é o nome da desculpa maior da culpa dos homens...
Travo salgado que lambo devagar,
pecado carnal que mora ao lado...
Guerra imortal da minha alma
condenada na palma da mão.
Não.



domingo, 16 de fevereiro de 2020

If the world was ending...


Meu corpo desenhado no chão,
procuro a tua mão
no escuro,
seguro o teu nome junto a mim,
fim de tudo,
pecado capital.
Lá fora o mundo morre
como a vida escorre,
vazio,
alma solta que não volta mais.
A hora repete-se,
cada minuto é o luto que luto para afastar,
talvez se o mundo acabar...
Valeria a pena condenar toda a gente
pela eternidade de um olhar?
Morrer no teu abraço,
pelo cansaço de te tocar,
sentir cada milímetro do teu prazer
e o mundo a morrer, lá fora,
na hora que seria só nossa?
A minha boca a devorar a tua,
carne nua ,
coreografia das minhas ancas
a receber-te devagar,
sentada no teu colo,
olhos nos olhos,
ritmo certo e inquieto,
sermos sofreguidão
e a destruição do mundo lá fora
a vingar a hora que nunca foi nossa.

sábado, 15 de fevereiro de 2020


Perguntam-me muitas vezes porque estou sozinha, se não sinto falta de ter alguém.

Eu não quero "ter" alguém, nunca tive essa necessidade de me completar por arrasto, precisar de ser salva por um príncipe encantado, encontrar noutra pessoa a razão da minha existência, não quero, nem posso transferir para outra pessoa essa responsabilidade.
Também não busco um Amor daqueles de cinema, perfeito, utópico, quase intocável, de dias sempre maravilhosos, hálitos sempre frescos e personalidades super-hiper-mega positivas.
Eu não consigo, de todo, ser essa personagem, não quero alguém que me veja como um anjinho papudo, ou uma Cinderela esvoaçante, não sou assim, sou sarcástica, às vezes odeio pessoas, digo asneiras no transito, odeio transito, acho que tenho sempre razão e tenho mesmo quase sempre o que por si só é também bastante irritante, quando estou com o período apetece-me matar meio mundo, gosto das coisas arrumadas e se me pisam o chão que estou a lavar é melhor fugirem, tipo logo...
Choro muito facilmente mas passado 10 minutos já ninguém o sabe.
Adoro crianças e animais, é sempre tudo mais fácil com eles.
Adoro aprender coisas e que me ensinem coisas e saber coisas e livros, adoro livros, adorava ter uma biblioteca e musica, não vivo sem musica e amo dançar, danço quando estou feliz e ainda mais quando estou triste e estou triste muitas vezes.
Tenho o humor mais negro deste mundo e amo incondicionalmente os meus amigos, todos eles sabem isso porque lhes digo, sempre.
Quando ouço musica da Mafalda Veiga e do André Sardet  na rádio irrito-me...
Amo os meus filhos com todo o coração, todo. Às vezes zango-me com eles mas eles sabem que a mãe, apesar do mau feitio, faria qualquer coisa por eles, mesmo qualquer coisa, tipo crimes.
Sou um bocadinho mãe de toda a gente, sempre fui, até dos meus pais desde sempre, talvez por isso tenha sempre sido um bocadinho mãe dos meus namorados e hoje sei que já não quero isso para mim.
Sou horrível com tecnologias, horrível mesmo.
Quando me apaixono perco o controlo e isso assusta-me porque sei que irremediavelmente vou sofrer, o que acontece sempre, mas é a vida.
Não quero alguém que me ame só pelo meu lado bom, quero alguém que me veja como sou, com vontade de me mandar à merda muitas vezes, mas que saiba que eu sou este furacão sem fundo de emoções mas que o amo e também o sei amar nos dias maus e não vou a lado nenhum porque o nosso caminho é o mesmo.
Quero alguém que tenha a inteligência de saber que "as princesas" também dão puns e às vezes parecem bem mais dragões ou ogres, do que princesas...
Quero alguém com quem me sinta sempre eu, porque eu sempre soube amar as falhas nos outros e honestamente é aquilo que está realmente por baixo da mascara que me puxa mais a atenção.
Quero alguém que perceba que primeiro estarão sempre os meus filhos e não se sinta ameaçado por isso, ou tente competir porque não há competição possível.
Enquanto não encontrar alguém, realmente, assim, prefiro estar como estou sozinha mas completa porque nunca fui metade de nada!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Purpurinas...

    (...) A mão tremia-lhe , brisa trazida pela idade que o agitava por dentro, mágoas envenenadas pelas derrotas, tudo condensado num tremer de mãos. A caneta tentava efectuar as piruetas das letras, confessando num bailado acidentado tudo o que o peito escorria, a alma era um banho de sangue tingido como o papel corrompido pela tinta esborratada da caneta segurada com tanta dificuldade, lágrimas que se suicidavam dos olhos, de mãos dadas, cheias de medo de um embate num combate de sobrevivência...
O Amor é a demência da vida devolvida em migalhas pelas nossas constantes falhas. Agora que a vida lhe ditava pouco tempo e a mente se perdia, era uma casa vazia de sonhos, faltava escrever a ultima carta, o legado que provaria a razão da ilusão da sua existência, a mão falhava, fugia ao seu controlo como a vida sempre teimara em fugir e exigir um rumo independente, a dor era voraz e capaz de o silenciar em breve e depois o leve peso da viagem para a irrelevância da ânsia de deixar tudo o que julgamos conhecer... Como se escrevia aquela palavra que nos lavra por dentro, como se segura a cura de todos os medos e se deposita na força de uma caneta a ultima confiança da esperança, meta final, derradeira ruga na fuga à dor tamanha que sempre nos acompanha?
Amor. (...)


Not meant to be.

Dor,
lágrima,
esgrima,
estocada,
rancor.
Não preciso de nada disto,
desisto.
Sabemos que perdemos quando não já nos reconhecemos.
Degrau,
sub-cave
mau presságio,
contágio grave,
entrave,
morte.
Deixa-me sepultar-te com carinho, por favor.
Meu Amor,
boa sorte!
Segue o teu caminho,
não olhes para trás,
preciso de paz para seguir o meu.
Adeus.




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Ad Aeternum

Espiral,
Anáfora,
Infinito,
Mural,
Metáfora,
Grito,
Repetição (in)voluntária da acção.
Padrão,
Pulsação,
covardia.
-Quem sabe um dia?
-Nunca.
Mentiras atrás de mentiras atrás de mentiras, atrás...
Sinopse e sinapse.
Elipse,
sintoma viral,
soma residual,
pena.
(talvez seja demasiado pequena??!...) 
Ausência.
Falta de paciência,
ribalta da gabarolice,
tolice brejeira,
Amor para a vida toda?
-Que se foda!



 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Purpurinas

(...) Havia um tracejado esbatido na forma dela andar, um pisar de chão delicado como se pedisse permissão à calçada para a pisar sem magoar.  Se observássemos, ao pormenor, só as pontas dos pés acariciavam o solo, descia todos os dias a mesma rua numa corrida ornamentada de hélio, como quem tem receio de não chegar a tempo de dar o último abraço a alguém.
  Ele bebia o café, sem açúcar, sempre no mesmo café de toldo esbatido e resiliente, castigado pelo sol, brincando com o maço de tabaco para não roer as unhas que vingavam a resistência de três dias, sorvia a forma estratégica como o sol se aconchegava nos cabelos dela e sentia-se, finalmente, em casa!(...).