quinta-feira, 18 de junho de 2020

in Purpurinas...

(...) Despiu-se, devagar, como quem se desfolha e se olha por dentro num lamento introspectivo e furtivo da realidade. A maldade e a hipocrisia caídas no chão com uma mão cheia de sonhos de areia... E se o caminho já estivesse traçado desde o primeiro passo delimitado nas estrelas do espaço que se obrigam a constelações porque as emoções nunca viajam sozinhas? E se todos os homens com quem dormiu, que beijou, que amou fossem escolhas conscientes de dormentes aspirações a forças maiores? Quem precisa de flores depois de morrer? Quem quer ser uma boa recordação se o coração precisa de bater agora, na hora que nos pertence e nos convence a ter coragem? E se a vida for apenas uma miragem, uma ave de penas delicadas a roçar no nosso rosto, um gosto de liberdade aparente que na realidade traz um guião carente de realizador? Uma dependência doente da dor que nos decepa a razão e nos trepa pelo corpo até trazer um tempo morto e um lamento de prazer num porto inseguro e escuro qualquer...

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Inferno de Dante

O teu corpo é um lençol transparente,
que cobre e descobre o meu...
Luz dormente do desejo,
beijo que se perde e se mede
na resistência da entrega,
fúria cega dos sentidos,
gemidos interrompidos
 por línguas gulosas,
sequiosas de conhecer o sabor de cor.
Amor, perdição, tentação
o que interessa
quando o pecado tem as rédeas da acção?
Volúpia expressa no teu olhar
a trespassar alma e corpo,
mãos que apertam,
unhas que marcam,
palavras que escapam
sem moral ou razão,
coração a trote,
galope sem sela,
janela para o inferno.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Requiem for a Dream...

O sonho solta-se,
como beijo-ave, suave,
que viaja, sem que haja, um destino destinado.
Roça, ao de leve,
no momento breve que encontra
os lábios doces de alguém
e surpreende quando nos rende,
numa respiração partilhada.
O sonho revela-se,
como nudez lenta e compassada
e sela-se numa porta que se fecha atrás de nós,
na voz que amacia o timbre,
no olhar que se importa,
na alma que confidencia,
no corpo que se entrega,
no coração que compreende e sossega.