sábado, 30 de maio de 2020

in Purpurinas...

    O rosto dela era um percurso sinuoso de histórias, uma espécie de diário de bordo tatuado nos olhos e no sorriso.
     Nascera assim, condenada a acreditar que o mundo se pode emocionar com o perfume das flores, àvida de vida, de peito escancarado a olhar  para dentro dos outros e a apaixonar-se perdidamente, mesmo sabendo que em campos abertos não existem ecos.
  Há muito tempo que deixara de sonhar com a mão de alguém, não porque o desgosto lhe tenha roubado o alento, sempre soubera ser colo, só já não sabia ser choro.
Demorou o olhar nas costas dele, beijou-lhe a despedida nos passos e abraçou os abraços que morriam por dar. Na sua alma o Amor era um eterno viajante que podia sempre pernoitar. Sabia que até o Amor mais frágil vale a pena na pequena circunstância em que a ânsia de o fazer prevalecer o torna ágil e audaz e nos faz entender que nos podemos estender pelos outros. E mesmo que o Inverno rigoroso nos  gele os lábios de roxo e sele as palavras que trancámos nos momentos tão pouco sábios em que cortejamos o nosso egoísmo o Amor é o eufemismo que a eternidade nos empresta e a única verdade que nos resta.

sábado, 23 de maio de 2020

Blame it on the stars...

A noite é a venda acetinada que perpetua os sonhos,
a sombra nua que veste o desejo,
 lingua ousada,
que nos prova como um beijo que se rouba
sem remorso...
A noite é dorso de cavalo selvagem,
viagem sem destino,
desatino que se escolhe
num peito que não se encolhe
nem se envergonha.
A noite é a alma de quem sonha,
habitat secreto dos amantes,
errantes no seu sentir de tanto querer,
razões de emoções periclitantes!
A noite é voto de confiança,
esperança que se sela no escuro,
hálito de Amor puro
a ensinar o caminho,
carinho que se compromete
e promete ficar além da Dor
e aquém de nós.





quinta-feira, 21 de maio de 2020

in Purpurinas...

O sonho era um fôlego mais suave que lhe descia pela face e a ruborizava de esperança, a beleza fora substituída por confiança numa história de vida invejável...
- É lamentável que não sejamos eternos,  - disse-me nessa vez com um sorriso  quase provocador.
 -O  Amor quer-se para sempre num corpo dormente e mortal que nada tem de especial...
Fiquei a observar a sensatez e a sorte de quem já deve anos à morte e ainda assim não pára de crescer e aprender todos os dias!
Fechava os olhos enquanto falava talvez por cansaço, talvez pelo embaraço de me ver tão embevecido a ouvi-la e senti-la como se lhe tocasse, como tocara há muitos anos enquanto os enganos da juventude me levaram por outros caminhos igualmente importantes e desafiantes.
- Podemos apaixonarmos-nos mais do que uma vez por alguém?  - perguntei
-Podemos e devemos apaixonarmos-nos todos os minutos e fazermos os lutos de cada tempo que se vai e leva o motivo esquivo que nos fez apaixonar!

terça-feira, 19 de maio de 2020

Paper heart

Existem silêncios que gritam mais do que mil palavras,
atitudes escravas de ideologias vazias e desprendidas,
vidas interrompidas que não se  vivem nem interlaçam
e se espaçam em abismos.
Corações feitos papel que se rasgam,
protagonismos doentios,
vazios de profundidade,
o cinismo é o fim da idade da inocência.
Amor, ciência ou demência exata?
Solidão que te mata e trucida o coração,
vida perfeita por fora e desfeita por dentro...
O que precisas quando economizas aquilo que és?
Imagem desfocada e projectada de ti,
miopia ou estigmatismo?
A partilha é um magnetismo perigoso...
Dia que devora o dia anterior
e te deixa um dia mais perto da morte.
A arrogância é um magnetismo orgulhoso...
Hora que voa como avião de papel amarrotado,
coração que já não mede a distância da minha pele,
pecado que a alma não perdoa.
Coração que é papel jogado fora.





sábado, 2 de maio de 2020

Sonnet song...

Ele chega,
na tarde em que o sol arde a meia haste e nos cega,
entrega que não nos rende
nem prende aquilo que fomos...
Somos estranhos que não se identificam
mas que ficam, porque sim...
Tenho em mim todos os medos do mundo...
Segredos que nunca digo alto
e este sobressalto constante...
Temo o Amor e remo para terra...
Acho que já não suporto mais desilusões,
nem corações remendados,
tornei-me amante da Dor,
numa segurança controlada e confortável.
Depois Ele,
instável e provocador,
tão difícil de ler e prever,
pedante e arrogante tantas vezes,
pura cobiça e conquista anarquista...
Revezes da vida e da loucura que me deixam perdida.
Pudesse eu manter o coração esquivo cativo da razão...
Pudesse eu viver o momento sem envolvimento...
Pudesse eu não ter esta esperança toda no mundo
e não ser feita de sonho, de Amor e profundo deslumbramento.