terça-feira, 21 de abril de 2020
"O Pedido" Desafio semana 2 Laboratório de Escrita
Há momentos na nossa vida que parecem emoldurados e ficam perpetuados no tempo, como se um fotógrafo, indelevelmente, nos tornasse musas da sua arte que congela, de forma bela, o movimento.
Tinham-se passado meses desde que tinha estado ali, naquele mesmo campo de trigo, a partilhar gargalhadas rasgadas contigo, corpos nus e soltos, revoltos um no outro, o dourado refletido nos teus olhos, aquele pequeno sinal que tens ao pé da boca a provocar-me em cada sorriso, a minha voz rouca a arrepiar-te a pele, o mel das tuas promessas confessas no meu ouvido, as ondas rebeldes do teus cabelos a deslizar pelo meu peito, agora desfeito por te ter perdido.
O Amor é o eterno que nos ilude com o momento mais terno das nossas vidas e eu, Sofia, amei-te como pude. Amei o teu sorriso fácil, a mente ágil e revoltada e essa encruzilhada de sentimentos de meteorologia bipolar, ensinaste-me a amar as tuas noites de trovoada e a tua calmaria de mar em espelho de água. E eu, velho de alma, sempre à procura de uma perfeição transcendente pensei ser a tua cura quando nunca estiveste doente.
Quis moldar-te, transformar-te, enfiar-te no tubo de ensaio da minha mente analítica e com a diplomacia política que me é tão característica, pedi-te que casasses comigo, em Maio.
Nesse dia tínhamos jantado no restaurante pedante que eu reservei criteriosamente para o momento oficial, sei que era cozinha de autor e que me disseste a determinada altura, com a desenvoltura que te é tão natural,
-Amor, tens um bocadinho de salsa no dente da frente! E sorriste com aquele ar maternal quase condescendente que sempre me irritou solenemente.Tinha tudo para te oferecer, uma casa maior, uma vida melhor, segurança, ou seja nada que estivesses interessada.
Tiveste esperança que reformulasse o pedido e te tivesse, quiçá dito que só no teu colo sentia consolo, mas eu, arrogante e ignorante, senti-me ofendido por não te teres enchido de lágrimas e não haver um loop de sins a sair dos teus lábios, sempre tão mais sábios que os meus.
Disseste-me Adeus, viraste as costas e foste embora, derrubando todas as minhas apostas ganhas pelo chão onde jazia também o entulho do meu orgulho e agora o teu coração.
Depois disso o silêncio, partilhado pelos dois adivinhando que não existiria um depois, dias que se atropelaram e devoraram em galope e eu a desferir o golpe final quando te liguei a dizer que nunca mais te queria ver.
Neste presente, ausente de ti, com a nossa foto na mão daquelas férias maravilhosas em Milão, tenho noção que me perdi desde que te deixei partir.
Hoje tenho a certeza que tudo o que tenho para te oferecer é o meu corpo rendido no teu, a minha alma nua decifrada pela tua, a minha existência sem resistência, a calma de querer acordar todos os dias ao teu lado e o momento estranho de te ouvir a cantar tão mal, no banho.
Espero por ti, agora, aqui, neste campo de trigo para fazer Amor contigo, como esperei ontem, e no dia anterior, cheio de fé que um dia o nosso Amor resiliente te convença e te vença pelo cansaço e que sejamos abraço um do outro, finalmente!
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)


Sem comentários:
Publicar um comentário