O meu olhar demorou-se na luz dormente e amarela que me violentava o rosto,
tudo me parecia difuso
e confuso, fechei os olhos, tentei lubrificar a visão, a cabeça num latejo
permanente, a mente saltitava entre recordações avulsas de vários puzzles
que não conseguia montar.
Onde estava? Como tinha chegado até ali?
tudo me parecia difuso
e confuso, fechei os olhos, tentei lubrificar a visão, a cabeça num latejo
permanente, a mente saltitava entre recordações avulsas de vários puzzles
que não conseguia montar.
Onde estava? Como tinha chegado até ali?
Tentei mexer-se mas os braços marmoreados doíam-me e não respondiam
à vontade do movimento.
Tinha sede, tanta sede, passei a língua nos lábios e senti
o sabor metálico do sangue.
Subitamente passos e vozes,à vontade do movimento.
Tinha sede, tanta sede, passei a língua nos lábios e senti
o sabor metálico do sangue.
-Está a despertar
-Tente não se mexer Joana, está no Hospital, teve um acidente.
-Tente não se mexer Joana, está no Hospital, teve um acidente.
O embate da realidade, “tente não se mexer” foi o que fiz
nos últimos três anos evitar mexer-me, não reagir,
sujeitar-me a uma vassalagem medíocre,
uma submissão vergonhosa e o Miguel, o sempre encantador Miguel,
que me vampirizou até à última gota que me transformou num fantasma,
que me destituiu de quem era.
Fechei os olhos, virei o rosto para o lado, “teve um acidente”,
a minha vida resumida numa frase.
Perturbador como a violência pode mascarar-se tanto tempo
de amor verdadeiro,
perturbador aquilo que toleramos às pessoas que amamos,
onde fica a fronteira entre o nosso Amor próprio e o Amor pelos outros?
nos últimos três anos evitar mexer-me, não reagir,
sujeitar-me a uma vassalagem medíocre,
uma submissão vergonhosa e o Miguel, o sempre encantador Miguel,
que me vampirizou até à última gota que me transformou num fantasma,
que me destituiu de quem era.
Fechei os olhos, virei o rosto para o lado, “teve um acidente”,
a minha vida resumida numa frase.
Perturbador como a violência pode mascarar-se tanto tempo
de amor verdadeiro,
perturbador aquilo que toleramos às pessoas que amamos,
onde fica a fronteira entre o nosso Amor próprio e o Amor pelos outros?
Tive um acidente mas sobrevivi e ele o meu captor emocional,
o adorável ego-maníaco Miguel, teria sobrevivido?
Íamos tão depressa na ponte, ele a sorrir, como sempre e a dizer calmamente:
- Já não me dás tusa Joana, eu tento meu Amor mas és tão desinteressante,
sabes que eu tento tanto gostar de ti.
As lágrimas desta vez não correram, o meu corpo sentiu conforto
na pressão do acelerador,
o volante colado nas mãos como se me tivesse tornado mecânica,
agora era só válvulas,
velas, pistons e outras peças que não faço a mínima ideia do que são,
ou para que servem.
Isolei a voz dele, concentrei-me no rio, quem era o ínfimo Miguel perante o rio?
Quem era o minúsculo Miguel perante o meu momentâneo domínio absoluto
sobre o alcatrão?
Pela primeira vez, em muito tempo, senti-me livre,
livre do pretensiosismo do Miguel,
daquele comensalismo doentio que nos unira e se tornara em canibalismo.
E de repente piruetas, senti-me um bailado de Bolshoi,
os gritos aterrorizados do intrépido Miguel, o embalo do rio à
distância doce de um embate e toda eu era simbiose mecânica,
velocidade, caos e paz de espírito.
Dias depois as vozes voltaram como uma estalada de realidade:
-O seu marido está bastante confuso mas fora de perigo.
Lamento, no entanto,
informar que o condutor do veículo no qual a Joana embateu não resistiu,
teve uma reação adversa à Heparina.
Estava óleo derramado na ponte, foi um acidente, um terrível acidente
e eu matei alguém chamado Francisco.
As enfermeiras sugeriam, constantemente, que visitasse o Miguel
que já estava na enfermaria e continuava extremamente confuso,
parecia ter perdido a noção da sua identidade
e pedia constantemente para o deixarem morrer.
Se eu não temesse tanto o julgamento dos outros
também pediria para o deixarem morrer.
Na minha mente só deambulava a morte que tinha causado
ao desconhecido de nome Francisco,
que tipo de pessoa seria, se teria família?
O fabuloso Miguel tinha conseguido destruir duas vidas,
provavelmente destroçado várias de uma vez só
e como a erva daninha que era tinha sobrevivido
e conseguia agora a simpatia e empatia de quem o cuidava.
Não, não ia visitar aquele veneno de merda à enfermaria,
só se fosse para o sufocar com uma almofada.
Três dias depois tivemos alta os dois e tive de o levar para casa,
nada poderia preparar-me ou prever
aquilo que o destino me reservara naquele dia,
naquela ponte, ante a tranquilidade provocadora daquele rio.
Testemunho do Francisco:o adorável ego-maníaco Miguel, teria sobrevivido?
Íamos tão depressa na ponte, ele a sorrir, como sempre e a dizer calmamente:
- Já não me dás tusa Joana, eu tento meu Amor mas és tão desinteressante,
sabes que eu tento tanto gostar de ti.
As lágrimas desta vez não correram, o meu corpo sentiu conforto
na pressão do acelerador,
o volante colado nas mãos como se me tivesse tornado mecânica,
agora era só válvulas,
velas, pistons e outras peças que não faço a mínima ideia do que são,
ou para que servem.
Isolei a voz dele, concentrei-me no rio, quem era o ínfimo Miguel perante o rio?
Quem era o minúsculo Miguel perante o meu momentâneo domínio absoluto
sobre o alcatrão?
Pela primeira vez, em muito tempo, senti-me livre,
livre do pretensiosismo do Miguel,
daquele comensalismo doentio que nos unira e se tornara em canibalismo.
E de repente piruetas, senti-me um bailado de Bolshoi,
os gritos aterrorizados do intrépido Miguel, o embalo do rio à
distância doce de um embate e toda eu era simbiose mecânica,
velocidade, caos e paz de espírito.
Dias depois as vozes voltaram como uma estalada de realidade:
-O seu marido está bastante confuso mas fora de perigo.
Lamento, no entanto,
informar que o condutor do veículo no qual a Joana embateu não resistiu,
teve uma reação adversa à Heparina.
Estava óleo derramado na ponte, foi um acidente, um terrível acidente
e eu matei alguém chamado Francisco.
As enfermeiras sugeriam, constantemente, que visitasse o Miguel
que já estava na enfermaria e continuava extremamente confuso,
parecia ter perdido a noção da sua identidade
e pedia constantemente para o deixarem morrer.
Se eu não temesse tanto o julgamento dos outros
também pediria para o deixarem morrer.
Na minha mente só deambulava a morte que tinha causado
ao desconhecido de nome Francisco,
que tipo de pessoa seria, se teria família?
O fabuloso Miguel tinha conseguido destruir duas vidas,
provavelmente destroçado várias de uma vez só
e como a erva daninha que era tinha sobrevivido
e conseguia agora a simpatia e empatia de quem o cuidava.
Não, não ia visitar aquele veneno de merda à enfermaria,
só se fosse para o sufocar com uma almofada.
Três dias depois tivemos alta os dois e tive de o levar para casa,
nada poderia preparar-me ou prever
aquilo que o destino me reservara naquele dia,
naquela ponte, ante a tranquilidade provocadora daquele rio.
Esclerose lateral amiotrófica,
o diagnóstico a martelar-me o cérebro, a minha vida a passar em loop,
diante dos olhos, e o meu futuro ensombrado pela guilhotina
de uma certeza decadente.
Era médico, sabia muito bem o que podia esperar,
a paralisação gradual e consciente da pessoa que era,
só tinha a certeza de uma coisa nascera para cuidar dos outros e não
para que cuidassem de mim.
A vida também tem de representar aquilo que somos
se não passa a ser apenasum ventilador invisível
que respira por nós.
Peguei no carro com uma única certeza tive uma vida feliz,
fiz tudo o que almejei,
beijei com vontade todas as mulheres que amei
e abracei a minha profissão como missão de vida,
terminaria o meu percurso consciente de que valeu a pena
e se alguns considerassem que fui egoísta por decidir suicidar-me
também teriam direito a alguma raiva para lhes tornar o luto mais fácil.
Quando vi a Joana pela primeira vez foi como
quando se avista a terra ao fim de 200 dias perdido no mar,
estava revoltado, ausente de mim mesmo,
preso a um corpo que não era meu,
ela fez-me respirar devagar.
Não foi fácil aproximar-me dela
a sua alma estava fraturada em muitas partes
e muitas das arestas jamais voltariam a encaixar perfeitamente.
Ela chorou a admitir que me tinha morto e mal sabia que me tinha salvo
e que o continuaria a fazer para o resto das nossas vidas.
Quando acordei no Hospital, num corpo que não reconhecia,
só quando ouvi a sua voz e me vi reflectido naquele olhar amendoado
senti tranquilidade pela primeira vez,
-Vamos para casa Miguel, venceste, vamos para casa.
Só tive consciência de duas coisas,
que não me chamava Miguel mas que queria ir para casa com ela.
Mais tarde apercebi-me também que por algum motivo que jamais entenderemos
o universo achou que merecíamos, os dois, uma segunda oportunidade,
sem sombras de doenças degenerativas sejam elas físicas, mentais ou mesmo emocionais.
Aprendi que o Amor é aquele fármaco inexplicável que nos vicia e cura
de formas que nem sabíamos que existia uma terapêutica
e que o mais difícil é aprendermos a confiar no nosso coração,
quando fomos formatados para deixar que a razão seja o nosso guia.
Testemunho da Joana:o diagnóstico a martelar-me o cérebro, a minha vida a passar em loop,
diante dos olhos, e o meu futuro ensombrado pela guilhotina
de uma certeza decadente.
Era médico, sabia muito bem o que podia esperar,
a paralisação gradual e consciente da pessoa que era,
só tinha a certeza de uma coisa nascera para cuidar dos outros e não
para que cuidassem de mim.
A vida também tem de representar aquilo que somos
se não passa a ser apenasum ventilador invisível
que respira por nós.
Peguei no carro com uma única certeza tive uma vida feliz,
fiz tudo o que almejei,
beijei com vontade todas as mulheres que amei
e abracei a minha profissão como missão de vida,
terminaria o meu percurso consciente de que valeu a pena
e se alguns considerassem que fui egoísta por decidir suicidar-me
também teriam direito a alguma raiva para lhes tornar o luto mais fácil.
Quando vi a Joana pela primeira vez foi como
quando se avista a terra ao fim de 200 dias perdido no mar,
estava revoltado, ausente de mim mesmo,
preso a um corpo que não era meu,
ela fez-me respirar devagar.
Não foi fácil aproximar-me dela
a sua alma estava fraturada em muitas partes
e muitas das arestas jamais voltariam a encaixar perfeitamente.
Ela chorou a admitir que me tinha morto e mal sabia que me tinha salvo
e que o continuaria a fazer para o resto das nossas vidas.
Quando acordei no Hospital, num corpo que não reconhecia,
só quando ouvi a sua voz e me vi reflectido naquele olhar amendoado
senti tranquilidade pela primeira vez,
-Vamos para casa Miguel, venceste, vamos para casa.
Só tive consciência de duas coisas,
que não me chamava Miguel mas que queria ir para casa com ela.
Mais tarde apercebi-me também que por algum motivo que jamais entenderemos
o universo achou que merecíamos, os dois, uma segunda oportunidade,
sem sombras de doenças degenerativas sejam elas físicas, mentais ou mesmo emocionais.
Aprendi que o Amor é aquele fármaco inexplicável que nos vicia e cura
de formas que nem sabíamos que existia uma terapêutica
e que o mais difícil é aprendermos a confiar no nosso coração,
quando fomos formatados para deixar que a razão seja o nosso guia.
Quando trouxe o Miguel para casa vi o que os meus olhos quiseram ver,
foi preciso tornar-me cega para voltar a confiar em alguém
e não nos é fácil abdicarmos do nosso órgão mais precioso, a visão.
Foram meses e meses de fisioterapia
até que ele recuperasse a mobilidade completamente,
não o reconhecia nas atitudes, nem na gratidão genuína que aparentava.
Cada vez que ele me dizia que se chamava Francisco reconhecia-lhe
uma nova forma doentia de tortura, chorava e chamava-lhe de monstro.
Não é fácil aprendermos a amar novamente,
requer uma coragem imensa e uma audacidade que roça o irresponsável,
voltarmos a apaixonarmos-nos por um corpo que um dia foi a nossa campa em vida
requer o alcance limiar da loucura e o despojar completo da nossa auto-preservação.
Quando o sentimento que é suposto nos trazer maior felicidade nos traz vontade de morrer,
toda a nossa existência se torna uma patética contradição,
metemos todo o sentir em perspectiva e a conclusão é sempre a mesma,
não vale a pena.
De princípio e por muito tempo pensei que tivesse perdido
completamente a sanidade mental,
mas com o passar dos meses aquele interesse irritantemente genuíno
que ele demonstrava pela real pessoa que eu era,
a ausência de críticas, expectativas ou rótulos para me definir.
As gargalhadas francas que dava pela primeira vez,
o toque dele,
o cheiro dele,
tudo me parecia diferente,
até a forma como colocava a voz e como lhe baixava o tom
para dizer o meu nome.
Estava a apaixonar-me e começava,
sem querer porque me sentia ridiculamente ameaçadaimediatamente a seguir,
a chamar-lhe Francisco de quando em vez.
Um dia ficou só Francisco, o único e legítimo ocupante daquele corpo,
nesse dia percebi que o Amor é sempre uma possibilidade
que a nossa existência procura e encontra
enquanto continuidade de um Universo maior e mais sábio
que aquilo que os nossos olhos se limitam a ver.
foi preciso tornar-me cega para voltar a confiar em alguém
e não nos é fácil abdicarmos do nosso órgão mais precioso, a visão.
Foram meses e meses de fisioterapia
até que ele recuperasse a mobilidade completamente,
não o reconhecia nas atitudes, nem na gratidão genuína que aparentava.
Cada vez que ele me dizia que se chamava Francisco reconhecia-lhe
uma nova forma doentia de tortura, chorava e chamava-lhe de monstro.
Não é fácil aprendermos a amar novamente,
requer uma coragem imensa e uma audacidade que roça o irresponsável,
voltarmos a apaixonarmos-nos por um corpo que um dia foi a nossa campa em vida
requer o alcance limiar da loucura e o despojar completo da nossa auto-preservação.
Quando o sentimento que é suposto nos trazer maior felicidade nos traz vontade de morrer,
toda a nossa existência se torna uma patética contradição,
metemos todo o sentir em perspectiva e a conclusão é sempre a mesma,
não vale a pena.
De princípio e por muito tempo pensei que tivesse perdido
completamente a sanidade mental,
mas com o passar dos meses aquele interesse irritantemente genuíno
que ele demonstrava pela real pessoa que eu era,
a ausência de críticas, expectativas ou rótulos para me definir.
As gargalhadas francas que dava pela primeira vez,
o toque dele,
o cheiro dele,
tudo me parecia diferente,
até a forma como colocava a voz e como lhe baixava o tom
para dizer o meu nome.
Estava a apaixonar-me e começava,
sem querer porque me sentia ridiculamente ameaçadaimediatamente a seguir,
a chamar-lhe Francisco de quando em vez.
Um dia ficou só Francisco, o único e legítimo ocupante daquele corpo,
nesse dia percebi que o Amor é sempre uma possibilidade
que a nossa existência procura e encontra
enquanto continuidade de um Universo maior e mais sábio
que aquilo que os nossos olhos se limitam a ver.
Testemunho do Francisco:
É preciso passarmos pelo deserto
para aprendermos o valor de uma gota de água,
cada pequena conquista que alcançava com a Joana trazia-me uma felicidade plena,
cada vez que conseguia que me reconhecesse
naquele corpo que nem eu reconhecia, chorava de alegria.
Talvez um dia ela me conseguisse amar
e todo o nosso percurso fizesse sentido até aquele momento fulcral
em que os nossos carros, as nossas vidas e os nossos destinos embateram.
O dia em que a beijei pela primeira vez e ela correspondeu e fomos, depois,
corpo e alma um do outro numa sofreguidão
que as palavras não trazem justiça,
lembrei-me da tatuagem que tinha no meu outro corpo:
“Nankurunaisa” (Com o tempo tudo se acerta!)
E este era o nosso tempo, esta era a nossa oportunidade
de sermos a oportunidade um do outro,
nem sempre tem de fazer sentido, às vezes basta ser sentido!
É preciso passarmos pelo deserto
para aprendermos o valor de uma gota de água,
cada pequena conquista que alcançava com a Joana trazia-me uma felicidade plena,
cada vez que conseguia que me reconhecesse
naquele corpo que nem eu reconhecia, chorava de alegria.
Talvez um dia ela me conseguisse amar
e todo o nosso percurso fizesse sentido até aquele momento fulcral
em que os nossos carros, as nossas vidas e os nossos destinos embateram.
O dia em que a beijei pela primeira vez e ela correspondeu e fomos, depois,
corpo e alma um do outro numa sofreguidão
que as palavras não trazem justiça,
lembrei-me da tatuagem que tinha no meu outro corpo:
“Nankurunaisa” (Com o tempo tudo se acerta!)
E este era o nosso tempo, esta era a nossa oportunidade
de sermos a oportunidade um do outro,
nem sempre tem de fazer sentido, às vezes basta ser sentido!


Sem comentários:
Publicar um comentário