sábado, 18 de abril de 2020

Nankurunaisa (II) (Desafio semanal 1 laboratório de Escrita)





Testemunho da Joana:
O meu olhar demorou-se na luz dormente e amarela que me violentava o rosto, 
tudo me parecia difuso
 e confuso, fechei os olhos, tentei lubrificar a visão, a cabeça num latejo 
permanente, a mente saltitava entre recordações avulsas de vários puzzles 
que não conseguia montar. 
Onde estava? Como tinha chegado até ali? 
Tentei mexer-se mas os braços marmoreados doíam-me e não respondiam 
à vontade do movimento. 
Tinha sede, tanta sede, passei a língua nos lábios e senti 
o sabor metálico do sangue. 
Subitamente passos e vozes,
-Está a despertar
-Tente não se mexer Joana, está no Hospital, teve um acidente.

O embate da realidade, “tente não se mexer” foi o que fiz 
nos últimos três anos evitar mexer-me, não reagir, 
sujeitar-me a uma vassalagem medíocre,
 uma submissão vergonhosa e o Miguel, o sempre encantador Miguel, 
que me vampirizou até à última gota que me transformou num fantasma, 
que me destituiu de quem era. 
Fechei os olhos, virei o rosto para o lado, “teve um acidente”, 
a minha vida resumida numa frase. 
Perturbador como a violência pode mascarar-se tanto tempo 
de amor verdadeiro, 
perturbador aquilo que toleramos às pessoas que amamos, 
onde fica a fronteira entre o nosso Amor próprio e o Amor pelos outros?
  Tive um acidente mas sobrevivi e ele o meu captor emocional, 
o adorável ego-maníaco Miguel, teria sobrevivido? 
Íamos tão depressa na ponte, ele a sorrir, como sempre e a dizer calmamente:
- Já não me dás tusa Joana, eu tento meu Amor mas és tão desinteressante, 
sabes que eu tento tanto gostar de ti.
As lágrimas desta vez não correram, o meu corpo sentiu conforto 
na pressão do acelerador, 
o volante colado nas mãos como se me tivesse tornado mecânica, 
agora era só válvulas, 
velas,  pistons e outras peças que não faço a mínima ideia do que são, 
ou para que servem. 
Isolei a voz dele, concentrei-me no rio, quem era o ínfimo Miguel perante o rio? 
Quem era o minúsculo Miguel perante o meu momentâneo domínio absoluto
 sobre o alcatrão?
Pela primeira vez, em muito tempo, senti-me livre, 
livre do pretensiosismo do Miguel, 
daquele comensalismo doentio que nos unira e se tornara em canibalismo. 
E de repente piruetas, senti-me um bailado de Bolshoi, 
os gritos aterrorizados do intrépido Miguel, o embalo do rio à 
distância doce de um embate e toda eu era simbiose mecânica, 
velocidade, caos e paz de espírito.
Dias depois as vozes voltaram como uma estalada de realidade:
-O seu marido está bastante confuso mas fora de perigo. 
Lamento, no entanto, 
informar que o condutor do veículo no qual a Joana embateu não resistiu, 
teve uma reação adversa à Heparina.
Estava óleo derramado na ponte, foi um acidente, um terrível acidente 
e eu matei alguém chamado Francisco.
As enfermeiras sugeriam, constantemente, que visitasse o Miguel 
que já estava na enfermaria e continuava extremamente confuso, 
parecia ter perdido a noção da sua identidade 
e pedia constantemente para o deixarem morrer.
Se eu não temesse tanto o julgamento dos outros 
também pediria para o deixarem morrer. 
Na minha mente só deambulava a morte que tinha causado
 ao desconhecido de nome Francisco, 
que tipo de pessoa seria, se teria família?
O fabuloso Miguel tinha conseguido destruir duas vidas, 
provavelmente destroçado várias de uma vez só 
e como a erva daninha que era tinha sobrevivido 
e conseguia agora a simpatia e empatia de quem o cuidava. 
Não, não ia visitar aquele veneno de merda à enfermaria, 
só se fosse para o sufocar com uma almofada.
Três dias depois tivemos alta os dois e tive de o levar para casa, 
nada poderia preparar-me ou prever
 aquilo que o destino me reservara naquele dia, 
naquela ponte, ante a tranquilidade provocadora daquele rio.
Testemunho do Francisco:
 Esclerose lateral amiotrófica, 
o diagnóstico a martelar-me o cérebro, a minha vida a passar em loop,
diante dos olhos, e o meu futuro ensombrado pela guilhotina 
de uma certeza decadente. 
Era médico, sabia muito bem o que podia esperar, 
a paralisação gradual e consciente da pessoa que era, 
só tinha a certeza de uma coisa nascera para cuidar dos outros e não 
para que cuidassem de mim. 
A vida também tem de representar aquilo que somos 
se não passa a ser apenasum ventilador invisível 
que respira por nós.
Peguei no carro com uma única certeza tive uma vida feliz,
 fiz tudo o que almejei, 
beijei com vontade todas as mulheres que amei 
e abracei a minha profissão como missão de vida, 
terminaria o meu percurso consciente de que valeu a pena 
e se alguns considerassem que fui egoísta por decidir suicidar-me 
também teriam direito a alguma raiva para lhes tornar o luto mais fácil. 
Quando vi a Joana pela primeira vez foi como 
quando se avista a terra ao fim de 200 dias perdido no mar, 
estava revoltado, ausente de mim mesmo,
 preso a um corpo que não era meu, 
ela fez-me respirar devagar. 
Não foi fácil aproximar-me dela 
a sua alma estava fraturada em muitas partes 
e muitas das arestas jamais voltariam a encaixar perfeitamente. 
Ela chorou a admitir que me tinha morto e mal sabia que me tinha salvo 
e que o continuaria a fazer para o resto das nossas vidas.
Quando acordei no Hospital, num corpo que não reconhecia, 
só quando ouvi a sua voz e me vi reflectido naquele olhar amendoado 
senti tranquilidade pela primeira vez,
-Vamos para casa Miguel, venceste, vamos para casa.
Só tive consciência de duas coisas,
que não me chamava Miguel mas que queria ir para casa com ela.
Mais tarde apercebi-me também que por algum motivo que jamais entenderemos 
o universo achou que merecíamos, os dois, uma segunda oportunidade, 
sem sombras de doenças degenerativas sejam elas físicas, mentais ou mesmo emocionais. 
Aprendi que o Amor é aquele fármaco inexplicável que nos vicia e cura 
de formas que nem sabíamos que existia uma terapêutica 
e que o mais difícil é aprendermos a confiar no nosso coração, 
quando fomos formatados para deixar que a razão seja o nosso guia.
Testemunho da Joana:
Quando trouxe o Miguel para casa vi o que os meus olhos quiseram ver, 
foi preciso tornar-me cega para voltar a confiar em alguém 
e não nos é fácil abdicarmos do nosso órgão mais precioso, a visão.
Foram meses e meses de fisioterapia 
até que ele recuperasse a mobilidade completamente, 
não o reconhecia nas atitudes, nem na gratidão genuína que aparentava.
Cada vez que ele me dizia que se chamava Francisco reconhecia-lhe 
uma nova forma doentia de tortura, chorava e chamava-lhe de monstro.
Não é fácil aprendermos a amar novamente, 
requer uma coragem imensa e uma audacidade que roça o irresponsável, 
voltarmos a apaixonarmos-nos por um corpo que um dia foi a nossa campa em vida 
requer o alcance limiar da loucura e o despojar completo da nossa auto-preservação.
Quando o sentimento que é suposto nos trazer maior felicidade nos traz vontade de morrer, 
toda a nossa existência se torna uma patética contradição, 
metemos todo o sentir em perspectiva e a conclusão é sempre a mesma, 
não vale a pena.
De princípio e por muito tempo pensei que tivesse perdido 
completamente a sanidade mental, 
mas com o passar dos meses aquele interesse irritantemente genuíno 
que ele demonstrava pela real pessoa que eu era, 
a ausência de críticas, expectativas ou rótulos para me definir. 
As gargalhadas francas que dava pela primeira vez, 
o toque dele, 
o cheiro dele, 
tudo me parecia diferente, 
até a forma como colocava a voz e como lhe baixava o tom 
para dizer o meu nome.
Estava a apaixonar-me e começava, 
sem querer porque me sentia ridiculamente ameaçadaimediatamente a seguir, 
a chamar-lhe Francisco de quando em vez.
Um dia ficou só Francisco, o único e legítimo ocupante daquele corpo, 
nesse dia percebi que o Amor é sempre uma possibilidade 
que a nossa existência procura e encontra 
enquanto continuidade de um Universo maior e mais sábio 
que aquilo que os nossos olhos se limitam a ver.
Testemunho do Francisco:
É preciso passarmos pelo deserto 
para aprendermos o valor de uma gota de água, 
cada pequena conquista que alcançava com a Joana trazia-me uma felicidade plena, 
cada vez que conseguia que me reconhecesse
naquele corpo que nem eu reconhecia, chorava de alegria. 
Talvez um dia ela me conseguisse amar 
e todo o nosso percurso fizesse sentido até aquele momento fulcral 
em que os nossos carros, as nossas vidas e os nossos destinos embateram.
O dia em que a beijei pela primeira vez e ela correspondeu e fomos, depois, 
corpo e alma um do outro numa sofreguidão 
que as palavras não trazem justiça, 
lembrei-me da tatuagem que tinha no meu outro corpo:
“Nankurunaisa” (Com o tempo tudo se acerta!)
E este era o nosso tempo, esta era a nossa oportunidade
 de sermos a oportunidade um do outro, 
nem sempre tem de fazer sentido, às vezes basta ser sentido!

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