O meu corpo,
calor ,
pele
e entrega,
regra quebrada
e destroçada num carinho...
Caminho dos teus dedos quentes,
segredos que a minha respiração descompassa
e sussurra entre dentes,
o teu nome,
exigência,
pedido,
voz que abraça e ordena,
terna e selvagem,
viagem pelos sentidos,
Prazer de pertencer,
cumplicidade?
Quem sabe...
sábado, 25 de abril de 2020
terça-feira, 21 de abril de 2020
"O Pedido" Desafio semana 2 Laboratório de Escrita
Há momentos na nossa vida que parecem emoldurados e ficam perpetuados no tempo, como se um fotógrafo, indelevelmente, nos tornasse musas da sua arte que congela, de forma bela, o movimento.
Tinham-se passado meses desde que tinha estado ali, naquele mesmo campo de trigo, a partilhar gargalhadas rasgadas contigo, corpos nus e soltos, revoltos um no outro, o dourado refletido nos teus olhos, aquele pequeno sinal que tens ao pé da boca a provocar-me em cada sorriso, a minha voz rouca a arrepiar-te a pele, o mel das tuas promessas confessas no meu ouvido, as ondas rebeldes do teus cabelos a deslizar pelo meu peito, agora desfeito por te ter perdido.
O Amor é o eterno que nos ilude com o momento mais terno das nossas vidas e eu, Sofia, amei-te como pude. Amei o teu sorriso fácil, a mente ágil e revoltada e essa encruzilhada de sentimentos de meteorologia bipolar, ensinaste-me a amar as tuas noites de trovoada e a tua calmaria de mar em espelho de água. E eu, velho de alma, sempre à procura de uma perfeição transcendente pensei ser a tua cura quando nunca estiveste doente.
Quis moldar-te, transformar-te, enfiar-te no tubo de ensaio da minha mente analítica e com a diplomacia política que me é tão característica, pedi-te que casasses comigo, em Maio.
Nesse dia tínhamos jantado no restaurante pedante que eu reservei criteriosamente para o momento oficial, sei que era cozinha de autor e que me disseste a determinada altura, com a desenvoltura que te é tão natural,
-Amor, tens um bocadinho de salsa no dente da frente! E sorriste com aquele ar maternal quase condescendente que sempre me irritou solenemente.Tinha tudo para te oferecer, uma casa maior, uma vida melhor, segurança, ou seja nada que estivesses interessada.
Tiveste esperança que reformulasse o pedido e te tivesse, quiçá dito que só no teu colo sentia consolo, mas eu, arrogante e ignorante, senti-me ofendido por não te teres enchido de lágrimas e não haver um loop de sins a sair dos teus lábios, sempre tão mais sábios que os meus.
Disseste-me Adeus, viraste as costas e foste embora, derrubando todas as minhas apostas ganhas pelo chão onde jazia também o entulho do meu orgulho e agora o teu coração.
Depois disso o silêncio, partilhado pelos dois adivinhando que não existiria um depois, dias que se atropelaram e devoraram em galope e eu a desferir o golpe final quando te liguei a dizer que nunca mais te queria ver.
Neste presente, ausente de ti, com a nossa foto na mão daquelas férias maravilhosas em Milão, tenho noção que me perdi desde que te deixei partir.
Hoje tenho a certeza que tudo o que tenho para te oferecer é o meu corpo rendido no teu, a minha alma nua decifrada pela tua, a minha existência sem resistência, a calma de querer acordar todos os dias ao teu lado e o momento estranho de te ouvir a cantar tão mal, no banho.
Espero por ti, agora, aqui, neste campo de trigo para fazer Amor contigo, como esperei ontem, e no dia anterior, cheio de fé que um dia o nosso Amor resiliente te convença e te vença pelo cansaço e que sejamos abraço um do outro, finalmente!
sábado, 18 de abril de 2020
Nankurunaisa (II) (Desafio semanal 1 laboratório de Escrita)
O meu olhar demorou-se na luz dormente e amarela que me violentava o rosto,
tudo me parecia difuso
e confuso, fechei os olhos, tentei lubrificar a visão, a cabeça num latejo
permanente, a mente saltitava entre recordações avulsas de vários puzzles
que não conseguia montar.
Onde estava? Como tinha chegado até ali?
tudo me parecia difuso
e confuso, fechei os olhos, tentei lubrificar a visão, a cabeça num latejo
permanente, a mente saltitava entre recordações avulsas de vários puzzles
que não conseguia montar.
Onde estava? Como tinha chegado até ali?
Tentei mexer-se mas os braços marmoreados doíam-me e não respondiam
à vontade do movimento.
Tinha sede, tanta sede, passei a língua nos lábios e senti
o sabor metálico do sangue.
Subitamente passos e vozes,à vontade do movimento.
Tinha sede, tanta sede, passei a língua nos lábios e senti
o sabor metálico do sangue.
-Está a despertar
-Tente não se mexer Joana, está no Hospital, teve um acidente.
-Tente não se mexer Joana, está no Hospital, teve um acidente.
O embate da realidade, “tente não se mexer” foi o que fiz
nos últimos três anos evitar mexer-me, não reagir,
sujeitar-me a uma vassalagem medíocre,
uma submissão vergonhosa e o Miguel, o sempre encantador Miguel,
que me vampirizou até à última gota que me transformou num fantasma,
que me destituiu de quem era.
Fechei os olhos, virei o rosto para o lado, “teve um acidente”,
a minha vida resumida numa frase.
Perturbador como a violência pode mascarar-se tanto tempo
de amor verdadeiro,
perturbador aquilo que toleramos às pessoas que amamos,
onde fica a fronteira entre o nosso Amor próprio e o Amor pelos outros?
nos últimos três anos evitar mexer-me, não reagir,
sujeitar-me a uma vassalagem medíocre,
uma submissão vergonhosa e o Miguel, o sempre encantador Miguel,
que me vampirizou até à última gota que me transformou num fantasma,
que me destituiu de quem era.
Fechei os olhos, virei o rosto para o lado, “teve um acidente”,
a minha vida resumida numa frase.
Perturbador como a violência pode mascarar-se tanto tempo
de amor verdadeiro,
perturbador aquilo que toleramos às pessoas que amamos,
onde fica a fronteira entre o nosso Amor próprio e o Amor pelos outros?
Tive um acidente mas sobrevivi e ele o meu captor emocional,
o adorável ego-maníaco Miguel, teria sobrevivido?
Íamos tão depressa na ponte, ele a sorrir, como sempre e a dizer calmamente:
- Já não me dás tusa Joana, eu tento meu Amor mas és tão desinteressante,
sabes que eu tento tanto gostar de ti.
As lágrimas desta vez não correram, o meu corpo sentiu conforto
na pressão do acelerador,
o volante colado nas mãos como se me tivesse tornado mecânica,
agora era só válvulas,
velas, pistons e outras peças que não faço a mínima ideia do que são,
ou para que servem.
Isolei a voz dele, concentrei-me no rio, quem era o ínfimo Miguel perante o rio?
Quem era o minúsculo Miguel perante o meu momentâneo domínio absoluto
sobre o alcatrão?
Pela primeira vez, em muito tempo, senti-me livre,
livre do pretensiosismo do Miguel,
daquele comensalismo doentio que nos unira e se tornara em canibalismo.
E de repente piruetas, senti-me um bailado de Bolshoi,
os gritos aterrorizados do intrépido Miguel, o embalo do rio à
distância doce de um embate e toda eu era simbiose mecânica,
velocidade, caos e paz de espírito.
Dias depois as vozes voltaram como uma estalada de realidade:
-O seu marido está bastante confuso mas fora de perigo.
Lamento, no entanto,
informar que o condutor do veículo no qual a Joana embateu não resistiu,
teve uma reação adversa à Heparina.
Estava óleo derramado na ponte, foi um acidente, um terrível acidente
e eu matei alguém chamado Francisco.
As enfermeiras sugeriam, constantemente, que visitasse o Miguel
que já estava na enfermaria e continuava extremamente confuso,
parecia ter perdido a noção da sua identidade
e pedia constantemente para o deixarem morrer.
Se eu não temesse tanto o julgamento dos outros
também pediria para o deixarem morrer.
Na minha mente só deambulava a morte que tinha causado
ao desconhecido de nome Francisco,
que tipo de pessoa seria, se teria família?
O fabuloso Miguel tinha conseguido destruir duas vidas,
provavelmente destroçado várias de uma vez só
e como a erva daninha que era tinha sobrevivido
e conseguia agora a simpatia e empatia de quem o cuidava.
Não, não ia visitar aquele veneno de merda à enfermaria,
só se fosse para o sufocar com uma almofada.
Três dias depois tivemos alta os dois e tive de o levar para casa,
nada poderia preparar-me ou prever
aquilo que o destino me reservara naquele dia,
naquela ponte, ante a tranquilidade provocadora daquele rio.
Testemunho do Francisco:o adorável ego-maníaco Miguel, teria sobrevivido?
Íamos tão depressa na ponte, ele a sorrir, como sempre e a dizer calmamente:
- Já não me dás tusa Joana, eu tento meu Amor mas és tão desinteressante,
sabes que eu tento tanto gostar de ti.
As lágrimas desta vez não correram, o meu corpo sentiu conforto
na pressão do acelerador,
o volante colado nas mãos como se me tivesse tornado mecânica,
agora era só válvulas,
velas, pistons e outras peças que não faço a mínima ideia do que são,
ou para que servem.
Isolei a voz dele, concentrei-me no rio, quem era o ínfimo Miguel perante o rio?
Quem era o minúsculo Miguel perante o meu momentâneo domínio absoluto
sobre o alcatrão?
Pela primeira vez, em muito tempo, senti-me livre,
livre do pretensiosismo do Miguel,
daquele comensalismo doentio que nos unira e se tornara em canibalismo.
E de repente piruetas, senti-me um bailado de Bolshoi,
os gritos aterrorizados do intrépido Miguel, o embalo do rio à
distância doce de um embate e toda eu era simbiose mecânica,
velocidade, caos e paz de espírito.
Dias depois as vozes voltaram como uma estalada de realidade:
-O seu marido está bastante confuso mas fora de perigo.
Lamento, no entanto,
informar que o condutor do veículo no qual a Joana embateu não resistiu,
teve uma reação adversa à Heparina.
Estava óleo derramado na ponte, foi um acidente, um terrível acidente
e eu matei alguém chamado Francisco.
As enfermeiras sugeriam, constantemente, que visitasse o Miguel
que já estava na enfermaria e continuava extremamente confuso,
parecia ter perdido a noção da sua identidade
e pedia constantemente para o deixarem morrer.
Se eu não temesse tanto o julgamento dos outros
também pediria para o deixarem morrer.
Na minha mente só deambulava a morte que tinha causado
ao desconhecido de nome Francisco,
que tipo de pessoa seria, se teria família?
O fabuloso Miguel tinha conseguido destruir duas vidas,
provavelmente destroçado várias de uma vez só
e como a erva daninha que era tinha sobrevivido
e conseguia agora a simpatia e empatia de quem o cuidava.
Não, não ia visitar aquele veneno de merda à enfermaria,
só se fosse para o sufocar com uma almofada.
Três dias depois tivemos alta os dois e tive de o levar para casa,
nada poderia preparar-me ou prever
aquilo que o destino me reservara naquele dia,
naquela ponte, ante a tranquilidade provocadora daquele rio.
Esclerose lateral amiotrófica,
o diagnóstico a martelar-me o cérebro, a minha vida a passar em loop,
diante dos olhos, e o meu futuro ensombrado pela guilhotina
de uma certeza decadente.
Era médico, sabia muito bem o que podia esperar,
a paralisação gradual e consciente da pessoa que era,
só tinha a certeza de uma coisa nascera para cuidar dos outros e não
para que cuidassem de mim.
A vida também tem de representar aquilo que somos
se não passa a ser apenasum ventilador invisível
que respira por nós.
Peguei no carro com uma única certeza tive uma vida feliz,
fiz tudo o que almejei,
beijei com vontade todas as mulheres que amei
e abracei a minha profissão como missão de vida,
terminaria o meu percurso consciente de que valeu a pena
e se alguns considerassem que fui egoísta por decidir suicidar-me
também teriam direito a alguma raiva para lhes tornar o luto mais fácil.
Quando vi a Joana pela primeira vez foi como
quando se avista a terra ao fim de 200 dias perdido no mar,
estava revoltado, ausente de mim mesmo,
preso a um corpo que não era meu,
ela fez-me respirar devagar.
Não foi fácil aproximar-me dela
a sua alma estava fraturada em muitas partes
e muitas das arestas jamais voltariam a encaixar perfeitamente.
Ela chorou a admitir que me tinha morto e mal sabia que me tinha salvo
e que o continuaria a fazer para o resto das nossas vidas.
Quando acordei no Hospital, num corpo que não reconhecia,
só quando ouvi a sua voz e me vi reflectido naquele olhar amendoado
senti tranquilidade pela primeira vez,
-Vamos para casa Miguel, venceste, vamos para casa.
Só tive consciência de duas coisas,
que não me chamava Miguel mas que queria ir para casa com ela.
Mais tarde apercebi-me também que por algum motivo que jamais entenderemos
o universo achou que merecíamos, os dois, uma segunda oportunidade,
sem sombras de doenças degenerativas sejam elas físicas, mentais ou mesmo emocionais.
Aprendi que o Amor é aquele fármaco inexplicável que nos vicia e cura
de formas que nem sabíamos que existia uma terapêutica
e que o mais difícil é aprendermos a confiar no nosso coração,
quando fomos formatados para deixar que a razão seja o nosso guia.
Testemunho da Joana:o diagnóstico a martelar-me o cérebro, a minha vida a passar em loop,
diante dos olhos, e o meu futuro ensombrado pela guilhotina
de uma certeza decadente.
Era médico, sabia muito bem o que podia esperar,
a paralisação gradual e consciente da pessoa que era,
só tinha a certeza de uma coisa nascera para cuidar dos outros e não
para que cuidassem de mim.
A vida também tem de representar aquilo que somos
se não passa a ser apenasum ventilador invisível
que respira por nós.
Peguei no carro com uma única certeza tive uma vida feliz,
fiz tudo o que almejei,
beijei com vontade todas as mulheres que amei
e abracei a minha profissão como missão de vida,
terminaria o meu percurso consciente de que valeu a pena
e se alguns considerassem que fui egoísta por decidir suicidar-me
também teriam direito a alguma raiva para lhes tornar o luto mais fácil.
Quando vi a Joana pela primeira vez foi como
quando se avista a terra ao fim de 200 dias perdido no mar,
estava revoltado, ausente de mim mesmo,
preso a um corpo que não era meu,
ela fez-me respirar devagar.
Não foi fácil aproximar-me dela
a sua alma estava fraturada em muitas partes
e muitas das arestas jamais voltariam a encaixar perfeitamente.
Ela chorou a admitir que me tinha morto e mal sabia que me tinha salvo
e que o continuaria a fazer para o resto das nossas vidas.
Quando acordei no Hospital, num corpo que não reconhecia,
só quando ouvi a sua voz e me vi reflectido naquele olhar amendoado
senti tranquilidade pela primeira vez,
-Vamos para casa Miguel, venceste, vamos para casa.
Só tive consciência de duas coisas,
que não me chamava Miguel mas que queria ir para casa com ela.
Mais tarde apercebi-me também que por algum motivo que jamais entenderemos
o universo achou que merecíamos, os dois, uma segunda oportunidade,
sem sombras de doenças degenerativas sejam elas físicas, mentais ou mesmo emocionais.
Aprendi que o Amor é aquele fármaco inexplicável que nos vicia e cura
de formas que nem sabíamos que existia uma terapêutica
e que o mais difícil é aprendermos a confiar no nosso coração,
quando fomos formatados para deixar que a razão seja o nosso guia.
Quando trouxe o Miguel para casa vi o que os meus olhos quiseram ver,
foi preciso tornar-me cega para voltar a confiar em alguém
e não nos é fácil abdicarmos do nosso órgão mais precioso, a visão.
Foram meses e meses de fisioterapia
até que ele recuperasse a mobilidade completamente,
não o reconhecia nas atitudes, nem na gratidão genuína que aparentava.
Cada vez que ele me dizia que se chamava Francisco reconhecia-lhe
uma nova forma doentia de tortura, chorava e chamava-lhe de monstro.
Não é fácil aprendermos a amar novamente,
requer uma coragem imensa e uma audacidade que roça o irresponsável,
voltarmos a apaixonarmos-nos por um corpo que um dia foi a nossa campa em vida
requer o alcance limiar da loucura e o despojar completo da nossa auto-preservação.
Quando o sentimento que é suposto nos trazer maior felicidade nos traz vontade de morrer,
toda a nossa existência se torna uma patética contradição,
metemos todo o sentir em perspectiva e a conclusão é sempre a mesma,
não vale a pena.
De princípio e por muito tempo pensei que tivesse perdido
completamente a sanidade mental,
mas com o passar dos meses aquele interesse irritantemente genuíno
que ele demonstrava pela real pessoa que eu era,
a ausência de críticas, expectativas ou rótulos para me definir.
As gargalhadas francas que dava pela primeira vez,
o toque dele,
o cheiro dele,
tudo me parecia diferente,
até a forma como colocava a voz e como lhe baixava o tom
para dizer o meu nome.
Estava a apaixonar-me e começava,
sem querer porque me sentia ridiculamente ameaçadaimediatamente a seguir,
a chamar-lhe Francisco de quando em vez.
Um dia ficou só Francisco, o único e legítimo ocupante daquele corpo,
nesse dia percebi que o Amor é sempre uma possibilidade
que a nossa existência procura e encontra
enquanto continuidade de um Universo maior e mais sábio
que aquilo que os nossos olhos se limitam a ver.
foi preciso tornar-me cega para voltar a confiar em alguém
e não nos é fácil abdicarmos do nosso órgão mais precioso, a visão.
Foram meses e meses de fisioterapia
até que ele recuperasse a mobilidade completamente,
não o reconhecia nas atitudes, nem na gratidão genuína que aparentava.
Cada vez que ele me dizia que se chamava Francisco reconhecia-lhe
uma nova forma doentia de tortura, chorava e chamava-lhe de monstro.
Não é fácil aprendermos a amar novamente,
requer uma coragem imensa e uma audacidade que roça o irresponsável,
voltarmos a apaixonarmos-nos por um corpo que um dia foi a nossa campa em vida
requer o alcance limiar da loucura e o despojar completo da nossa auto-preservação.
Quando o sentimento que é suposto nos trazer maior felicidade nos traz vontade de morrer,
toda a nossa existência se torna uma patética contradição,
metemos todo o sentir em perspectiva e a conclusão é sempre a mesma,
não vale a pena.
De princípio e por muito tempo pensei que tivesse perdido
completamente a sanidade mental,
mas com o passar dos meses aquele interesse irritantemente genuíno
que ele demonstrava pela real pessoa que eu era,
a ausência de críticas, expectativas ou rótulos para me definir.
As gargalhadas francas que dava pela primeira vez,
o toque dele,
o cheiro dele,
tudo me parecia diferente,
até a forma como colocava a voz e como lhe baixava o tom
para dizer o meu nome.
Estava a apaixonar-me e começava,
sem querer porque me sentia ridiculamente ameaçadaimediatamente a seguir,
a chamar-lhe Francisco de quando em vez.
Um dia ficou só Francisco, o único e legítimo ocupante daquele corpo,
nesse dia percebi que o Amor é sempre uma possibilidade
que a nossa existência procura e encontra
enquanto continuidade de um Universo maior e mais sábio
que aquilo que os nossos olhos se limitam a ver.
Testemunho do Francisco:
É preciso passarmos pelo deserto
para aprendermos o valor de uma gota de água,
cada pequena conquista que alcançava com a Joana trazia-me uma felicidade plena,
cada vez que conseguia que me reconhecesse
naquele corpo que nem eu reconhecia, chorava de alegria.
Talvez um dia ela me conseguisse amar
e todo o nosso percurso fizesse sentido até aquele momento fulcral
em que os nossos carros, as nossas vidas e os nossos destinos embateram.
O dia em que a beijei pela primeira vez e ela correspondeu e fomos, depois,
corpo e alma um do outro numa sofreguidão
que as palavras não trazem justiça,
lembrei-me da tatuagem que tinha no meu outro corpo:
“Nankurunaisa” (Com o tempo tudo se acerta!)
E este era o nosso tempo, esta era a nossa oportunidade
de sermos a oportunidade um do outro,
nem sempre tem de fazer sentido, às vezes basta ser sentido!
É preciso passarmos pelo deserto
para aprendermos o valor de uma gota de água,
cada pequena conquista que alcançava com a Joana trazia-me uma felicidade plena,
cada vez que conseguia que me reconhecesse
naquele corpo que nem eu reconhecia, chorava de alegria.
Talvez um dia ela me conseguisse amar
e todo o nosso percurso fizesse sentido até aquele momento fulcral
em que os nossos carros, as nossas vidas e os nossos destinos embateram.
O dia em que a beijei pela primeira vez e ela correspondeu e fomos, depois,
corpo e alma um do outro numa sofreguidão
que as palavras não trazem justiça,
lembrei-me da tatuagem que tinha no meu outro corpo:
“Nankurunaisa” (Com o tempo tudo se acerta!)
E este era o nosso tempo, esta era a nossa oportunidade
de sermos a oportunidade um do outro,
nem sempre tem de fazer sentido, às vezes basta ser sentido!
domingo, 12 de abril de 2020
O Amor tanto bate até que fura!
Claustrofobia voluntária,
mortalidade mascarada de abraço,
mobilidade restringida pelo espaço de direito à vida...
Quem seremos depois de tudo isto?
Resisto, esperança que se acalenta...
E o Amor? Onde fica?
O Amor aguenta...
Contenção ao invisível
que nos prende o coração sensível...
Receio da má sorte da Morte
e um mundo que se alimenta no seio do terror do toque...
E o Amor? Onde fica?
O Amor aguenta...
O que será da humanidade quando nos habituarmos à saudade?
Quando não houverem mais beijos repentinos,
olhares intemporais,
braços que se confundem e fundem em momentos triviais e citadinos?
Que faremos com este distanciamento
que nos rouba do alento uns dos outros?
Da dor partilhada dos nossos mortos?
Torpor a colorir a nossa alma de magenta...
E o Amor? Onde fica?
O Amor aguenta...
Seremos ilhas desertas?
Feridas abertas?
Sobreviventes envenenados
eternamente contaminados pelo horror de sermos tocados?
Colo onde nunca mais ninguém se senta?
E o Amor? Onde fica?
O Amor, meu Amor...
O Amor aguenta!
mortalidade mascarada de abraço,
mobilidade restringida pelo espaço de direito à vida...
Quem seremos depois de tudo isto?
Resisto, esperança que se acalenta...
E o Amor? Onde fica?
O Amor aguenta...
Contenção ao invisível
que nos prende o coração sensível...
Receio da má sorte da Morte
e um mundo que se alimenta no seio do terror do toque...
E o Amor? Onde fica?
O Amor aguenta...
O que será da humanidade quando nos habituarmos à saudade?
Quando não houverem mais beijos repentinos,
olhares intemporais,
braços que se confundem e fundem em momentos triviais e citadinos?
Que faremos com este distanciamento
que nos rouba do alento uns dos outros?
Da dor partilhada dos nossos mortos?
Torpor a colorir a nossa alma de magenta...
E o Amor? Onde fica?
O Amor aguenta...
Seremos ilhas desertas?
Feridas abertas?
Sobreviventes envenenados
eternamente contaminados pelo horror de sermos tocados?
Colo onde nunca mais ninguém se senta?
E o Amor? Onde fica?
O Amor, meu Amor...
O Amor aguenta!
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Sturm
O sonho é a loucura obscura
que nos arranca a roupa
e sopra vontades absurdas...
Quantas realidades alternativas tem o teu desejo?
Um beijo será sempre uma resposta mordaz
que nos faz esquecer o passado,
um ansiolitico analítico e eficaz!
Não me deixo corromper,
nem vender como sabores de bancas de gelados.
Somos essência com causa e consequência,
seres exilados,
presos a dores invisíveis
que nos tornam exequíveis e funcionais,
dia após dia
até sermos um dia a mais...
Deixa-me conhecer o teu cheiro,
o que te assusta no negro da noite,
o açoite mais filho da puta que a vida te deu,
a luta que se esconde no teu olhar...
E eu amar-te-ei sem julgar,
sem mudar uma virgula!
Porque Amar é aceitar as tempestades
de peito aberto
e leito deserto de as tranquilizar!
que nos arranca a roupa
e sopra vontades absurdas...
Quantas realidades alternativas tem o teu desejo?
Um beijo será sempre uma resposta mordaz
que nos faz esquecer o passado,
um ansiolitico analítico e eficaz!
Não me deixo corromper,
nem vender como sabores de bancas de gelados.
Somos essência com causa e consequência,
seres exilados,
presos a dores invisíveis
que nos tornam exequíveis e funcionais,
dia após dia
até sermos um dia a mais...
Deixa-me conhecer o teu cheiro,
o que te assusta no negro da noite,
o açoite mais filho da puta que a vida te deu,
a luta que se esconde no teu olhar...
E eu amar-te-ei sem julgar,
sem mudar uma virgula!
Porque Amar é aceitar as tempestades
de peito aberto
e leito deserto de as tranquilizar!
terça-feira, 7 de abril de 2020
Desafio do site Laboratório da escrita
1 - À volta do mundo
Já pensaste em viajar sem sair da cadeira? Entra nesta página e faz girar a roleta. Quando tiveres o país de destino, veste a pele de um turista e regista as tuas impressões e aventuras mais estranhas. Marca dez minutos no temporizador e sê criativo.
Resultado: Espanha, Málaga;
Time: 12:53h-13:03h
Parei no semáforo vermelho durante um minuto até me aperceber que não precisava de o fazer, ninguém se cruzava comigo na estrada nem sequer os espectros de uma cidade fantasma.
Abri o vidro, baixei a máscara a rua cheirava a árvores, fechei os olhos a ouvir o silêncio, insuflei os pulmões da brisa sedutora que insistia em acariciar cada folha trazendo aquele momento mágico aos meus sentidos.
O semáforo provavelmente já teria viajado pelas três cores duas os três vezes, não se ouvia Flamenco nas ruas, vozes temperamentais, nada identificava Málaga, o mundo tinha perdido a identidade.
Senti-me inerte como a rua,fazia agora parte daquele lugar que também tinha sido despojado do que fora para se encontrar agora num absentismo visceral de ausência de personalidade.
E então aqueles passos, curtos, a devorar o silêncio e a marcar território dentro de mim, abri os olhos, senti-me estremecer, coloquei imediatamente a máscara e fechei o vidro, o sinal estava verde e o perigo corria pelo passeio sob a aparência inocente de uma criança que cantava:
-Estrellita donde estas, me pregunto quien seras?.
Fim
(13:07h almost... Shit...)
https://www.laboratoriodeescrita.com/blogue/10-exercicios-de-escrita-criativa
Já pensaste em viajar sem sair da cadeira? Entra nesta página e faz girar a roleta. Quando tiveres o país de destino, veste a pele de um turista e regista as tuas impressões e aventuras mais estranhas. Marca dez minutos no temporizador e sê criativo.
Resultado: Espanha, Málaga;
Time: 12:53h-13:03h
Parei no semáforo vermelho durante um minuto até me aperceber que não precisava de o fazer, ninguém se cruzava comigo na estrada nem sequer os espectros de uma cidade fantasma.
Abri o vidro, baixei a máscara a rua cheirava a árvores, fechei os olhos a ouvir o silêncio, insuflei os pulmões da brisa sedutora que insistia em acariciar cada folha trazendo aquele momento mágico aos meus sentidos.
O semáforo provavelmente já teria viajado pelas três cores duas os três vezes, não se ouvia Flamenco nas ruas, vozes temperamentais, nada identificava Málaga, o mundo tinha perdido a identidade.
Senti-me inerte como a rua,fazia agora parte daquele lugar que também tinha sido despojado do que fora para se encontrar agora num absentismo visceral de ausência de personalidade.
E então aqueles passos, curtos, a devorar o silêncio e a marcar território dentro de mim, abri os olhos, senti-me estremecer, coloquei imediatamente a máscara e fechei o vidro, o sinal estava verde e o perigo corria pelo passeio sob a aparência inocente de uma criança que cantava:
-Estrellita donde estas, me pregunto quien seras?.
Fim
(13:07h almost... Shit...)
https://www.laboratoriodeescrita.com/blogue/10-exercicios-de-escrita-criativa
domingo, 5 de abril de 2020
There is freedom within..
O futuro tem um cheiro madeirado
que inebria os sonhos mais auspiciosos e embaraçosos,
como devem sempre ser os sonhos...
Despe-te Amor,
quero conhecer o teu cheiro,
teu desejo inteiro que cabe dentro de mim,
assim,
sem resistência ou formalidade,
apenas realidade que nos agita por dentro.
Há um momento
para cada descoberta
e aquilo que nos desperta o querer
é sempre vago...
Posso beber o mundo todo à minha volta
de um só trago,
ou aquietar-me no teu colo,
enquanto me falas de ti.
E num repente
sermos material incandescente
que se consome em angústia e fome
e se completa pela noite dentro.
Talvez a cura do mundo
seja aquilo que se procura no meio da Dor
e traz Amor,
num profundo equilíbrio...
E o futuro só faça sentido
quando sussurrar o teu nome ao ouvido,
em cada espasmo de um orgasmo repetido...
que inebria os sonhos mais auspiciosos e embaraçosos,
como devem sempre ser os sonhos...
Despe-te Amor,
quero conhecer o teu cheiro,
teu desejo inteiro que cabe dentro de mim,
assim,
sem resistência ou formalidade,
apenas realidade que nos agita por dentro.
Há um momento
para cada descoberta
e aquilo que nos desperta o querer
é sempre vago...
Posso beber o mundo todo à minha volta
de um só trago,
ou aquietar-me no teu colo,
enquanto me falas de ti.
E num repente
sermos material incandescente
que se consome em angústia e fome
e se completa pela noite dentro.
Talvez a cura do mundo
seja aquilo que se procura no meio da Dor
e traz Amor,
num profundo equilíbrio...
E o futuro só faça sentido
quando sussurrar o teu nome ao ouvido,
em cada espasmo de um orgasmo repetido...
quinta-feira, 2 de abril de 2020
Tu che m'hai preso il cuor
A incerteza é o folhear de um livro
esquivo de se escrever
mas que não resisto a ler,
sofregamente...
Guião do destino?
Personagem?
Talvez miragem,
talvez passagem,
talvez Amor em construção...
Coração cambaleante,
desconcertante sorriso,
onde o juizo se perde e rende.
Aprende, meu Amor,
não há acaso no ocaso, nem na dor...
Somos livros livres inacabados
com capítulos danificados
e outros tantos por descobrir
e sentir,
página a página!
Talvez partilhemos estória,
prefácio,
epopeia...
Talvez apenas curta-metragem de produção europeia,
mas seremos sempre memória,
seremos sempre mensagem!
esquivo de se escrever
mas que não resisto a ler,
sofregamente...
Guião do destino?
Personagem?
Talvez miragem,
talvez passagem,
talvez Amor em construção...
Coração cambaleante,
desconcertante sorriso,
onde o juizo se perde e rende.
Aprende, meu Amor,
não há acaso no ocaso, nem na dor...
Somos livros livres inacabados
com capítulos danificados
e outros tantos por descobrir
e sentir,
página a página!
Talvez partilhemos estória,
prefácio,
epopeia...
Talvez apenas curta-metragem de produção europeia,
mas seremos sempre memória,
seremos sempre mensagem!
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