domingo, 29 de março de 2020

Purpurinas

 " (...) O corpo dela rodopiava até ao limite da loucura, talvez assim o mundo girasse mais depressa antes que terminasse toda a empatia dos homens que se habituaram à distância. 
  Houvera um tempo em que o toque e o beijo eram a pureza da afeição e a tradução livre do sentir, agora amar era acenar e falar mais alto para nos podermos ouvir entre vidros invisíveis. 
  O poder da centrifugação adivinhava com ansiedade o embate do chão e até a iminente agressão da queda seria menos violenta que o entorpecimento em que vivia, precisava de um abraço que a consolasse do cansaço desta segurança metálica e disciplinada, precisava de um encontrão por acidente, um toque ainda que fugaz de uma mão a roçar na sua mão nua, de sentir a fragância dos cabelos de alguém e o perfume do cheiro do corpo de quem se reconhece e se obedece com os sentidos. 
As pernas por fim cediam ao peso da gravidade e enquanto caía sabia que em breve ao menos sentiria alguma coisa e que face à dormência permanente até uma dor fantasma pode trazer algum consolo!"

Não, não têm direito ao passeio "higiénico".

Ontem chorei.
Chorei de raiva e de vergonha pelos imbecis que vieram fazer o seu passeio "higiénico" à margem sul porque estava sol e é chato ter de estar fechado em casa.
Sim, é chato estar fechado em casa, eu sei, estou há 15 dias nesta situação com duas crianças de 6 e 8 anos.
Sabem o que também é chato?
Pessoas a morrer aos quase 900 por dia em Espanha e em Itália, POR DIA.
Sabem o que também é chato?
Estar ligado à merda de um ventilador.
Sabem o que também é chato?
Pode não haver sequer um ventilador para ti, amigo.
Sabem o que também é chato?
Médicos e enfermeiros a chorar porque estão exaustos e vêem nas noticias imbecis a passear alegremente e sabem que parte desses imbecis, quiçá uma boa parte, vai ficar infectado, mas não há problema porque às 22h esses mesmos imbecis vao bater palminhas à janela aos profissionais de saúde .
Sabem o que também é chato?
Pessoas que têm de continuar a trabalhar nos sectores que foram considerados indispensáveis, cheios de medo, que não dormem convenientemente há dias tal não é o nivel de stress e MEDO a que andam sujeitos e nas folgas se fecham religiosamente em casa e deparam-se com noticias destas.
Sabem o que é chato?
É que cada vez que um atrasado mental fura a merda da quarentena por livre e espontânea vontade obriga a todos nós a ficarmos em casa mais tempo porque prolonga o problema.
Sabem o que é chato?
É que isto até podia correr bem e assim não vai correr de todo.
Façam-me um favor e enforquem-se com a merda do papel higiénico que compraram, bestas de merda.




sexta-feira, 27 de março de 2020

If you like your coffee hot...

Pedes um café,
dissertas sobre o medo do mundo,
acertas em estatisticas e metodos quantitativos
de aplicativos de Android,
não quero saber de cientistas,
nem sábios fatalistas...
Dedo nos teus lábios,
as palavras são redundâncias
distâncias supérfluas,
polvilho o teu corpo com o meu cheiro,
somos mescla de aromas,
somas  de dois que se subtrai em um
pertença que se confunde
e se funde no mesmo idioma.
Bailado de Bolshoi
arrastado pelo chão em Tango argentino.
Desatino perfeito em leito desfeito,
Amor lapidado devagar
num entregar descontrolado,
prazer que se almeja
e se deseja na simplicidade
de te ter dentro de mim,
sem fim, nem principio,
apenas vicio.

Sempre perto de ti, A.A.M.

Oráculo,
premonição,
monóculo,
ambição...
Tristeza,
certeza,
fluir,
partir,
por dentro.
Saudades,
sabedoria,
ira,
vaidades,
colo,
consolo,
coração,
meu.
Solidão,
imensidão,
saber,
sofrer,
perder.
Escrever outra vez,
(Será que lês?)
Saudades...
Ninho,
voar sem pousar,
nunca mais.
Caminho,
bifurcação,
escolha?
Eutanásia,
folha caída,
perdida em mim.
Magia,
contemplação,
aceitação!
Vazia.
Dor,
pudor,
dignidade,
Morte.
Saudade...
Tive tanta sorte,
Meu Glossário!
Feliz aniversário soul mate!

terça-feira, 24 de março de 2020

Es muss sein

Insultos afincados em silêncio,
indultos que não chegam,
sentimentos que não cegam,
Amor que não vingou
e vingou-se em mim.
Dizem que o fim é apenas um novo começo...
Adormeço a pensar nisto,
não insisto mais
devo isto a mim mesma!
Lá fora o mundo mudou
e tem-se medo de um abraço...
Que pessoa serei depois desta distância toda?
Não tenho medo que dure,
tenho medo que acabe e nunca cure nada.
Já não tenho o alento da ânsia dos teus braços,
de sermos passos no caminho um do outro,
afinal já caminho sem sombra há tanto tempo
o que são mais uns milhares de kilometros?
Karma do desapego que carrego...
Só quero que a banda continue a tocar
enquanto me estou a afogar, lentamente,
sempre me salvei a trinta segundos do fim...
Preciso sempre de sentir o corpo a desistir
para me obrigar a reagir, sabias?
É tão doce a respiração da Morte no nosso pescoço
a sussurrar com voz rouca que a dor pode finalmente acabar...
O Amor não cura merda nenhuma,
somos nós que nos remendamos sozinhos
e vivemos cheios de suturas por dentro,
até um dia escorrer tudo cá para fora...
 O momento é agora?
Não.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Adore



Correntes,
cadeados apertados,
dentes serrados,
aço frio e morto contra o corpo,
ciclo de violência,
dormência e ansiedade...
Ruído da cidade adormecida, lá fora,
vida escorrida como sangue da tua boca...
Talvez seja louca,
talvez seja a ultima vez..
Chicote,
açoite durante a noite,
medo,
segredo respirado ao ouvido,
mordido e engolido à pressa.
Palavras a esquartejar a alma devagar,
Amor até que a Morte nos separe...
Teu corpo no meu contra a parede,
meia de rede a escorregar perna abaixo,
unhas cravadas na carne,
desejo que arde e consome,
fome.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Indigente

Há um lapso perdido 
entre o sonho e o encontro que perdemos muitas vezes,
um tempo que não volta,
um ombro que não chega,
uma palavra que não solta o que cala o coração...
Somos apenas distânsia, 
ansia de um chão que não se percorre
e morre um pouco, dentro de nós,
todos os dias...
Orgulhosamente sós,
ocupantes e ocupados pela dor,
Amor que se sonega,
não nos chegam os abraços
e entre nós sempre mais passos,
sempre mais migalhas
onde te atrapalhas e escorregas...
Habituei-me ao conforto do vazio,
a respirar em salas poluídas de gente
que nunca sente,
gosto da sofreguidão do ar a insuflar o peito,
da pulsação a disparar,
da vida a trespassar-me de Dor
e a provar que o Amor
é um sem abrigo de castigo dentro de mim
que no fim de contas só pede esmola
e consola a fome no sorriso de quem passa...

terça-feira, 17 de março de 2020

Last waltz

Sussurro,
palavra mordida
perdida em mim,
murro do teu silêncio,
fim da linha,
a minha existência em suspenso...
Valsa Vienense,
os meus pés sem tocarem o chão,
a minha mão na tua
como tantas e tantas vezes...
Opera de olhos fechados
sentimentos atropelados cá dentro,
tento reter tudo
desta ultima vez
embalada pelos teus pés...
O teu abraço de despedida,
traço leve do teu sorriso
perdida na paz dos teus olhos!
Vieste despedir-te de mim
 e fizeste anos há quatro dias...
We always have Schubert!

domingo, 15 de março de 2020

Eu vou ficar em casa, sou uma sortuda!

Hoje começa o meu primeiro dia de clausura voluntária, sou asmática, alérgica à maioria dos antibióticos e mãe solteira com dois filhos menores de 12 anos. Vou receber apenas 66% do meu vencimento e vou estar sem sair de casa com duas crianças não sei por quanto tempo. Eu sou uma sortuda.
-Quem não é sortudo neste momento são os médicos e enfermeiros que estão a meter a vida em risco, sem descansar, sem ver as suas famílias para salvarem quem precisa. Respeitem o seu sacrifício.

Fiquem em casa, não saiam só porque está sol e é só um cafezinho, evitem aglomerados de gente, mantenham distância, tussam para o braço, lavem as mãos, sejam conscientes, pensem um bocadinho nos outros e não corram para o Hospital só porque tossiram uma vez.

Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.


 -Quem não é sortudo neste momento são os bombeiros e as forças de segurança publica que têm de zelar pelo nosso bem estar e protecção tantas vezes com meios técnicos e humanos insuficientes e se calhar sem álcool para se desinfectarem e máscaras para se protegerem porque quem não precisava açambarcou tudo.


Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.


 -Quem não é sortudo neste momento são os auxiliares de acção medica, os administrativos e todos os outros profissionais de saúde que têm de permanecer nos seus postos de trabalho e trabalhar ainda mais sujeitos a ser contaminados por pessoas que sendo sortudas não fizeram a sua parte e meteram a sua saúde em risco bem como a dos outros e agora também destes profissionais.

 Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.

-Quem não é sortudo neste momento são as pessoas que trabalham nas Farmácias e Parafarmácias que estão a ser bombardeadas de gente que não respeita o distanciamento e "só querem ter uma garrafinha de alcool em gel para andar na mala", pedem aconselhamento nos cremes de beleza (a serio pessoas???) ou na maquilhagem (se o fazem agora são mesmo pessoas feias, por isso desistam!) e largam perolas tais como pode chegar-se ao pé de mim que eu não estou doente e que atrasam o atendimento de pessoas que vêm aviar receitas ou comprar bens essenciais.


 Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.

-Quem não é sortudo neste momento são os operadores de supermercados que estão a trabalhar o triplo do normal, a repor prateleiras que não param de esvaziar, a registar  milhares de produtos nas linhas de caixas sem conseguirem manter o distanciamento do cliente, sem se conseguirem proteger durante os atendimentos convenientemente porque são milhares de produtos que já foram manipulados sabe Deus por quantas pessoas a passarem-lhes pelas mãos, a fazerem mais horas, a verem os colegas com filhos a irem para casa e a saberem que vão ficar ainda mais sobrecarregados.


 Eles também têm medo, eles não têm mãos a medir.
  

Cada vez que alguém tosse o coração destas pessoas dispara, cada vez que o despertador toca todas estas pessoas têm medo de ir trabalhar mas vão, por nós os sortudos que só temos de ficar em casa.







domingo, 8 de março de 2020

Homeopatia

Misturo-me em milhões de litros de água,
separo a  minha essência da demência de sentir,
e deixo-me diluir...
Pudesse eu fluir com a inocência da agua
que mata a sede sem exigir nada em troca
e morre na sede da tua boca.
Pudesses tu beber-me com a mesma coragem
que devoras a agua da torneira,
sem questionares a origem da ribeira,
ou a pureza da sua margem.
Pudéssemos nós ser combinação molecular
em vez de bóias perdidas no mar...
Misturo-me em milhões de litros de agua
para perder a intensidade
e render-me ao peso da superficialidade
e do  amor descartável
e solúvel em cafés...
Bato com os pés até ao expoente da loucura,
nado até à exaustão do corpo...
podíamos ter sido sede,
mas não,
estás sempre à procura do furo na rede.





Purpurinas

(...) Ela era um rio a desaguar mares nunca antes navegados, tinha a dureza da vida tatuada num olhar cirúrgico e escuro que nos obrigava a viajar por galáxias enquanto nos rasgava a alma e arrancava todas as máscaras de protecção, tinha a limpidez de um lago e a profundidade misteriosa de um pântano de águas mornas que nos convida a flutuar contemplando o céu sem pensar em mais nada senão nas formas das nuvens.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Eutanásia.

As horas passam e espaçam os outros,
somos ponteiros sempre a cometer os mesmos erros,
relógios parados que só acertam duas vezes por dia.
E o tempo corre,
escorre-nos, devagar, para sarjetas e valetas,
onde somos cenários de liceu,
de popularidade bacoca.
O meu tempo esgota,
tic tac sombrio e vazio que me arranca de mim
e me tranca cá dentro.
Tento demais,
Amo demais,
Rasgo-me demais
e tatuo mais um remendo.
Aprendo e sigo,
digo que vou ficar bem,
consolo-me,
sou o meu próprio colo
e durmo abraçada a mim.
O fim chega a todos,
nem a Dor nos poupa,
nem o Amor nos salva
e o corpo é apenas a roupa suja da Alma.


domingo, 1 de março de 2020

Breakfast

O Amor é um rumor,
um sussurro que nos mostra o caminho, 
devagar,
como se nos estivesse a moldar por dentro.
É um carinho,
um olhar mais demorado,
silêncio partilhado,
comunhão.
Chão que se despede dos nossos pés,
mas que nos espera quando pousamos,
sem cobrar nada.
Madrugada fria partilhando café e torradas,
na cama,
com o mundo a matar-se lá fora.
Chama que não queima mas que aquece
e nos conhece, 
sem máscaras,
sem rótulos,
sem roupa!
Amor é lamber-te as lágrimas,
é sermos praia um do outro,
sermos mar,
bússola, 
mas também ancora 
e porto.
Ser nascente e tu poente
E poder respirar fundo, finalmente!