sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A insustentável cegueira do Ser

Os olhos são rasgos do infinito
a conduzir as emoções que não entendemos…
Não sei expressar tudo o que sinto,
não analiso cada riso ou cada lágrima,
não podemos dissecar a nossa alma
em fatias completamente simétricas.
Os sentimentos são momentos que nos escapam,
cavalos a trote no peito,
leito da racionalidade rendida e perdida
 a dar tréguas enquanto entrega as rédeas!
Os olhos são os sábios que simplificam os lábios,
a nossa passagem secreta e directa para a alma dos outros,
o lugar mágico onde as almas se sentem e consentem!

Não há fim mais trágico ou desperdiçado
que um olhar que afaga,
 enquanto se apaga, 
assim, 
tão devagar ,
por nunca encontrar ninguém do outro lado...


domingo, 26 de agosto de 2018

Gin (a)tónico

Mata-me devagar,
alimenta-te de mim,
a minha morte eminente
é o que me torna diferente,
saberes que no fim
eu vou sufocar,
mas o prazer que te posso dar será satisfeito...
Crava-me os dentes no peito,
exibe-me como uma aberração maravilhosa,
afinal sou mais uma rosa que te pode picar...
Sou só mais um  Gin!
O que importa é fechares a porta atrás de ti,
eu rendo-me,
não aprendo...
Bebe-me de um só trago,
deixa o coração ao largo,
não me deves nada...
Eu estou tão cansada...
Tão cansada...
-E então?!



sábado, 25 de agosto de 2018

Atelophobia

O meu corpo tem kilometros de mar,
ondas saturadas de sal que me desidratam...
Um dia quis ser porto onde atracassem escunas,
um dia quis ser as dunas que te polvilham os sonhos...
Mas os dias são acasos a morrerem em ocasos,
nem sempre são aquilo que a gente deseja...
O meu coração almeja a paz
que a tranquilidade traz, devagarinho...
Nasci ímpar num mundo par,
a reconstruir-me um bocadinho todos os dias
e destruir-me completamente a cada minuto...
Luto contra este luto que me faz companhia,
esta protecção que me dá a mão,
afaga a cabeça e me levanta do chão.
Aconteça, o que acontecer,
nunca dependeu de mim,
não pelo menos agora...
A hora das escolhas foi quando o mundo não existia,
sequer,
ter escolhido ser mulher já foi demasiado audaz...
Um dia fecharei os olhos,
inspirarei pela ultima vez o mar,
verei tudo em perspectiva e assimilarei a paz...

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Hierarquia das necessidades de Maslow

A empatia é o primeiro degrau da felicidade
a humildade de reconhecer outro olhar
e aceitar, sem julgamento...
Somos todos escravos dos sentimentos..
Vivemos de olhos postos no passado ou no futuro e o presente
está ausente dos nossos sonhos.
Podia tocar, despir, devorar corpos sem rostos,
um prazer efémero e acessível a todos os mortais...
Porém quero mais,
sou orgulhosamente uma mente ambiciosa...
Acho que a nossa alegria é a magia de nos darmos aos outros,
sem reservas em entregas absolutas
mesmo sofrendo dores argutas,
ousando,
contrariando as estatísticas,
refutando a lei da fisica
porque às vezes a atração dos polos não depende só das características,
o coração às vezes tem mais peso que a gravidade!
A coragem reside na leviandade de te abraçar,
e sentir mais do que o tangível...
Afinal o impossível demora só um pouco mais a conquistar...



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Mc Bacon

O mundo é feito de cadáveres bem maquilhados, as pessoas, hoje, só cheiram a morte e a filtros de selfies...

Quero o mundo servido numa bandeja com Valdispert,
estar triste é um luxo tão vintage que é quase obsceno...
Já ninguém tem um ego pequeno, o suficiente...
E eu tenho tanto, tanto sono...
Bocejo sem pudor,
a ver o Amor passar-lhes ao lado,
falando de trivialidades com ar de sabedoria da Maria...
Um beijo já não vale nada,
tudo é fast food,
o romance, o Amor até a dor...
Nada se vive,
tudo se desliza com o dedo,
sem medo que o tempo passe
e o coração se trespasse de vazio.
É preciso coragem para Amar,
para arriscar,
para se atirar de cabeça contra o chão...
É tudo frio, plastificado, descartável, reciclavel e alergico ao gluten!
Ninguém tem nada dos outros, nem nada de seu...
Metem uma máscara diferente todos os dias
e caminham, de alma vencida, rumo à Morte...
Má sorte ter sido Puta na outra vida...





domingo, 19 de agosto de 2018

50 Shades of pain

As emoções são borboletas frágeis,
voam nas margens da razão,
elevando o coração até uma morte certa...
Amo como escrevo,
de alma nua,
de peito aberto,
sem rumo certo...
A esperança é um rua vazia,
onde o silêncio ensurdece
quem passa.
A minha alma abraça os teu olhos
que perderam a capacidade de acreditar
que uma onda não apaga o mar...
Acredito que o Amor
é a dor sublimada em imortalidade,
a única verdade que interessa
e nos atravessa a rasgar os conceitos
que os nosso peitos aprisionaram...
Perdemos só o que nunca encontrámos,
cegos pelo pó do medo
e da arrogância que nos sobeja,
na ânsia de que a distância nos proteja de amarmos...
O Amor porém, não maltrata ninguém,
não anseia por ser a mágoa que rasa os olhos de agua,
não se escreve pela dor,
ou o horror de castigar,
Amar é pertencer,
ou morrer a procurar.






sábado, 18 de agosto de 2018

...

Não sei lidar com a dor, bloqueio tudo cá dentro e permito-me chorar um fragmento daquilo que me é suportável...

A minha cabeça é uma roda de hamster, gira numa velocidade esférica, até à exaustão...
Revejo a tua morte vezes e vezes sem conta, visualizo o sofrimento, a agonia, a solidão que sentiste por uma ajuda que não chegou a tempo...
Uma ajuda que não chegou, de todo...
Não merecias nada disto, que terás pensado nos últimos instantes enquanto te vias desamparado, com dores, sem conseguires articular uma palavra?
Quantas horas estiveste ali, ante a confusão dela,  que te enfiava agua à força, pela boca abaixo?
De queixo e braço partido, no chão, a dor dilacerante a esmagar-te o peito, o ar a entrar cada vez mais devagar, o corpo a desistir de tolerar o sofrimento?
Quantas horas?
Como me posso eu perdoar-me por uma coisa destas?
Como podemos todos perdoar-nos por uma coisa destas?
Como pode a vida de todos nós continuar, normalmente, depois de uma coisa destas...
O mundo é um lugar estranho.
A curiosidade de todos os que te foram destapar para observar o teu sofrimento, mais de perto...
O padre que falava de ti, sem te conhecer de lado nenhum e tinha de ler o teu nome para saber de quem falava.
Aquelas velhas bafientas que me vieram beijar e avaliavam cada lágrima com um prazer obsessivo enquanto tentavam adivinhar quem eu seria...
E eu, cheia de nojo, cheia de raiva, com vontade de gritar para desaparecerem todos dali e me deixarem sozinha contigo para te pedir desculpa...
Desculpa tio por não pressentir que precisavas de ajuda.
Desculpa.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ultima dança

Foi contigo que aprendi a gostar de musica clássica, devia ter uns 9/10 anos, eu disse que era horrível e que não dava para dançar e tu mandaste-me ouvir de olhos fechados.
Dançavas a valsa comigo, adoravas dançar...
Tinhas montanhas de paciência para mim, para eu não enjoar no carro deixavas-me ir lá atrás, agarrada ao teu banco a cantar aos teus ouvidos!
Foi contigo que passei anos de férias na minha praia preferida, íamos juntos para a agua e ria-me de ti porque nadavas sempre de costas.
Morreste hoje.
Gosto muito de ti, vou gostar sempre, porque o Amor não acaba aqui, deves-me uma ultima valsa ao som do Pavarotti!



João Pinho 13/03/1935-16/08/2018

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Partitura ou condenação...

Respiro-te como pauta de musica,
articulando,
pausadamente,
o poder de cada nota,
quero sentir cada momento,
cada suspiro,
cada movimento,
aqui,
onde o tempo é barco sem leme...
Geme,
grita,
a vida se deixarmos fica sempre para trás,
aflita...
Traz contigo tudo o que consigo adivinhar,
há quanto tempo não fechas os olhos para ouvir o mar?
Respira como pauta de musica,
articula,
vorazmente
a loucura da orquestra,
sente os momentos todos,
contornos do meu corpo arqueado
enrolado no teu,
circulo perfeito,
peito em compasso certo,
o céu aqui tão perto,
erosão de desgaste consentido,
gemido após gemido...
Há quanto tempo não fechas os olhos para ouvir Amar?



sábado, 11 de agosto de 2018

Livre arbitrio

Há histórias escritas a carvão
pela mão do tempo,
palavras rasgadas pelas almas feridas
perdidas num momento de fúria...
Jura que o Amor é tudo o que preciso,
 jura não há juízo maior que a razão do Amor...
Um dia tive asas e escolhi morar aqui
entre os homens que não sonham,
entre os dementes que não amam,
entre os indiferentes que não vivem...
Escolhi ser destroçada vezes e vezes sem conta
na afronta de viver sempre fora do peito
e fazer do meu leito a cura do sofrimento...
Escolhi olhar dentro dos outros e beber-lhes a alma devagarinho,
sabendo que o único caminho da lucidez
é aquele que se trilha com o coração
e jamais com os pés...
Escolhi amar sem limites,
mesmo que nunca acredites ser possível.
Um dia, quando morrer, saberei que nunca precisei de asas para voar
e que Amar chega e não cega!





O tempo não cura, só atrasa...

Não procuro o contacto imediato das coisas frívolas,
a minha alma não se acalma com a superficialidade
da realidade furtiva,
cativa das aparências e indecências fugazes...
Se todos fossemos capazes de Amar,
de despir os medos e contar os segredos mais sombrios ao vento,
o mundo seria um lugar menos vazio...
Quero um Amor profundo,
um Amor voraz,
capaz de tudo,
louco,
infantil,
febril e solto!
Quero ser feliz,
intensamente,
imensamente,
obscenamente feliz!

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Sonho de uma noite de Verão..

Sinto todas as palavras por dizer,
a cadência da respiração,
a frequência cardíaca e mágica...
A saudade é um veludo delicioso,
desejoso de se exprimir e se expandir
pelo corpo todo!
Deus inventou o amor,
nós ensinamos-lhe o que fazer com ele...
O desejo é um beijo repetido
que ecoa em cada poro,
coro,
rio,
imagens que se repetem
quando os corpos se completam...
O Amor é o único sonho que nos mantém acordados,
desesperados por pertencer
e esquecer quem fomos...
 Somos ar quente,
sente
o chão a fugir,
Amor,
tens de te permitir enterrar a dor e soltar o pranto
porque dói muito mais resistir tanto...
As asas feitas de penas pertencem,
 apenas,
 a quem ousar Amar!




sábado, 4 de agosto de 2018

Asas partidas...

Há amores que já nascem em fase terminal,
contaminados pelo mal que herdaram de outras marés,
espraiam-se, demasiado cansados para formar ondulação.
Só queria molhar os pés, outra vez...
O meu coração nunca soube perder,
ou amar com cuidado,
tem medo de ficar trancado
na claustrofobia, de um dia, não sair nunca mais...
Sempre amei tudo,
o ar que respiro,
o mar que me comove,
os amigos que abraço,
e os amores que nunca alcanço...