sábado, 28 de novembro de 2015

As bandeiras do medo...

"Em dia de homenagem nacional às vítimas dos atentados terroristas, o Presidente François Hollande tinha apelado a que os franceses ostentassem a bandeira nacional às janelas dos seus apartamentos. Foi um fiasco" (A noticia inteira aqui! )


Dizem que o mundo mudou a 13 de Novembro com os atentados de Paris, eu acho que o mundo já não muda e este é o verdadeiro problema.

Vivi com horror o que aconteceu em Paris porque tenho lá pessoas que amo e as nossas dores são sempre maiores, porque são as nossas. 

No Brasil decorria uma catástrofe ecológica que nos vai perseguir pelo menos durante 30 anos e isso também me doeu, claro, mas aquilo que nos atinge mais de perto tem outra dimensão e desta vez podiam ter sido os meus a morrer e eu sou egoísta e confesso: As dores dos meus são mais minhas do que as dores dos outros. 

E por isto sei que o mundo nunca vai mudar, haverão sempre os nossos e os outros, não sabemos ser de todos, só sabemos ser de alguns.

O mundo não muda e vive no medo, sempre viveu, às vezes em diferentes alturas na História  há lugares onde  isso se esquece, outros há, porém, em que o medo e o terror já são banalizados.

Se isto é uma realidade aceitável? Não, não deveria ser.

Os franceses não meteram bandeiras nas janelas mas estão de luto pelos seus compatriotas, amigos, familiares, pelos seus iguais, mas querem que a vida continue e querem estar seguros, queremos todos.

Não meteram bandeiras porque as bandeiras lhes vão lembrar aquelas pessoas inocentes mortas, aquelas mortes estúpidas e ordinariamente gratuitas que lhes tocaram tão de perto e que foram tão chocantes que merecem bandeiras em janelas e nas redes sociais. 
E inconscientemente ou talvez conscientemente, sabem que cada terrorista que vir uma bandeira saberá que foi ele que provocou aquilo, aquela dor, aquele símbolo de homenagem a uma vida ceifada.

E o terrorismo não merece bandeiras hasteadas, merece repúdio e vergonha alheia.

A vida em Paris continua, a vida pela Europa, pelo mundo inteiro continua, todos os dias nascerão crianças a mostrar aos terroristas do mundo que a vida é mais importante que qualquer causa, que podem matar-nos mas outros viverão e amarão e darão gargalhadas e o som da vida dos que sobreviverem serão mais forte que o silêncio que a morte que causam provoca.

E se Deus existe que vos saiba perdoar.


sábado, 21 de novembro de 2015

ADeus...

Esquecemo-nos do que somos,
meros mortais de uma espécie qualquer a querer cultivar o vento,
a almejar mais do que a vida que fica tantas vezes esquecida dentro de nós.
Deus criou-nos num dia de tédio.
Nós criamo-lo num dia de raiva.
Demos-lhe palavra e um propósito,
Demos-lhe moral e uma consciência
e chamamos à nossa vingança, justiça.
O Homem cobiça o perdão de deus mas nunca soube perdoar.
Aprendemos o rancor e chamamos-lhe Amor
e aos amantes tudo se perdoa…

Se eu conseguisse queria ser uma pedra, imutável mas em paz.
A felicidade para mim seria resistir à chuva e ao vento,
ou deslizar por uma colina  num momento qualquer.
Os Homens não sabem ser pedras, não sabem ser chuva,
não sabem ser vento, não sabem ser nada.
E gostam da mão pesada do deus que inventaram, sobre as suas cabeças,
a fazer ameaças, a atormentar-lhes a alma
e a culpar-lhes a carne.
O masoquismo é um egoísmo disfarçado…

Deus porém nunca teve mãos,
só Amor e nunca o soube explicar
e deu cores aos Homens como deu cores aos pássaros,
mas os Homens não voam e magoam as aves…

Se o mundo adormecesse no meu colo,
hoje, fazia-o esquecer as cores e as dores que deus lhes traz.

Facto ou consequência?

Desisto.
O impacto da indiferença devorou-me e cuspiu-me num desdém violento.
Já não me conheço, nem reconheço o momento que nos trouxe aqui.
Esqueci tudo e envolvi-me de nada,
essa mancha disforme de angústia solitária a que chamas saudade.
Perdi a razão de ser razoável ou arrojada,
a verdade ficou permeável e tornou-se chuva ácida
que nos molhou aos dois…
Se ainda te amo?
Sei que não me amo há muito tempo, que desaprendi…
Deixei de ser condescendente com a imagem doente e sofrida do espelho,
rasguei-lhe os braços e a alma vezes demais.

Desisti e depois?
Os teus braços foram agua que nunca saciou ninguém,
Os teus lábios nunca lamberam o sal dos meus olhos,
O teu peito nunca foi leito do meu descanso.
Erva daninha que a minha culpa desculpou…
Despede-te de mim, meu Amor,
Antes que a minha vida se desvaneça e te queime as asas.
Um amor moribundo não é mundo onde a felicidade cresça.

Voa para longe e magoa o céu.

Alzheimer...

A tua ausência pulsa-me no sangue como um orgasmo inacabado,  cada segundo é um 
mundo que se acaba e recomeça e as escolhas as folhas de Outono que despimos pelo chão.



Esquece o tempo Amor,
esquece a mortalidade, o rumo dos dias, a contagem decrescente,
a dor que acompanha a crueldade dormente
do relógio divino tatuado na nossa existência…
O destino é um cronómetro viciado e vicioso
que nos castiga, mastiga e condena,
sem pena, desde o berço…
Esquece-o Amor,
Seremos ponteiros fixos de pernas interlaçadas,
a saborear o prazer mesquinho
de gemer eternidade baixinho.
O tempo não nos conhece,
Esquece Amor,
Porque a memória não perdura
E o tempo não cura nada,
é um velho arrogante e impotente
a invejar a felicidade dos homens…
Um errante, indigente e imundo a desdenhar e a exigir a esmola das nossas vidas
a vaguear, sempre só, pelo mundo…
Esquece...

O (Amor te)rreno...

Odeiem-se.
Odeiem-se porque não merecemos mais nada.
Odeiem-se e morram afogados no ódio, no desdém, na indiferença
que é a vossa crença no divino.
Seres bons, tão perfeitos, os eleitos naturais…
Vós, os que estão acima de todas as coisas e não fazeis coisa nenhuma.
Odeiem-se e lambam o mel envenenado do vosso discurso condescendente,
enquanto se agoniam com o cheiro doente do mundo.
Perfumem-se de arrogância e respirem fundo!
Odeiem-se da forma como odeiam os que sofrem,
os que são diferentes, os que são menores…
A vossa grandeza humilha-nos, a vossa soberba verga-nos,
a nossa humanidade interrompe-vos a dignidade.

Odeiem-se e VIVAM ALTO, nós morremos baixinho.

domingo, 15 de novembro de 2015

A Humanidade é matarmos-nos uns aos outros.

Há malucos por todo o lado, há sangue por todo o lado, há morte por todo o lado porque há homens por todo o lado.

Sabemos chegar a Marte mas nunca soubemos chegar uns aos outros. Somos pequeninos, cruéis e mesquinhos.

Matamos-nos uns aos outros em nome de deus, em nome da liberdade, em nome da politica, em nome do amor. Na verdade matamos-nos uns aos outros porque gostamos de matar.
Todos nós somos capazes de matar, todos, somos humanos, somos assim.

Quando alguém me pergunta onde está a humanidade das pessoas eu penso é esta a humanidade das pessoas, ser humano é isto, é ser uma merda que tem capacidade para tanta coisa menos para ser genuinamente bom consigo mesmo enquanto espécie.

Eu tenho vergonha do que se passou em Paris, eu tenho vergonha do que vão passar os Sirios por causa disso, tenho vergonha porque sei que por uns pagarão muitos sem culpa nenhuma. Tenho vergonha porque as crianças cada vez terão mais medo das diferenças e odiarão a cor da pele dos colegas. Tenho vergonha porque estamos em pleno seculo XXI e continuamos na idade das trevas, de onde aliás nunca saímos.

A loucura não é uma religião, Quem mata em nome de deus é apenas um cobarde que gosta de matar e não tem coragem de o assumir. assim foram os cruzados, assim foi a inquisição, agora são estes, no futuro virão outros, há sempre um grupo de cobardes de merda que se junta para matar em nome duma causa qualquer.

Eu se um dia matar vou fazê-lo por mim mas também lhe tentarei dar uma justificação idealista qualquer, na verdade a justificação verdadeira é só uma, matei porque está na minha ridícula natureza fazê-lo, porque por muito que o homem evolua tecnologicamente, nunca vencerá a sua natureza simples e medíocre e isto é mesmo muito, muito triste.

Deus deu-nos cores como deu cores aos pássaros mas os homens não sabem voar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O cheiro da chuva

As lágrimas secaram,
morreram à espera de uma sede doentia
que o amor não bebeu…
O destino é um sarcasmo de pleonasmo irónico,
que se ri às gargalhadas largas na nossa finitude.
E este grito afónico a cortar-nos em silêncio
que amiúde me sussurra segredos e mantém refém
da tua voz que já não diz nada.
Nós é uma palavra pesada, amor.
Ainda te lembras do cheiro da chuva?
Tenho saudades de tremer com frio debaixo do teu abraço,
das fragilidades dos teus sonhos,
do espaço vazio do teu colo.
Ainda te lembras do sabor do terror da perda?
Ainda te lembras de pertencer?
A memória é uma história traída
A arder enquanto as cinzas se espalham na chuva