quarta-feira, 20 de maio de 2015

(Sobre a PSP) Pérolas a Porcos...

     Eu trabalhei no Pavilhão dos Oceanos (actual Oceanário de Lisboa, S.A.) durante a Expo'98 (e também depois da Expo) e aprendi que as multidões são naturalmente estúpidas, quando uma grande massa de gente se junta e se instala a confusão, pouca diferença existe entre pessoas e búfalos desgovernados (talvez a diferença maior seja o porte e o peso e nem sempre, mesmo esta, existe).
Não é fácil manter a ordem com multidões, existe sempre um ou dois, num micro-grupo, que causa confusão e a manada que os segue porque só está à espera de um pastor.
     Eu adorei trabalhar ali mas, dias houveram, em que saí de lá a odiar pessoas...
Apanhavamos de tudo, desde pais que perdiam crianças na confusão e continuavam calmamente a visita sem se ralar e nós ficavamos com os putos ao colo , inconsoláveis, a tentar localiza-los, a pessoas que empurravam deficientes em cadeiras de rodas contra os acrílicos para poder ver melhor os peixes, desde bestas que urinavam ou defecavam nos corredores de passagem mais escuros porque , não sei porquê, nunca percebi...
E claro, pessoas que nos batiam, pisavam e ofendiam porque, pois também não sei a resposta desta questão...
Isto para nem falar em todos os acéfalos que tiravam fotos com flash, quando lhes era dito, a cada 2 segundos, que não se podia.

Uma coisa que nos era bastante clara era que a ordem mantinha a segurança não só a nossa mas sobretudo daquela gente toda, sem ela poderíamos ter pessoas esmagadas  e muitas daquelas pessoas eram crianças, idosos e deficientes, outra coisa que nos era claramente evidente é que manter a ordem com multidões é extremamente difícil e de um momento para o outro instala-se a confusão e o pânico...

Trabalhar nestas circunstâncias, diariamente e a Expo'98 foram seis meses disto (e apesar do stress e dos Kg que perdi, cheguei aos 46Kg e bebia 7 cafés por dia, que saudades da nossa Expo!!!), é extenuante porque a pressão é constante.
Além desta parte também tinha de existir empatia nossa para perceber que as pessoas que ali estavam tinham estado 3h (ou mais) na fila, ao calor, até chegar ali e estavam ansiosas, exaustas e irritadas.
Chorei algumas vezes de stress, cansaço e raiva num fim de dia de trabalho, mas ao mesmo tempo adorava estar ali e no dia seguinte a disposição renovava-se, porque o ambiente Expo tinha qualquer coisa de mágico!

Foi nessa altura da minha vida que tive uma, muito ligeira e fugaz, noção do quão é extremamente difícil e ingrato zelar pela segurança dos outros...

Um policia em Guimarães  errou, se calhar já salvou dezenas de vidas, mas para manadas de Búfalos isso não interessa, se calhar, tantas vezes, meteu a vida dele em risco para salvar outros, mas os Búfalos querem sangue.
Os policias são heróis e os heróis não podem ser mortais se não os Búfalos pisam-nos...

Eu, porque sei o quão é fácil as multidões se descontrolarem (e não havia maior festa do que a Expo) não levaria crianças para estádios com jogos decisivos, ou comemorações de 40.000 pessoas bem bebidas e não o faria por ter medo da policia, mas dos outros e do acaso...

Um policia errou, um pai também, devem ser ambos responsabilizados, de certo ambos se sentem culpados e envergonhados com a forma como agiram naquele dia...
Se calhar o policia sempre foi um excelente policia e o pai um excelente pai, naquele dia não foram, um dia na vida de duas pessoas, provavelmente boas...

Eu admiro todos os dias a coragem de quem mete a vida dos outros acima da sua, mesmo nos dias maus, porque uma onda não pode, nem deve apagar o mar...





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