domingo, 10 de agosto de 2014

A morte do meu gigante...

O rosto era um caminho acidentado pelas rugas...
Os olhos já não sabiam olhar os outros, eram apenas câmaras de lentes difusas e confusas a tentar focar o movimento intermitente da felicidade... E eu amava-o assim, fraco e gasto, patético de tão frágil, miserável... Amava-o mais ainda do que antes, pegava-lhe ao colo e era mãe dele, enquanto ele balbuciava palavras sem frases...
Beijava-lhe o cheiro a morte e sentia-me mais tranquila por saber que em breve o seu corpo seria pó e o pó voa com o vento, é parte de toda a parte...
Queria chora-lo, sem que ele chorasse, queria devolver-lhe a dignidade que a vida lhe roubava, torna-lo uma memoria bonita em vez de uma história triste...
Quando ele morreu fiquei feliz porque mais ninguém teria pena do meu gigante...
 Ele era orgulhoso e eu sofri cada humilhação com ele, por ele...
A morte chega a todos, mas há quem morra repetidamente e eu só queria que aquela fosse a sua última vez sabendo que eu morreria pela primeira...


1 comentário:

Rogério Paulo Peixoto disse...

confuso e sinistro

vai demorar tempo a devorar esse gigante

:)

gosto do modo como escreves...Como se ainda não o soubesses!