domingo, 10 de agosto de 2014

A morte do meu gigante...

O rosto era um caminho acidentado pelas rugas...
Os olhos já não sabiam olhar os outros, eram apenas câmaras de lentes difusas e confusas a tentar focar o movimento intermitente da felicidade... E eu amava-o assim, fraco e gasto, patético de tão frágil, miserável... Amava-o mais ainda do que antes, pegava-lhe ao colo e era mãe dele, enquanto ele balbuciava palavras sem frases...
Beijava-lhe o cheiro a morte e sentia-me mais tranquila por saber que em breve o seu corpo seria pó e o pó voa com o vento, é parte de toda a parte...
Queria chora-lo, sem que ele chorasse, queria devolver-lhe a dignidade que a vida lhe roubava, torna-lo uma memoria bonita em vez de uma história triste...
Quando ele morreu fiquei feliz porque mais ninguém teria pena do meu gigante...
 Ele era orgulhoso e eu sofri cada humilhação com ele, por ele...
A morte chega a todos, mas há quem morra repetidamente e eu só queria que aquela fosse a sua última vez sabendo que eu morreria pela primeira...


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Paixão (mãetecto)...

Houvessem pétalas entre os espinhos da saudade...
Cardos perfumados que inebriassem as lágrimas...
Despedidas sofridas que fossem brevidade!
Houvessem partilhas sem a morte de alguém,
reencontro sem desencontro,
união sem quimera...
Houvessem paixões que se aquietassem sem devorar,
sonhos de despertar tranquilo,
esperanças sem  sufixo de espera...
Houvessem nós, em vez dos outros...


sábado, 2 de agosto de 2014

Pseudónimo da perda...

Existem sombras que se vestem de nós,
quando o tempo amanhece dançando no luto…
Toda a gente perde alguém, mas o vazio que fica é sempre diferente…

A dor não é transversal, é nossa, é íntima…
Tatuagem que nos ornamenta e se alimenta da nossa alma,
Ínfima parte da vida que tantas vezes a define,
Quiromancia da palma-sina que nos ensina o que é o destino…
Presente envenenado do Amor ausente.
Passado que ultrapassa o limite imposto ao tempo
e se arrasta pelo presente…

A dor não é universal, é humana.
Imperfeita, egoísta, cruel…
Caixa de Pandora deixada à sorte…
Morte minimalista,
ódio em época baixa …
Fel que nos lambe o hálito
sódio que se cola ao tremer dos lábios…
Amor a morrer à sede, que se arrasta em terra ardida…
Pseudónimo da perda que não cede, nem se gasta…
Mas é pela dor que nasce a vida!