quinta-feira, 15 de março de 2012

Santa Apolónia ou Campanhã...

Os dias são comboios de carruagens cheias...
Circulam a todo o vapor deixando carvão
ao longo do chão que me calca, devagar...
Porque não posso deixar-me ficar para trás?
Ficar a ver a linha a partir sozinha
engatada nos carris?
Já me curei tantas vezes... Tantas...
Quantas cicatrizes me cabem no corpo?
Deus diz que sabe o que faz...
(É bem capaz de saber,
espero que saiba e se encha de raiva de me ver desistir...)
Cansei-me de sorrir...
O meu sorriso perdeu a viagem,
saiu da carruagem na estação anterior,
encheu-se de amor e partiu...
Hoje não tenho forças,
vou dormir a vontade num banco qualquer...
Talvez me possas despertar mais tarde,
quando a noite me trouxer e quiser descansar...
Não me apetece lutar mais,
o desgosto arde nos meus olhos...
Já não tenho idade para angustias,
são seculos que me acompanham nesta aprendizagem ingrata
que não se farta de se agarrar a mim...
Já me curei tantas vezes...Tantas...
Quantas vidas terei de aguentar ainda?
Não me consigo libertar do castigo de querer?
Mais uma viagem...
Mais um comboio...
Mais uma partida...

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