quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Antes da palavra...

Os sonhos trautearam poemas sem sentido,
fecharam os olhos,
esticaram os braços,
entreabriram os lábios trémulos,
na ânsia de um mundo diferente...
Mas a realidade é apenas uma parede serigrafada
a preto e branco,
sem espaço para lágrimas de aço...
Amei cada letra do nome da minha pena,
cada milímetro da dor de um amor enfermo
que me levou pela mão ao Inferno demasiadas vezes...
Já não tenho mais escadas para descer,
ou salinas de alma para espraiar...
Virei-me do avesso para me encontrar
e perdi-me entre costuras e remendos...
E lá fora, no mundo dos outros,
nada mudou,
nem ninguém notou a minha ausência...
Se nunca tivesse nascido quem sentiria a minha falta?
Nunca quis ser indispensável,
bastava-se que me vissem de quando em vez...
E talvez sorrissem antes de olhar em diante...
Tenho em mim todas as magoas do mundo
e aguas límpidas de prazer, numa mescla homogénea...
Não sei descrever melhor este universo que cabe em mim,
assim, meio inverso aos outros,
criado por uma super-nova qualquer...
Sou mulher e sou um mundo
e esse ar todo que existe no entretanto...
Amor em estado liquido,
pranto ou canto de sereias mitológicas,
alheias a lógicas cientificas...
Um mito perdido num povo esquecido,
ou extinto,
ou evoluído no vazio...
Um nada que não se explica...
Um riso que não existiu,
porque ninguém o tivesse escutado...
Um poema sem sentido,
que passou ao lado,
apenas porque morreu na caneta inacabada
que o escreveu antes da palavra.

Sem comentários: