terça-feira, 7 de junho de 2011

Ultimo acto...

Já lambi lágrimas de mais...
Já as saboreei todas, as acres, as ácidas, as doces...
Temperei-as, demolhei-as, aromatizei-as com esperanças,
impregnadas de oregãos e noz moscada...
Disfarcei-as de gargalhada forçada
e tu, tu... Nem deste por nada...
Bebeste-as como um chá de menta, aconchegaste o ego,
fumaste um cigarro e falaste das vicissitudes do tempo...
Emprestei-te os meus olhos para chorares,
nem sei quantas vezes o fiz...
Mas foram, numa incerteza infeliz,
demasiadas vezes...
Devolveste-me os olhos sempre vazos...
Rasos de desilusões e mentiras,
cortados em tiras de escárnio e cansaço...
Agora passo o tempo a cola-los,
a tentar reconstruir o mundo que vivia,
no fundo de um olhar que te conhecia,
melhor que devia e deixou-se cair
num abismo de desconhecimento...
Tento perdoar-te e tento perdoar-me,
de te ter perdoado tantas vezes...
Reflicto, medito e riu-me do ridículo
que construímos juntos, entre tijolos,
telhas e projectos de arquitectos que eram umas bestas...
Tu, sorris...
Numa certa condescendência doce, irritante,
que transforma o meu sofrimento num espectáculo amador,
num sarau de lágrimas ensaiadas por uma professora de dança,
de meia idade que nunca entrou para o conservatório...
A minha dor é um palco improvisado num bailarico de Verão...
E tu... Sorris...
E eu fico no chão, de lágrimas em espargata,
rompendo os músculos do esforço,
porque me esforcei tudo o que pude...
Faço uma vénia, olho para ti...
Agradeço...
Desapareço entre a cortina da sina,
as lágrimas seguem-me, de mãos dadas,
cansadas da coreografia infeliz...
Agradecem e despedem-se...
E tu...
Tu... Sorris...

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