quarta-feira, 11 de maio de 2011

Os ninhos das garças...

Acabaram-se as farsas breves de rios de caudais incertos...
As garças já não pousam nos meus olhos,
em movimentos abertos de entusiasmo...
Já não se passeiam em pontas sobre os lagos
límpidos das minhas íris...

Antes, em outros tempos que foram nossos,
haviam canaviais de pestanas que nos protegiam do mundo...
Éramos lágrimas correntes em torrentes de emoções,
abençoadas pela cruz do destino,
abraçadas a sonhos cristalinos embebidos em ingenuidades doces...
As ilusões eram luares gentis que nos brindavam nas noites frescas...
E haviam pirilampos pequeninos a perfumarem-nos de luz...

Antes, quando fomos nós e deixamos de ser sós entre as pedras
e os nós que a garganta nos prendia...
Havia um mundo de gargalhadas por descobrir
em águas frescas e intocáveis...
Éramos cursos indomáveis em leitos feitos de quereres intensos...
Suspensos por desejos bafejados de amor intemporal
que afinal, era mortal, como os outros...

O nosso rio está morto, as aguas escurecidas pelo torpor...
As garças já não nidificam em nós,
são aves migratórias de voz própria, de hastes flectidas
em arrozais de outras vidas, ancorando noutro porto...
Não nos reconhecem como conforto...
Não amor, as garças não regressam, nunca mais...

1 comentário:

Dany Filipa disse...

~Deste poema realço:

"Havia um mundo de gargalhadas por descobrir
em águas frescas e intocáveis."

;

"Não amor, as garças não regressam, nunca mais... " - e a esperança se vai...

:)