segunda-feira, 30 de maio de 2011

O sorriso do mendigo...

O sofrimento é um mendigo triste,
que se arrasta andrajoso pelo peito,
dormiu muitas vezes no chão pedindo pão p'ra boca...
Agora já não se arrasta só, pelo pó implorando sustento...
Aprendeu a ser feliz com menos estômago e de braços mais magros...
Nunca soube fazer lutos muito longos,
luto contra a dor que mastiga a ferida aberta da saudade,
tentando olhar para o outro lado da vida,
dando esmolas de alegrias ao mendigo
que se consola a conta-las na mão esguia,
multiplicando-as mentalmente...
Olho-o nos olhos, sorrio e parto,
sem me despedir ou dizer se volto...
Ele fica de sorriso tremulo,
cobertor rasgados pelas costas,
dentes amarelecidos e quebrados de trincar as pedras dos outros...
É um mendigo de amor, não aspira mais nada,
senão alguém que o entenda e o prenda a uma vida melhor...
E eu amo-o por isso!
Pelos tempos perdidos vincados nas rugas,
sem fugas ou ambições de ilusões soberbas...
Pelas falhas nos dentes que amaram até mesmo as pedras,
apenas por terem sido dos outros...
O cobertor rasgado que teria partilhado de bom grado,
ou até mesmo dado enquanto morresse de frio...
E o sorriso de quem perdeu tudo mas ainda se importa
em manter-se no mundo que não o ama e o chama de margem...
Amo-lhe as lagrimas de chuva,
benzo-lhe o corpo sagrado
e deito-o na minha cama de esperança, em embalo de criança...
Porque é o meu mendigo e digo-lhe com carinho,
muitas vezes,
o dia em que te fores ficarei mais pobre
porque perderei a parte mais nobre de mim...

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