sexta-feira, 20 de maio de 2011

Geometria descritiva...

Fossilizei-me...
Tornei-me num estranho cristal opaco e estático
num estado semi-apático do querer...
Talvez tenha sido o sal das lágrimas
que me secou por dentro e aspirou os órgãos todos...
Talvez um sofrimento-temporal que tenha arrasado
os meus campos e atrasado as colheitas...
Talvez as escolhas feitas que nem se dignem
chamar de escolhas...
Não sei...
As minhas pernas-esquadros flectidas
são a base da minha estátua...
Cansaram-se de correr e resolveram morrer
em posição de redenção...
As minhas mãos-círculos fendidas
negam um dia terem-se estendido a alguém...
Estão em negação, talvez...
Os meus braços-régua só medem o chão...
Um dia fomos hexágonos, polígonos, cubos mágicos de sonhos...
Hoje só faceamos as figuras de lados pobres...
E os escantilhões calaram as letras dos nossos nomes...
Passamos de arquitectos a projectar sonhos sem tectos
a calceteiros de joelhos, dias inteiros...
A marcar passo no compasso sádico do tempo, eternamente,
em circunferências mal afiadas, desenhadas...
Mecanicamente...

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