quarta-feira, 27 de abril de 2011

A farta fartura que nos farta....

Estou farta de paredes nuas...
Sem quadros de família,
sem rachas de humidade,
sem tinta descascada pela idade,
sem riscos e arabescos de mãos pequeninas
tingidas de lápis de cera,
á espera de braços maiores que chegam num fim de dia...
Estou farta da cama fria,
sem lençóis desfeitos, por leitos incendiados,
partilhados em almofadas roubadas,
em guerras de trevas perfumadas de suores...
Estou farta de jardins sem flores,
sem baloiços de corda,
sem escorregas de gargalhadas,
sem regas de chafariz de água a subir pelo nariz,
entre risos e soluços de sorrisos...
Estou farta de praias sem pernas a correr,
sem ondas abraçadas de bruços,
sorvida em golos inesperados,
sem lutas de bolos de areia molhada,
sem conchas a encher baldes de sonhos
em castelos de princesas encantadas...

Estou farta de não abraçar a fartura que a vida me dá...
E de me enterrar em amargura por projectos não cumpridos,
porque me gosto de viciar em sonhos interrompidos...

A Felicidade é a idade mais simples da nossa vida basta dar-lhe colo!

2 comentários:

Clarisse Silva disse...

Olá Inês,

Numa só palavra - Espectacular - o poema com que nos brindas!

Beijinhos,
Clarisse

ir disse...

escreves como os pássaros voam
e as mãos se misturam
dentro da palavra interior

és como um fio de luz
que vai perfurando o poema

trazes à tona
a sensibilidade dos teus rios
escorrendo
pelas incertezas
e as intrínsecas faces
da tua coragem

és um espírito transparente

abres as janelas para que os pássaros
se percam pela obscuridade do dia
pela nitidez e pela fecundidade
do teu olhar

escreves como os pássaros voam
enquanto vamos bebendo
esses rios onde as tuas palavras
se afundam com a poesia
e as pedras

as páginas deslizam
ébrias
deixando as tuas imagens presas
à memória

e só depois
quando já esgravatas-te a terra
do coração
percebemos como os pássaros
voaram
das nossas mãos
e o poema
nos encontrou
no esconderijo dos sonhos

iluminado


Guilherme Dunas