quinta-feira, 21 de abril de 2011

A fábula da bela adormecida e da cobra...

O tempo é uma víbora de cauda na boca,
circular, venenosa, imprevisível...
Eu sempre fui o centro com vista periférica.
que assiste ao desenrolar dos dias,
ouvindo o rastejar em espiral do mundo,
gritando um apelo mudo a quem passa, mas nem pára...
Todos os castigos trazem um pecado antigo,
o meu agarrou-se às minhas pernas,
morde-as, beija-as, arranha-as numa caricia prepotente...
Um dia tomei uma decisão, mas as decisões não se deixam tomar
sem um namoro prévio...
Defendem a castidade cínica de uma forma mordaz,
como quem faz crochet com os dentes...
Se existe um Deus maior que eu,
(que acredito que seja a força bela de todas as coisas
e o principio onde o Amor nasceu),
então, este medo punitivo não faria sentido algum...
Mas a crença é uma pertença volúvel
e abandona-me muitas vezes
porque gosta de dormir em outras camas...
Já não me chamas de Amor, pois não?
O verão do nosso contentamento nunca chegou
e as árvores não resistiram à dor da geada...
Será que tudo se repete?
Promete que pelo menos existiu
e numa madrugada de tempo frio,
soube derreter a geada e coube nos nossos sonhos...
Promete que metemos as mãos juntas por baixo
para apararmos as gotas todas que escorriam dos nossos olhos,
enquanto nos olhávamos e trespassávamos de compreensão...
Não sei mais nada amor, já nem te escrevo em letra crescida,
estou perdida, de mim e de tudo...
Há uma mágoa que me atravessa como água,
preenchendo os espaços todos...
Não quero passar por aquilo outra vez,
mas talvez o sofrimento se queira passear por mim...
Pensei que a tua mão me esticasse o alcance
dos braços, mas não...
O tempo é uma víbora de cauda na boca,
que me olha de relance, num tom desafia(dor)...
E eu louca apenas tremo e temo deixar-me morder
e adormecer sem beijo de Amor para me acordar,
desta vez,
quando passar...

2 comentários:

Rogério Paulo Peixoto disse...

A escrita enquanto veículo condutor de sentimentos e encontro de almas serve o fino propósito de enaltecer os berros mudos que em desatino nos percorrem as entranhas, género de atrofio muscular em loucuras tamanhas.
Desvendas o mistério da chama que vai abrandando, já sem queimar, mas ao invés a `racionabilidade a escaldar.
O Torpôr do Amor, em laivos de saudade esquecido, espera o momento para voltar a ser actor....

Sublinho e levo comigo a frase:
Não sei mais nada amor, já nem te escrevo em letra crescida,
estou perdida, de mim e de tudo...

O Teu melhor excerto, desde que te conheço

Dany Filipa disse...

ufa
envolvente
li
parei...e o poema fez me reflectir...

realço dois dos varios pontos do teu poema em que parei para pensar

"Um dia tomei uma decisão, mas as decisões não se deixam tomar
sem um namoro prévio..."

;

"Se existe um Deus maior que eu,
(que acredito que seja a força bela de todas as coisas
e o principio onde o Amor nasceu),
então, este medo punitivo não faria sentido algum...
Mas a crença é uma pertença volúvel
e abandona-me muitas vezes "

como já varias vezes referi
é bom te ler e pensar :)