quarta-feira, 27 de abril de 2011

A farta fartura que nos farta....

Estou farta de paredes nuas...
Sem quadros de família,
sem rachas de humidade,
sem tinta descascada pela idade,
sem riscos e arabescos de mãos pequeninas
tingidas de lápis de cera,
á espera de braços maiores que chegam num fim de dia...
Estou farta da cama fria,
sem lençóis desfeitos, por leitos incendiados,
partilhados em almofadas roubadas,
em guerras de trevas perfumadas de suores...
Estou farta de jardins sem flores,
sem baloiços de corda,
sem escorregas de gargalhadas,
sem regas de chafariz de água a subir pelo nariz,
entre risos e soluços de sorrisos...
Estou farta de praias sem pernas a correr,
sem ondas abraçadas de bruços,
sorvida em golos inesperados,
sem lutas de bolos de areia molhada,
sem conchas a encher baldes de sonhos
em castelos de princesas encantadas...

Estou farta de não abraçar a fartura que a vida me dá...
E de me enterrar em amargura por projectos não cumpridos,
porque me gosto de viciar em sonhos interrompidos...

A Felicidade é a idade mais simples da nossa vida basta dar-lhe colo!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A fábula da bela adormecida e da cobra...

O tempo é uma víbora de cauda na boca,
circular, venenosa, imprevisível...
Eu sempre fui o centro com vista periférica.
que assiste ao desenrolar dos dias,
ouvindo o rastejar em espiral do mundo,
gritando um apelo mudo a quem passa, mas nem pára...
Todos os castigos trazem um pecado antigo,
o meu agarrou-se às minhas pernas,
morde-as, beija-as, arranha-as numa caricia prepotente...
Um dia tomei uma decisão, mas as decisões não se deixam tomar
sem um namoro prévio...
Defendem a castidade cínica de uma forma mordaz,
como quem faz crochet com os dentes...
Se existe um Deus maior que eu,
(que acredito que seja a força bela de todas as coisas
e o principio onde o Amor nasceu),
então, este medo punitivo não faria sentido algum...
Mas a crença é uma pertença volúvel
e abandona-me muitas vezes
porque gosta de dormir em outras camas...
Já não me chamas de Amor, pois não?
O verão do nosso contentamento nunca chegou
e as árvores não resistiram à dor da geada...
Será que tudo se repete?
Promete que pelo menos existiu
e numa madrugada de tempo frio,
soube derreter a geada e coube nos nossos sonhos...
Promete que metemos as mãos juntas por baixo
para apararmos as gotas todas que escorriam dos nossos olhos,
enquanto nos olhávamos e trespassávamos de compreensão...
Não sei mais nada amor, já nem te escrevo em letra crescida,
estou perdida, de mim e de tudo...
Há uma mágoa que me atravessa como água,
preenchendo os espaços todos...
Não quero passar por aquilo outra vez,
mas talvez o sofrimento se queira passear por mim...
Pensei que a tua mão me esticasse o alcance
dos braços, mas não...
O tempo é uma víbora de cauda na boca,
que me olha de relance, num tom desafia(dor)...
E eu louca apenas tremo e temo deixar-me morder
e adormecer sem beijo de Amor para me acordar,
desta vez,
quando passar...

domingo, 10 de abril de 2011

Pro (ver) bios...

Queria descarnar a pele da minha pele,
descamar a alma da minha alma,
destituir o sentir do meu sentir...
Pudesse eu nascer de novo,
mesmo que enfrentasse mil mortes dolorosas...
Pudesse eu despir o perfume dos espinhos das rosas,
que me vincam o corpo morto de carinhos violentos...
Pudesse eu sangrar-me e destroçar-me e desamar-me,
para desamar-te...
Pudesse eu odiar-me para odiar-te...
Estranha arte sacra que me marca a palma da mão,
onde a corda a arder corroeu a razão mais funda,
escapando-se a correr...
Queria desacreditar a vida da minha vida,
desesperar a esperança da minha esperança,
esquecer o querer do meu querer...

Mas no fim...

Deus dá vozes a quem não tem Entes...

sábado, 9 de abril de 2011

Rolling... In the deep...

Meus senhores, silêncio por favor...

As pancadas de Molière abrem em solenidade
o palco onde me descalço e me dispo...
O publico nem respira, vira os olhos para o chão,
onde repousam as roupas quentes da minha dor...
O amor é um cenário triste que insiste em permanecer
ao fundo, moribundo, mórbido, mordido, marcado...
Entram as figurantes que se afiguram a mulheres,
cabelos longos, traços embriagados em silhuetas esguias...
As mão bandeiras de nacionalidades vazias
onde dormem soldados que morreram sem saber porque guerra...
Nelas se enterra o desejo que prometeste e esqueceste a seguir,
como enxada em terra infértil...
O meu corpo é a nudez dos teus princípios,
mostro-o ao mundo em nome do teu enxovalho...
Vendi-me por ti,
para que o teu preço fosse saldado
nas lágrimas que não mereço,
mas que me lavam em pudor e sal...
O amor é o chão pisado do palco,
frio,
sujo,
ignorado pelo publico entesado...
(De mãos enfiadas nos bolsos rotos
a simularem um nervoso miudinho
no acto satisfeito de tremerem...)
Tu foste cada uma das pancadas de Molière
ou de outro qualquer,
talvez de ti mesmo...

domingo, 3 de abril de 2011

So what a hell are you so sad?

Fio de prumo...

Lentamente...
Como uma fina gota de agua,
que se esgota na magoa gelada,
de uma parede inacabada...
Timidamente...
Como a sede que nos bebe
depois de um beijo
e que se faz voraz
num imprudente desejo
que não sacia,
que se vicia em si mesmo
e se repete e promete que a seguir pára
sempre que se recomeça
numa promessa disparatada...
Sofregamente...
Como a respiração de um pulmão doente
que não sucumbe
porque se ilude que vai melhorar
desde que não desista de respirar...
Numa conquista de respeito
pelo peito de quem ama...
Apaixonadamente...
Como chama que acaricia a labareda fugidia...
Imolando-se a si mesma
como resma de papel vegetal,
largando cinza transparente...
Desesperadamente...
Como lágrima colhida
pela dor incontida,
suplicando Amor...
Descendo o rosto devagar,
deixando um rasto vincado
de gosto salgado...
Gemendo nos lábios,
morrendo no queixo a tremer...

E a alma obedece...
O equilíbrio é um lastro...
O equilíbrio é um lastro cruel...
O equilíbrio é um lastro cruel a pender...
O equilíbrio é um lastro cruel a pender e a prender a razão que o coração desconhece...