quarta-feira, 30 de março de 2011

...

A(braços) repentinos...

Como posso perder os teus braços?
Se todas as dores se calam quando me cruzo contigo
no abrigo dos meus sonhos?
Faço de olhos fechados os passos do teu colo,
já conheço de cor onde se esconde a tua voz,
deixo-me guiar pela mão do meu coração
que sempre foi a minha bengala branca
e encontro-te...
Naquela casa encantada onde corri tantas vezes
e te espreitava às escondidas enquanto trabalhavas...
Como posso perder os teus braços?
Se os meus estão doridos de esperar por ti todas as noites?
Não te despeças, nem me peças para o fazer,
por favor,
nem lhe chames egoísmo...
É apenas amor sem altruísmo...
Não sei dizer-te aDeus, não quero aprender sequer...
Se fosse suposto saber não sentia este desgosto
apenas por pensar em tentar...
A velha figueira ainda me sabe a sombra
e as uvas ainda me convidam a sujar vestidos de doce...
Ainda sinto os nós do teu banco de madeira
e o cabedal das tuas botas...
Os cheiros daqueles tempo continuam a passear-se por mim...
Não me abraces com força, não quero
que seja o derradeiro momento
em que o tempo pára entre nós dois...
Abraça-me à pressa para voltares depressa amanhã,
ou depois,
eu espero!

(Ainda não... A.A.M.)

domingo, 27 de março de 2011

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Sede...

Hoje devolvo-me ao mundo num copo de água,
O mundo bebe-me num copo de vidro barato...
Saboreia-me,
está farto de beber homens sem sabor...
Lambe-me nos lábios as ultimas gotas,
de olhos fechados...
Desapareci,
para sempre,
num golo sôfrego...
Despojo-me dos bens...
Do mal...
Da minha singularidade anormal...
Dos utensílios de beleza,
da simplicidade sem artifícios...
Da inocência e da esperteza de ter sobrevivido ate aqui,
nem sei bem como...
Dos sacrifícios que fiz e não quis,
das sortes, dos acasos
e dos casos premeditados
das mortes da espontaneidade...
Das poucas mentiras que disse quando a verdade me abandonou
e bateu com a porta e voltou pouco depois,
cheia de lágrimas nos olhos secos...
Matei a sede de mim mesma ao mundo,
hoje aqui, neste copo grosseiro, de vidro grosso e irregular...
Deixei-o beber-me devagar, sorveu-me toda,
com vontade, com desejo,
como um beijo que se dá antes de morrer...
Os meus sonhos sairão, em breve,
em surtos mictórios amarelados,
os meus prazeres, escorrerão,
ao de leve,
pelos poros da pele
quando suar espasmos, encharcados, masturbatórios,
quando se agarrar com força,
numa caricia violenta de prazer descontrolado...
Serei o gemido incontido, num respirar mais intenso,
num orgasmo imenso e demorado...

domingo, 20 de março de 2011

Kiele Aloha...

O filho do vento...

Prendi uma ultima imagem de um sorriso teu nas colinas da minha alma,
semeei-a ao vento para florescer livre...
Amei a terra que te acolheu, a chuva que te deu de beber,
porque perpetuavam uma nesga do meu sonho frágil...
Com calma, vi-te despontar, esticar o caule, como braços ténues
ansiosos de abraços deliciosos e quentes...
E sonhei com o dia em que déssemos as nossas sementes ao mundo...
Pensei que em algum pergaminho remoto do destino
estivesse escrito que pertencíamos um ao outro...
Noite e dia vivia à tua espera acariciando a terra com as mãos,
na ânsia que sentisses o meu amor
que de tão impaciente,se tornou paciente...
Alimentaste-te de mim e eu deixei,
porque era tua
e não fazia sentido ser sem ti...
Bebeste da minha essência, alimentaste-te da minha carne,
aqueceste-te nos meus cabelos...
Dormiste no meu colo muitas vezes
e eu nem dormia para te velar o sono...
Viste-me enfraquecer,
definhar, devagar...
Mas a tua sede era cada vez maior e a tua fome mais voraz
e eu pensava que quando se ama, faz sentido ser assim...
Tu crescias e eu morria feliz de te ver crescer,
se vivesses através de mim estaríamos juntos em ti,
pensava eu...
Mas tu querias viver mais, sem amarras, sem saudades,
sem promessas, sem mim...
Olhavas-me sem Amor, com vontade de partir,
revoltado por te sentires obrigado a agradecer-me...
O meu amor era agora a prisão de que te quis soltar
quando te semeei ao vento,
não eras feliz e a culpa era minha,
porque tinha te entregado o coração
e tu nem tinhas onde o guardar...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Samaritana (Letra de Álvaro Cabral)

Dos amores do Redentor
Não reza a História Sagrada
Mas diz uma lenda encantada
Que o Bom Jesus sofreu de amor!

Sofreu consigo e calou
Sua paixão divinal,
Assim como qualquer mortal
Que um dia de amor palpitou.


Samaritana,
Plebeia de Sicar,
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontra-Lo só,
Morto de sede
Junto à fonte de Jacob.



E tu, risonha, acolheste
O beijo que te encantou,
Serena, empalideceste
E Jesus Cristo corou.


Corou por ver quanta luz
Irradiava da tua fronte,
Quando disseste: - Ó Meu Jesus,
Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte.

Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Exumação...

Sinto a fúria de mil lâminas a esventrarem-me a alma...
Dissecam-me devagar, sangram-me,
secam-me por dentro...
Sou uma carcaça asfixiada pela dor...
Estou cansada desta hiena de sofrimento sádico,
porque não me matas de uma vez?
Amor? O Amor não rasga os membros desta maneira...
Não vês que mais tarde ou mais cedo me esvaio entre os teus dedos...
Atiras-me as estacas inseguras dos teus medos,
feres-me a pele, rasgas-me o peito,
fazes-me leito de mortalha, urna de cinzas, jazigo de desconhecidos...
Perguntas se eu acho que o nosso amor preferia ser enterrado,
ou cremado...
E eu que só o ouço segredar-me, ao ouvido,
que gostaria de viver connosco,
sem entender porque tem de nos deixar...
E eu olho-o a chorar, porque sei que ele adoece,
fenece aos teus pés, desesperado,
cheio de dores...
E tu? Tu nem o viste morrer...
Estavas demasiado ocupado com a merda das flores...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Porque às vezes um murmurio é o que basta para dizer tudo...

Circulo Perfeito...

Há um infinito fundamentado por nós,
onde a voz é mais melódica e as visões harmoniosas...
Acredito que dormimos lá, muitas vezes...
Cerramos as pálpebras, damos as mãos
e o movimento elíptico da terra abranda...
Quem nos manda conhecer e amar tanto o outro lado?
Esse rosto apaixonado do nosso prazer,
não sabe dizer porque nos sabe tão bem a chuva...
Mas é no sopro dos nossos movimentos,
arqueados e ondulados,
que me encontro com a paz...
Há uma miragem nos teus olhos que me faz acreditar
que o impossível é apenas uma palavra triste...
Que existe no coração de quem nunca conheceu
a plenitude de uma caricia suave,
ou de um afago de pertença...
De que valem as palavras quando as línguas se conhecem
e se compreendem numa fluidez de gestos húmidos?
Há uma imensa planície à nossa espera,
onde todas as espécies nasceram e os elefantes
dormem pela ultima vez...
É feita de instantes nossos, momentos que não vês,
porque se entranharam na terra, para perpetuar a vida...
São agora crisálidas frágeis que voam em contra-luz
e tingem o céu das nossas almas na aurora do nosso principio...
Porque nascemos repetidamente,
dia após dia, em ânsias ágeis de reencontro
e todos os dias nos voltamos a encontrar, apaixonar
e perder...
Para nascermos em sonho, do inicio, eternamente...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Danny Elfman sempre brilhante... :

Hipotermia...

Perdi a noção do cetim que se veste de saudade,
da sua maciez suave enquanto me desliza pelos dedos esguios...
Os meus lábios frios são tulipas tristes mordidas,
esquecidas no jardim perdido de mim...
Tenho medo...
Medo de acordar e o dia parecer-me confuso ou distante...
Medo de fechar os olhos e deixar de sonhar contigo,
ou de um dia pensar que tudo não passou de um sonho...
O instante já não nos chega e cega-nos devagar...
Um dia o tempo do teu dia não chegará,
nem a noite que me cabe dentro da noite...
O meu corpo será um peso morto na minha vontade
e o teu corpo esquecerá os meus contornos...
Sabe o tempo o que nos faz quando nos traz os desejos?
Falta-me passar a mão pelo teu rosto agora...
Mas a hora parte e não me leva à boleia...
Soltam-se bandos de beijos baldios a correr atrás de tudo...
Tenho medo que morram vadios vagueando pelas vagas dos desencontros...
Tenho medo que se cansem de correr...
Tenho medo de os ver morrer de mão estendida,
no Inverno da vida à espera da nossa Primavera...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Para viajar para longe...

Genesis...

Há um tempo impaciente roendo as maçãs do nosso rosto,
o suco doce das nossas lágrimas amargam o mel dos sonhos,
num gosto acre de medo que em lacre de segredo sela promessas...
Há um caroço de nó de garganta que nos desce devagar,
rasgando esperanças em intolerâncias ridículas...
Vi-te partir milhões de vezes mas nunca te vi chegar
às margens dos meus braços...
Caminhei milhares de Invernos em desertos dos teus passos
e saciei a sede em pegadas tuas,
bebendo devagar as palavras que nunca me disseste...
Há um horizonte onde o Oriente se encontra
entre o poente e o nascente num crepúsculo despertado...
E mãos desenhadas por um destino sábio que sempre nos amou...
As sombras nuas do meu corpo esperam por ti
no rubor de um pôr do sol qualquer,
onde deixaste a mulher que um dia amaste longe demais...
Num sonho tatuaste o teu nome no meu lábio
e nunca mais proferi outro sem pensar em ti...
Depois o espaço nasceu entre nós semeando universos e constelações de angustias
onde apenas só existiam versos e poemas...
Erramos separados e arrancados das nossas almas a redimir-mos o amor...
E hoje estou nos limites do Éden da vida de joelhos a rezar
a redenção do nosso regresso...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Au claire de la lune, mon ami pierrot, prête-moi ta plume pour ecrire un mot...

Auto-retrato...

Há um estranho em cada sorriso que desvanece,
uma luz que se apaga no olhar que se desvia,
um passo que se perde no entardecer da despedida...
Há um silencio que ensurdece a palavra,
e rasga o grito em tiras de papel...
E aquele instante que parte e nos parte por dentro...
E no meio disto tudo a nossa vida a exigir tudo de nós...
A decepar-nos tempo, a pavonear-se de saltos altos
no alento dos nossos sonhos,
cheia de varizes...
E existem projectos empertigados de narizes empinados
a olharem-nos de soslaio,
a verem-nos falhar
tudo o que queríamos alcançar quando crescêssemos...
E desejos que satisfazemos e deixamos de desejar...
E amores que nos cansamos de amar e que se cansam de ser amados...


E depois de tudo o que não fomos,
fica esta dormência que nos resta,
a felicidade que não nos presta,
mas na verdade é a essência do que somos...