sábado, 22 de janeiro de 2011

Porque escrevo?

Escrevo pela necessidade,
por se entranhar em mim esta agonia de gritar
a s-o-l-e-t-r-a-r as palavras todas, com fúria e animo…
Pela vontade de rima-las e acasala-las entre elas,
de as fazer gemer num prazer mordaz de se encontrarem através de mim…
(em vez de ser ao acaso, num metro, ou na fila de um banco,
com a senha 432 na mão…)
Escrevo por amor às letras,
gosto de as beijar,
de as morder,
de as deitar no chão,
de as encostar à parede
e as lamber devagar,
enquanto sussurro que as amo, ao ouvido
e que só com elas consigo sentir-me assim…
Escrevo pela vaidade,
Porque saber que me lêem é uma masturbação constante do ego cego
que me alimenta e atormenta com apetite voraz…
(porque o ego quer sempre ser mais e melhor e maior, não tem limite
e se tem não o aceita…)
Escrevo pelo fim,
pelo instante em que termino um verso e me dá vontade
de fumar um cigarro e depois me lembro que nem fumo…
Por encontrar o meu fio-de-prumo nestes desabafos
que são abafos doces de uma dor que me acompanha sem correr…
Pela emoção da partilha de mim com homens e mulheres que não conheço,
mas que me querem conhecer…
(porque me bebem na escrita
e sabem ao que sabe a minha voz aflita, ou virada do avesso…)
Escrevo pelo verso e pela estrofe e pela figura de estilo
e pelos poetas mortos que me fervem no sangue e nos sonhos…
Escrevo por leviandade pura, por consciência,
Pelo ponto de exclamação deitado em lágrima de reticência…
Pela virgula separatista, pelo ponto final estanque,
Pela interrogação constante e masoquista…
Pelo momento efémero, pelo amor eterno,
por sentir e consentir que sinta…
Escrevo…

(se devo ou não, não sei dizer…)
Escrevo porque tem de ser…

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