quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Se fosse um instrumento seria um violino...

44ª Sinfonia tri-partida em dó menor...

Há um piano leito onde me deito
e uma flauta que agarras com a mão
e me pedes para tocar, devagar...
Cada nota um desejo,
cada clave a chave de um beijo...
Somos instrumentos de sopro ao relento,
de ritmo lento
que aquece com a respiração
e ganha forma pelos lábios...
pudessem as palavras ser pautas de Wagner
E eu compor sinfonias de Beethoven em escalas decimais...
Há um misto de loucura e tortura nesta musica...
Os tempos estão descompassados e as batutas tortas talvez...
E as áreas de ópera são quadros barrocos
onde o cristal não tem lugar...
Amo-te em violoncelos no meio das pernas
e trompetes desafiando clarinetes...
Mas tu só percebes linguagem gestual, nada mais...
Não reparas no som há tua volta,
quando subo um tom acima
e digo o teu nome...
Falaram-me de harpas mas eu só ouço tambores tribais
que provocam os violinos e lhe lambem as cordas...
E as valsas de Strauss são rumbas descaradas de ombros nus,
numa Viena infestada de odores de tangos argentinos,
em acordeões transpirados de sal e vontades lascivas...
E o teu corpo uma guitarra portuguesa que chora partituras de fado antigo,
num chão ornamentado por xailes onde me perco, agora, contigo...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

If we found each other first?

Humus...

A cabeça é um relógio de cuco cansado,
as penas estão pardas e gastas
e os chilreios amordaçados...
O tempo é um sem abrigo morto na calçada...
Agora há quem lhe atire moedas
e quem o cubra de mantas...
Agora que já não mexe...
E cresce dentro de mim este frenesim de angustia...
os minutos são lutos lentos...
E as horas lapides imortais...
Não me chorem mais que eu já não ouço...
Já não me sinto,
estou mergulhada num absinto morto,
que respiro de pulmões sôfregos...
Ao longe dobram os sinos...
E as flores gritam arrancadas ao chão,
sobre o meu caixão de magoas...
Choram pétalas e esta seiva de saliva
que os caules entornam...
As ruas são abutres cegos
a comer gravilha...
E dançam almas nuas numa escuridão de pregos...
E um buraco no chão grita o meu nome,
esculpindo-me as medidas...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dissertação sobre o nada...

A utopia tem o sabor do açúcar de cana, sorve-se devagar, em prazeres suaves, num convite a saborear cada momento intimamente...



Há um tormento prateado na saudade,
que se destaca na escuridão
e nos prende a atenção
entre divagações belas...
É uma verdade que se aprende a aceitar,
que nos decalca a agrura dos dias
numa insegura impaciência
de sermos incompletos e inacabados...
É a demência que cresce
na metade que nos falta,
há falta que temos de nós mesmos...
Porque há sempre algo nosso que amamos
e emprestamos aos outros...
Um gesto, um afecto, um esgar de sonho...
E aprendemos a viver nos outros,
mudando de casa, mudando de alma,
mudando de cama, de norte, de sorte...
E ao longe a morte que nos acena,
todos os dias mais perto...
E vagamos os dias,
procurando a solução na palma da mão,
num destino qualquer que justifique,
ou quantifique sentidos...
E choramos semi-vivos a semi-morgue
que nos guia, dia após dia...
Adormecidos num coma profundo...
Alheios do mundo...
Protelando, esperando, planeando...
De olhos presos num futuro...
Baço, escuro que não conta connosco,
nem nos conhece...
A escrevermos projectos que caem dejectos
e podres no chão,
e pobres comemos
as migalhas na mão do presente...
Porque não entendemos que amar é o suficiente...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sem limites para sonhar...

Telecinésia...

Ás vezes, nos revezes do alento,
tento abraçar-te e amar-te dentro de mim...
E juro que te sinto a respirar junto ao meu corpo
quando fecho os olhos e me entrego ao paralelismo
de quem sou...
Quando acordo, sofro...
Porque há uma força de forca,
que me estrangula o pensamento,
e uma fronteira que delimita o fim do meu sonho...
Mas entre loucura e desejo reside esta esperança infinita
de existir um limbo qualquer...
E um beijo que ama os nossos lábios condenados,
que nunca se tocaram, mas se conhecem tão bem...
Sei de cor todas as caricias que procuras nas minhas mãos
e a forma como o prazer te encontra...
Já viajei em auto-estradas do teu cheiro,
paguei portagens de saliva e orgasmos,
gritei que era tua, selvagem e nua!
Num fervor urgente selei o meu corpo no teu
com um timbre de eternidade...
Fomos selins indomáveis, de um sentimento sem rédeas..
Corpo e alma comungando carne e imortalidade,
porque o amor não obedece aos grisalhos do tempo,
tão somente prevalece e se alimenta da vontade!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

...

E morreram infelizes para sempre...

A princesa era um sonho mordido por dentro...
O poder daquele som ecoava dentro dela devorando-lhe as ilusões e mastigando-lhe os sentimentos...

Sim...

Uma palavra que mudara a percepção de toda a realidade que acreditara pisar... Uma afirmação simples que lhe mostrava o inevitável, aquele nunca fora o seu conto de fadas...
Os príncipes das historias nascem mortos sem saberem... Porque só vivem nas mentiras que adornam os vestidos das princesas... E hoje ela era uma borboleta nua, sem vestidos...

Sim...

E a seguir o silêncio das ruínas do seu amor... Aquele amor que nunca foi seu, nem nunca a quis amar, só a sorvia em golos breves e entre cortados por uma realidade gelada...
A princesa sentiu uma dor que a vestiu de vidros... Não articulou palavra, nem respirou sequer... Sabia que merecia ouvir aquela confiança a destruí-la, convicta do território que era seu, mostrando-lhe que a princesa pequenina trespassava solo alheio...
A dor, roubou-lhe a cor do vestido, arrancou-lhe as rendas, desfez-lhe os laços... A pele dela amareleceu, os olhos eram rios sem brilho, o coração esqueceu-se de bater e o sangue gelou-lhe mesquinho nas veias...
Morria sem saber o que era morte, porque nunca tinha morrido antes...
Merecia morrer assim...

Afinal os contos de fadas não merecem finais felizes.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

But if you make me mad...

Espantalho...

Sou o espantalho ridículo onde pousam os teus pardais...
O meu corpo de fitas magoadas pelo vento que sopras
já não me isola...
Tenho frio, mas os campos não me aquecem,
nem se compadecem as nuvens que me choram em cima...
Ás vezes fazes de mim um alvo fácil,
atiras-me pedras, pegas-me fogo...
Mas logo te cansas...
E vais-te embora porque sabes que eu não me movo...
E os pardais troçam de mim,
fazem-me ninhos atrás das orelhas,
usam as minhas palhas para se aquecer...
E o meu olhar fixado no caminho
que te viu desaparecer, uma vez mais...
Perguntam-me os pardais:
-Porque não cais espantalho
de coração feito em frangalho?
Porque não vais para longe daqui?
Mas os meus braços abertos teimam esperar por ti...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cause I love the way you say good morning! ;)

Um nome em todas as coisas...

O meu rosto tem muitos nomes,
porque existe uma multidão dentro de mim...
Sempre fui um cais suspenso,
de braços voltados para o mar,
a ver chegar e partir muitos náufragos...
Tenho esta estúpida vontade de curar o mundo...
De lamber as feridas dos outros
e ama-los de muitas formas...
Um dia, num dia qualquer
fui mãe de muita gente
num colo de agua salgada que os embala
e lhes cala as dores...
Amamentei os silencios todos,
beijei-lhes as mãos doidas,
comidas pelas desilusões
que hoje são cotos de vontade...
Cresci sem ter idade e morri
sem estar doente,
mas renascia no dia a seguir
para permitir ao tempo fazer um trabalho
mais tranquilo...
Hoje, não sei quem sou,
perdi-me entre tanta gente,
confundi-me nas vidas todas
e amei alem mim...
As vezes sinto-me como o chão
que sustem toda a gente,
mas ninguem olha com atenção...
Ou a agua que mata a sede mas não tem um sabor definido
e mascaramos muitas vezes com sumo de limão
e passa a ser outra coisa qualquer...
Tenho mil nomes em mim,
mil rostos,
mil dores,
mil sonhos...
E um sorriso constante que é a minha capa de chuva...

domingo, 12 de dezembro de 2010

Desire...

O amor não se faz, acontece...

Existem cheiros almiscarados nas sombras
que dançam na noite...
São timbres de sons, a meio tom,
que se entrelaçam, confundem e difundem
em ecos respirados e gemidos...
São sentidos que estendem a mão e se enrolam pelo chão
num abraço que dura para além do tempo
conquistando espaço,
entre caminhos transpirados
na rigidez que se acaricia...
A pele é uma terra macia que se palmilha pelo gosto,
no prazer que te contrai e te ilumina o rosto...
E há uma fluidez de sabores de carta gourmet
no teu corpo que eu provo sem pressa,
enquanto o coração dispara depressa
e a respiração é uma locomotiva de expectativa...
Há bandos de beijos migratórios
e línguas nómadas que exploram todos os orgasmos
das primaveras do teu corpo em fogo...
E os labios são templos obrigatorios
onde nos encontramos, selamos juras
e timbramos os sonhos com promessas,
escritas em prazer e suor,
que se repetem infinitas...
Somos peças de lego, tentando encaixar de varias maneiras,
num desejo cego de pertencerem para sempre,
de costas, de lado, de frente...
Caravelas de velas soltas pioneiras nas descobertas,
apaixonadas, revoltas em ondas acidentadas...
Somos a mesma espécie, o mesmo Ser, o mesmo sabor,
o mesmo sonho, o mesmo prazer, na mesma palavra:
Amor!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sweet dreams are made of this...

Via de sentido único...

Que sabem os outros?
Que sabem eles para emitirem pareceres esquematizados
e documentados por vidas de outros outros,
se nunca lhes rolaram na cara as lágrimas?

Estou cansada de ideias idealizadas por idiotas...
De me dizerem para tentar o intentável,
para ter coragem quando nunca fui cobarde...
Estou farta de pensar que é da próxima vez
porque as vezes anteriores não estavam destinadas...
Não estavam?
Porque não estavam?
Que sabem os outros do meu sonho, ou dos sonhos dela?
Das nossas expectativas?
Que filosofias selectivas e elitistas são essas???
Tenta mais uma vez, os que morreram antes não contam...
Não contam?
Morreram dentro de mim, eu fui a campa que os abraçou,
morreram comigo,
não morreram sozinhos, houve quem os chorasse,
quem os perfumasse de flores...
Que sabem os outros das minhas dores,
ou das dores dos outros?
Existem lapides dentro de mim
que são visitadas muitas vezes...
E são minhas, não as arranquem de mim
nem as subestimem, nem as minimizem,
nem as atropelem de asneiras...
Há tantas maneiras de morrer,
eu vivi...
(Má sorte ser assim,
resistente à puta da Morte...)

Segue em frente, dizem-me os outros,
os que são estúpidos se acham que posso voltar para trás...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

For my sorrow and pain, I'll do my crying in the rain...

Lágrimas estéreis...

Se eu pudesse pintar um mundo mais simples, onde tu e eu fossemos donas dos nossos sonhos e maestras das nossas orquestras, juro-te todas as telas virgens teriam pinceladas nossas!
Se pudesse erradicar a dor e todas as cores partidárias associadas, maquilhava as nossas faces de felicidades solidarias e humildes, que na sua pureza concretizam mais, do que mil conquistas fúteis...
Pergunto-me muitas vezes porque teimamos em tentar trazer um pouco de nós ao mundo?
Se todos os dias existem sombras nossas que se espraiam nos corredores da vida e deixam sombreados nos outros, enquanto permanecemos pálidas e tracejadas e continuamos inacabadas...
Onde se esconde o traço que queremos traçar?
Será soberba nossa desejar deixar um legado abençoado neste mundo desabitado há tanto tempo?
Neste momento choro, ao olhar a mesma lua da dor que é tua, esta noite...
Nas costas jaz o mesmo açoite que te roubou o riso e o levou para longe...
Hoje somos mais que amigas, somos aquilo que fomos e aquilo que seremos depois do agora...
Dizem que chorar faz bem,
por isso, hoje, descansa e chora...
Seca-me os olhos que eu seco os teus com os meus...
Da-me a mão neste chão de ninguém, que implora por caminhantes...
Nada será como antes, porque o antes nunca se repete...
Sim tudo melhora...
Mas apenas porque não podemos chorar todos os dias...
Adormecemos de cansaço, sem nada nos braços,
porque as nossas lágrimas já nascem vazias...