terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os primeiros capitulos do Romance "Dançando sobre as Cinzas" para os seguidores deste blog! :)

Dançando sobre as cinzas


Capitulo I
Principio, meio e fim…

Todos nós, de quando em vez, falamos sozinhos, como se fosse uma maneira de apelarmos à nossa sábia voz da consciência. É uma maneira estranha de conforto que procuramos dentro de nós, talvez a busca inconsciente pelo nosso anjo da guarda, ou pelos nossos guias espirituais, talvez seja apenas uma ferramenta que auxilia a nossa concentração, talvez seja o nosso narcisismo que nos leva a gostar de ouvir o timbre familiar da nossa própria voz…
Isabel tinha levado esse hábito um pouco mais além, ela tinha Madalena, a sua melhor amiga, a sua única amiga. Era impossível para Isabel decidir fosse o que fosse, sem consultar a sabedoria de Madalena, sempre foi a rede do seu trapézio e Isabel sempre teve muito medo de cair, ainda assim caíra tantas vezes…
Isabel não era uma mulher bonita, contudo tinha o seu brilho muito próprio, os seus doces 22 anos traziam-lhe o encanto de quem descobre a vida pelo tacto e pelo cheiro. A sua pele tinha o ornamento da canela como impressão suave mas vincada, nunca conhecera o pai, apenas as dezenas de novos padrastos descartáveis arranjados pela mãe, que sempre tentou o melhor que pode, dar-lhe um lar estável.
No meio de tanto esforço, a mãe de Isabel esqueceu-se apenas de uma coisa, de lhe dar amor, daqueles pequenos gestos que fazem toda a diferença. A canção de embalar que ficou por cantar…
A historia de bruxas e fadas que nunca foi contada, na magia da media luz, entre representações de personagens entoadas com vozes diferentes e interpretadas com caretas e sorrisos…
O beijo no dedo entalado, no joelho esfolado, ou apenas a mão dada à noite quando tinha medo da roupa pendurada no arame que se transformava em monstros furiosos e famintos que nem a ténue luz do candeeiro de mesa de cabeceira em esfera laranja, conseguia afugentar.
Tinha apenas 4 anos quando Madalena falou com ela pela primeira vez, estava sentada no chão de cimento, em frente à porta de casa, observava um carreiro de formigas, era capaz de passar horas a olhar para as formigas, aquele bulício interminável fascinava-a, eram tão pequenas, mas tão poderosas, tão decididas e organizadas, às vezes Isabel pegava numa para avalia-la mais de perto, para senti-la a correr desesperada pelo universo da sua mão, gostava de apreciar o seu esforço e a sua coragem e nunca as esmagava, mesmo quando a mordiam o que a deixava muito triste e sem compreender porque se zangavam com ela, às vezes, as amigas formigas. Nesse dia tinha espalhado algumas formigas pelo comprimento do seu vestido azul de fitas, era o seu vestido preferido, sempre que a mãe lhe vestia o seu vestido de fitas, sentia-se bonita e especial com aqueles dois grandes laços de fita a decorarem-lhe os inocentes ombros nus. Enquanto as formigas corriam pelo seu vestido, Isabel ria porque percebia que elas não sabiam muito bem como descer do vestido e voltar ao seu caminho, levantou-se do chão de cimento e ria-se às gargalhadas, enquanto rodopiava com o vestido azul salpicado de formigas… Rodopiou, até ficar tonta e cair no chão de cimento, novamente, a sua cabeça andava à volta e tinha dificuldade em focar, queria ver se as formigas estavam a salvo ou se tinha caído em cima de alguma, mas não conseguia ver bem, estava tão tonta… Fechou os olhos, abriu os braços e ficou no chão durante segundos, de repente ouviu uma voz feminina dentro da sua cabeça, uma voz adulta e doce, como uma melodia tranquila, a voz disse-lhe levanta-te e foge Isabel… Mas ela estava tonta e não conseguia levantar-se, muito menos fugir, mas a voz repetia-lhe, levanta-te e foge Isabel… Hoje, aos 22 anos, Isabel ainda se lembrava da primeira vez que ouviu a voz de Madalena, a primeira vez que sentiu que era protegida e amada por alguém, desde que Madalena estivesse por perto ela sabia que tudo corria bem, o papões e os monstros ficariam à distância, sem a poderem magoar, sem lhe poderem tocar, Madalena era imponente e forte e não deixava que ninguém magoasse Isabel, desde que Isabel estivesse disposta a ouvi-la com atenção e a seguir rigorosamente todas as suas indicações.
Madalena era sábia e pragmática, Isabel era doce e a sua inocência tornavam a visão crua que Madalena tinha da vida um pouco menos tenebrosa e enfeitada de borboletas e papoilas…
O dia correra-lhe mal, morrera mais uma criança hoje, os pais estavam desfeitos, oscilavam entre o desconsolo e o alívio. Martim sofria de cancro e tinha apenas 4 anos, não saia do Hospital há 9 meses, vivera um sofrimento desnecessário que cada dia se tornou maior, sem ter maturidade para entender porque não podia ser saudável como a sua irmã Margarida.
Cada vez que era picado, gritava a arranhava a mãe que nem tentava evitar, os pequenos arranhões que Martim lhe fazia em nada se poderiam comparar às dores que ele estava a sentir, ficava apática como se a dor lhe tivesse roubado a alma…
Isabel era voluntária na unidade pediátrica de oncologia, já visitava Martim e os pais há 3 meses, finalmente aquela criança tinha parado de sofrer, os pais podiam agora chorar e voltar a dar atenção a Margarida que passara para segundo plano durante todo este tempo e também não entendia, nos seus doce 7 anos, porque tinha o seu irmão de ir para o céu…

(parte 1/2)

2 comentários:

Dany Filipa disse...

uhmmm
a doçura e a inteligência nas palavras...
para primeiro capitulo, ja desejo os proximos
ahhh
e a fasquia ja ta alta...
se o romance "Descalça ás escuras" amei, este decerto que vou amar mais!!!!!!
:)):):):):
kisssssssssssssss

Rogério Paulo Peixoto disse...

Amei,amei, amei
Esse teu modo incrivel de narrar Mundos e medos e seus segredos.
Um aperitivo que obriga a consumir o livro de uma assentada e chorar por mais.
A sublime apresentação das personagens...Incrivel, mesmo incrivel!