segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Capitulo IV "Dançando sobre as cinzas" (parte 1/2)

Capitulo IV
Um príncipe encantado de galochas



Frederico era solto e descontraído, daqueles pedaços de mau caminho que detestam usar trela, nunca fora praticante dos compromissos a longo prazo, mas apaixonava-se perdidamente por mulheres e mais mulheres, ficava doido com o universo feminino, tudo o que o habitava era um verdadeiro fetiche seu!
Quando desligou o telefone ficou com um sorriso descarado nos lábios, sabia que provavelmente não acabaria essa noite sozinho, as mulheres carentes gostam de mimos e ele assim juntaria o útil ao agradável, fazia uma boa acção animava Isabel e acabava a noite em beleza, como ele gostava de dizer, numa agradável corrida de patos!
Isabel não era linda, nem boazona, mas aquele tom de pele dela, mexia muito com ele, tinha uma pele suave como cetim que ele adorava acariciar, só de pensar nisso já estava doido. Conheceram-se no Hospital, ele era administrativo e ela voluntária, a enfermeira que a acolheu no primeiro dia, avisou-a logo que Frederico era material contagioso, mas Isabel não se deixou intimidar, sabia que não corria o risco de se apaixonar facilmente. Mas que ele era engraçado e tinha ar de quem tinha jeito para a coisa, isso tinha! No entanto, nos primeiros dias, nem trocaram uma palavra, ele olhava-a e media-a dos pés à cabeça e dizia-lhe bom dia e ela, com ar meio descarado, respondia-lhe: - Vamos ver…
Foi num dia de Inverno, daqueles que fazem justiça à estação que tudo mudou, chovia torrencialmente, nesse dia, creio que em meados de Novembro, se não me falha a memória, morreu Sofia, com 11 anos, vitima de uma leucemia esfomeada, Isabel acompanhava o caso há apenas uma semana, mas já tinha estabelecido uma boa relação com os pais que por sinal eram adoptivos, tinham adoptado Sofia com 3 anos porque Mariana era estéril… Foi a primeira vez que Isabel lidou com aquela situação e ela achava que estava preparada, mas era óbvio que não estava, consolou Mariana e Ricardo como pode, também ela lavada em lágrimas e a sentir uma imensa injustiça a galgar terreno dentro dela. Depois deles saírem do hospital arrastou-se mecanicamente para a casa de banho e perdeu as forças em frente ao lavatório, deixando-se cair, quase sem sentir, de encontro ao chão, ficando ajoelhada a chorar agarrada à base, de joelhos metidos para dentro, a soluçar alto, sem sequer se dar conta…
Com os nervos não percebeu que tinha entrado na casa de banho dos homens, queria lá ela saber em que casa de banho tinha entrado, o mundo parecia-lhe, todo ele um lugar estranho e disfuncional…
Frederico que estava na zona dos urinóis percebeu tudo o que se tinha passado, deixou-se ficar resguardado para não a envergonhar, tentando fechar a braguilha sem fazer barulho. Mas Isabel de repente levantou-se, lavou a cara e saiu, sem se ter apercebido de nada.
Frederico achava-lhe piada e derretia-se, como caramelo, com as lágrimas de uma mulher, apetecia-lhe logo despi-las e fazê-las felizes! Tinha que remediar aquela angústia de alguma maneira, ele era perito em conseguir fazer uma mulher triste sorrir, foi até à rua e entrou na loja do chinês que ficava do lado oposto ao Hospital e comprou dois pares de galochas, umas tamanho 39 (de certo ela não calçaria mais do que isso) e outras tamanho 43, as dela rosa choque e as dele amarelas. Calçou logo as dele e pediu ao senhor, ao balcão, para meter os sapatos dele num saco e as galochas dela noutro. A seguir voltou ao hospital e procurou Isabel, a enfermeira Tânia disse-lhe, com ar desconfiado, que Isabel tinha acabado de abandonar o serviço há 2 minutos e provavelmente, já devia estar no parque de estacionamento. Frederico apressou-se a sair do Hospital pela saída de funcionários e depois de procurar pelo automóvel de Isabel um Volkswagen Golf do tempo da pedra grená, encontrou-a, estava a chorar dentro do carro, com a cabeça apoiada sobre os braços no volante, ele abriu a porta do carro dela, pelo lado do condutor, impulsivamente e assustou-a, provocando um grito estridente:
-Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh
Frederico atrapalhou-se com o sucedido e respondeu meio atabalhoado:
-Desculpa Isabel, desculpa, não te assustes sou eu…
Isabel olhava para eles com aquelas azeitonas límpidas meio incrédulas esperando uma justificação para aquela atitude estranha de Frederico, afinal que quereria ele e que fazia ele ali? De repente contrariamente a qualquer hipótese saída da sua imaginação, até numa fase mais rocambolesca, ele tira o par de galochas cor de rosas, de dentro do saco e sorri-lhe, mostrando os seus dentes belos e perfeitos, (caramba o gajo era mesmo giro, aquele sorriso era mesmo um sarilho…) E diz:
- Aceitas um desafio completamente idiota e despropositado?
Isabel, estava incrédula, aquele dia estava cada vez mais estranho… Madalena desde manhã que lhe dizia aquilo que começa mal por norma termina bem, como se tivesse prazer em martelar-lhe um enigma irritante ao ouvido e agora Frederico ali, de galochas cor de rosa na mão…
Sem se intimidar com o silêncio de Isabel, Frederico começa a mostrar-lhe as galochas que tinha nos pés, alternadamente, com um ar vitorioso, eu já estou preparado, resta saber se tenho adversária à altura! Primeiro que tudo tens de calçar estes transatlânticos cor-de-rosa e depois fazeres-te a mares nunca dantes navegados!
Isabel deixou cair o lábio inferior quase ao chão, não podia acreditar no que estava a ouvir, por certo tinha entendido mal, Frederico não estava, com certeza, a sugerir-lhe que ela calçasse as botas de borracha…
-Desculpa Frederico, não estou a perceber, o que se passa?
Frederico, olhou-a nos olhos, sem ponta de insegurança, os olhos negros de Frederico viajaram de encontro aos de Isabel transmitindo-lhe uma sensação de tranquilidade e disse:
-Confia em mim, vai ser um momento realmente ridículo mas vai valer a pena, prometo, calça as galochas.
Isabel estava cansada mas havia um pontinho de curiosidade que crescia dentro dela e a desafiava a descobrir que raio de ideia absurda era aquela, resolveu entrar no jogo, afinal uma certeza já tinha, pior do que tinha sido até ali o dia não poderia ser…
- Então temos mulher?
Aquele ar trocista de Frederico começava a enerva-la, arrancou-lhe as galochas da mão e disse:
-Sempre quero ver onde isto vai levar… Detesto cor-de-rosa.
Descalçou as sabrinas castanhas e calçou as galochas, ela calçava 37, de facto sentia-se dentro de um transatlântico!
-E agora? Perguntou secamente.
-Agora sais do carro e vens comigo temos de procurar o lugar perfeito.
A mente meio adormecida pela dor de Isabel ainda teve ousadia para divagar em terreno libidinoso… O lugar perfeito – pensou - este gajo não me quer dar uma queca de galochas, espero eu… - E quase ousou rir…
Frederico liderava o caminho, olhando para um lado e para outro em busca de algo que Isabel desconhecia, mas que pela postura dele, sabia exactamente o que era…
Isabel seguia-o intrigada, com vontade de voltar para o carro e de ir para casa tomar um banho quente.
De repente parou, virou-se para trás e disse:
-Chegamos! Preparada para o momento que vai destruir anos de maturidade?
Isabel, confusa, olhou ao seu redor, estavam numa rua paralela ao Hospital, uma zona residencial sem grande piada, um claro dormitório, despovoado pelo precoce da hora,
que ainda não tinha atingido a puberdade, da agitada hora de ponta. Sem falar, procurou um sinal que lhe indicasse o que faziam os dois naquela lugar, de botas de borracha nos pés, às 16h… Mas a busca foi infrutífera, nem um café havia, era uma rua com prédios amarelos e castanhos de um lado e outro, será que Frederico morava ali e estava a querer arrasta-la para casa dele? De galochas??? Mas que raio… Que merda de fetiche era aquele? Muito kinky…

1 comentário:

Dany Filipa disse...

uhmmmmmmm
mais umas partes de um romance que me está a encantar a cada novidade, a cada desenrolar da historia!!!
Carmen vive numa profunda tristeza e numa rotina de vida estragada pela mesma...
o que a faz sentir assim?...morte de um filho?!
uhmmm

Frederico , rapaz engraçadinho, de galochas nos pes para animar Isabel...

uhmmm

a adorar!!!