domingo, 17 de outubro de 2010

Capitulo III "Dançando sobre as cinzas" (parte 2/2)

Ela abraçou-o, apertou-o, arranhou-o sem querer, no pescoço, por fazer força de mais, o sangue dele nas unhas dela tingiam o desespero…
-Não vás, por favor não vás… Eu morro se te perder também a ti…
-Está bem, amor, não vou… Não chores…
Lentamente, subiram as escadas, uma vizinha olhava incrédula à porta, o cenário estranho dos vizinhos do terceiro andar. Ela chorava descontroladamente, apertando a camisa dele com força, o pescoço dele cheio de sangue, o rosto dele angustiado e ela a repetir baixinho, vezes e vezes, sem conta:
-Ficas, não ficas? Ficas? Ficas, não ficas?
E ele num murmúrio, desvitalizado, respondia:
-Sim fico, sobe as escadas por favor…
A vizinha encarou-o, ele baixou o olhar, visivelmente envergonhado e a vizinha fechou a porta, devagar.
Cármen estava numa espécie de transe, a medicação começava a fazer efeito, em breve adormeceria e ele sabia que no outro dia teria de começar tudo do zero, porque a vida deles era assim, um recomeço constante…
A vida deles? Que vida era aquela?? Há muito tempo que ele não sabia o que era sentir-se vivo… Reflectiu…
Deitou-a na cama e ficou a segurar-lhe na mão até ela adormecer, a seguir foi para a sala e chorou ele…
Casaram por amor, ela era radiosa quando a conheceu, alegre, inteligente, divertida! Hoje tudo isso lhe parecia tão distante, apesar da vida deles só ter mudado há 1 ano atrás. Jamais imaginaria que uma palavra pudesse destruir a pessoa que ele conhecera e que amava ainda com as poucas forças que tinha…
Mas sim, ele amava-a, ou pelo menos não tinha coragem de a deixar de amar, sabia que era desumano não a amar depois de tudo o que se tinha passado… Que tipo de monstro a deixaria de amar? Que tipo de monstro a abandonaria? No entanto, muitas vezes, temia que um dia a resposta a essas perguntas fosse o seu próprio nome, porque ultimamente só lhe apetecia sair enquanto ela estivesse a dormir e não voltar nunca mais… Talvez ela conseguisse superar tudo, talvez ela fosse mais forte do que ele… Ela era uma sombra da mulher por quem se tinha apaixonado, já não sabia ser feliz… E ele?
Estaria condenado a amordaçar-se aquela angustia para sempre? Apetecer-lhe viver fazia dele o quê? Deveria ele estar a reagir como ela? O amor que ele tinha a Martim era menor do que o dela? E a ela, amava-a ou não?
Mas que raio de amor, era o dele afinal?
Tinham casado por amor!
Na saúde e na doença? Até que a Morte nos separe?
A Morte já os tinha começado a separar e o conceito de doença, quando juramos amor eterno e aceitamos essa parte espiritual do contrato, estamos a pensar em constipações e gripes…
Pelo menos era nisso que Gonçalo tinha pensado…

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