sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Capitulo II "Dançando sobre as cinzas" (parte 2/2)

Cecília virou as costas à sua filha com um misto de raiva e de culpa, tudo era mais difícil por causa dela, esta frase mordia-a por dentro, sabia que Isabel não tinha culpa, no entanto…
Cecília era uma mulher muito bonita, ainda que a vida, entre dentadas cruéis, lhe tivesse roubado parte dessa beleza, sempre quis ser actriz desde pequenina e toda a gente lhe dizia que possuía a postura, o talento e o carisma para o conseguir. Mas a vida escolheu-lhe um papel diferente, o amor foi o vilão que roubou os sonhos à bela protagonista…
Hoje sabia, que se nunca se tivesse apaixonado, teria tido uma vida muito mais fácil, por isso Cecília menosprezava o coração e muitas vezes usava os homens como quem usa toalhetes de cozinha, arrancava-os num repelão à vida que conheciam, usava-os e deitava-os fora sem olhar para trás. Jamais deixaria que Isabel passasse pelo mesmo que ela, ia ensina-la a ser implacável e intocável e isso só se consegue com rigidez, pensava ela… Um dia também Cecília olhou o mundo com os mesmos olhos amendoados e sonhadores, um dia também ela teve sonhos inconcretizáveis, um dia também ela foi sensível, inocente e com este mundo cor de rosa só conheceu espinhos e a vinda de Isabel… Isabel era no entanto, por muito estranho que pudesse parecer a sua verdadeira razão de viver e o motivo pelo qual se sacrificava tanto, amava-a muito apesar de não o saber demonstrar, nem gostar de o admitir… Depois de lhe ter batido caminhou em passo corrido, não podia olhar para trás, ela tinha de se tornar forte, mas ouvia-a soluçar baixinho…
Parou…
Sentia o ar a fugir-lhe com a névoa do remorso que a pouco a encobria, teria batido com demasiada força?
Porque estava ela assim toda suja, porque não compreendia o quanto lhe saiu do suor do corpo cada milímetro de tecido daquele vestido?
Porque não entendia ela, que Cecília tinha trabalhado 12 horas seguidas e só tinha comido uma sandes de manteiga ao almoço porque Raul, em vez de encher o frigorifico, ultimamente só tresandava a álcool, este também tinha que ser despachado, mas Isabel sempre a dizer que gostava dele, sempre a complicar-lhe a vida com aquele ar carente e meigo…
-Gosto do Raul mamã, o Raul é meu amigo…
Enquanto, os pensamentos a atropelavam como ondas indecisas a musica de fundo do choro ténue de Isabel…
Respirou fundo e olhou para trás, lá estava ela, sentada no chão, toda suja, lavada em lágrimas, chorando baixinho, os joelhos encolhidos para dentro, as mãos na terra acariciando o chão em busca de aconchego, a imagem de Isabel venceu-lhe a resistência e ela gritou:
-Levanta-te do chão Isabel, anda cá já e dá-me a mão, não te bato mais.
Isabel, olhou para ela, levantou-se cambaleante, limpou o ranho com as costas da mão e avançou para ela a correr, aquele trajecto de metros pareceu-lhe imenso… Chegou perto dela e abraçou-se às pernas de Cecília enquanto soluçava:
-O Raul matou as formigas todas mamã… Ele matou as formigas…
Cecília não percebeu a razão de tanto alarmismo, que importância tinham as formigas? Sacudiu-lhe a terra das mãos, as unhas estavam negras e os dedos encardidos e esfolados,
deu-lhe a mão e disse:
-Não chores, amanha já nascem mais, as formigas são assim morrem mas nascem logo outra vez!

Sem comentários: