domingo, 29 de agosto de 2010

Par(tu)( ri )(ente)...

Rasuro o tempo,
tento rasga-lo,
parti-lo ao meio,
descobri-lo de dentro para fora,
num parto provocado em cesariana de descoberta...
E a ferida aberta do tempo sangra...
São minutos paridos em contracções lentas,
minutos doridos,
filhos de horas violentas
que respiram o ar pela primeira vez...
Embalo-os um a um,
são todos parecidos comigo...
Há vozes que ecoam ao longe
que lhes querem pegar...
São memorias velhas na menopausa
com saudades da fecundidade,
a quererem sentir a maternidade
de novos dias junto aos seios secos e murchos...
E os minutos choram,
escancaram a goela,
porque elas têm pelos no buço
e os picam quando os beijam
e cheiram a naftalina que tresandam...
E as memorias revoltadas
quase os mandam de cabeça para o chão
num impulso frustrado e despeitado...
Mas seguram-se e pousam-nos no berço,
com olhar de desdém dizem:
Têm o feitio bravio da mãe!
E eu adormeço-os um a um,
lembro o momento em que semeei cada um deles...
E sei que nenhum filho sai rebelde por mero acaso!

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