quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Queda...

Foge-me o chão, corre à minha frente,
impedindo que o pise,
arrogante...
Encolhe-se com medo que eu o magoe,
que o humilhe, que o despreze...
Que lhe pese em cima mais os meus ombros,
que o encha de escombros ou entulho,
que o esmague com o peso do meu orgulho,
que o mantenha preso de baixo dos pés...
Invés de arriscar,
foge,
esconde-se
e eu a pedir-lhe que volte,
que me aceite, que me ouça um minuto,
a prometer não pesar muito...
Mas ele, não...
É o meu chão, mas não confia em mim...
E eu tacteio o abismo...
A ausência de suporte,
o buraco negro da morte dos meus passos,
o descolo da gravidade...
E as pernas não se sustêm,
perdem a rigidez dos ossos,
não fazem calço com os pés
e os pés não fazem força com os dedos...
E o meu chão lá ao fundo,
a ver-me tactear o nada,
desesperada a implorar-lhe com o olhar
para voltar...
E ele... Não...
É o meu chão, mas não confia em mim...
Agarro-me com os braços e esperneio no vazio,
os músculos doem-me e descubro que peso mais
do que pensava,
as mãos escorregam pela barra metálica
da minha resistência,
suam-me enquanto se esfregam
e tentam colar os dedos,
mas os dedos não têm velcro,
nem cola, nem nada e eu...
peso...
tanto...
E os braços...
estão...
tão...
can...sa...dos...
E as mãos gritam-lhes para os braços não desistirem
porque sozinhas não conseguem...
E o chão cada vez mais longe,
debaixo de outros pés, nem olha para trás...
Quando cair...
Caio no chão.

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