domingo, 29 de agosto de 2010

You cut me open...

Par(tu)( ri )(ente)...

Rasuro o tempo,
tento rasga-lo,
parti-lo ao meio,
descobri-lo de dentro para fora,
num parto provocado em cesariana de descoberta...
E a ferida aberta do tempo sangra...
São minutos paridos em contracções lentas,
minutos doridos,
filhos de horas violentas
que respiram o ar pela primeira vez...
Embalo-os um a um,
são todos parecidos comigo...
Há vozes que ecoam ao longe
que lhes querem pegar...
São memorias velhas na menopausa
com saudades da fecundidade,
a quererem sentir a maternidade
de novos dias junto aos seios secos e murchos...
E os minutos choram,
escancaram a goela,
porque elas têm pelos no buço
e os picam quando os beijam
e cheiram a naftalina que tresandam...
E as memorias revoltadas
quase os mandam de cabeça para o chão
num impulso frustrado e despeitado...
Mas seguram-se e pousam-nos no berço,
com olhar de desdém dizem:
Têm o feitio bravio da mãe!
E eu adormeço-os um a um,
lembro o momento em que semeei cada um deles...
E sei que nenhum filho sai rebelde por mero acaso!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Falling...

Queda...

Foge-me o chão, corre à minha frente,
impedindo que o pise,
arrogante...
Encolhe-se com medo que eu o magoe,
que o humilhe, que o despreze...
Que lhe pese em cima mais os meus ombros,
que o encha de escombros ou entulho,
que o esmague com o peso do meu orgulho,
que o mantenha preso de baixo dos pés...
Invés de arriscar,
foge,
esconde-se
e eu a pedir-lhe que volte,
que me aceite, que me ouça um minuto,
a prometer não pesar muito...
Mas ele, não...
É o meu chão, mas não confia em mim...
E eu tacteio o abismo...
A ausência de suporte,
o buraco negro da morte dos meus passos,
o descolo da gravidade...
E as pernas não se sustêm,
perdem a rigidez dos ossos,
não fazem calço com os pés
e os pés não fazem força com os dedos...
E o meu chão lá ao fundo,
a ver-me tactear o nada,
desesperada a implorar-lhe com o olhar
para voltar...
E ele... Não...
É o meu chão, mas não confia em mim...
Agarro-me com os braços e esperneio no vazio,
os músculos doem-me e descubro que peso mais
do que pensava,
as mãos escorregam pela barra metálica
da minha resistência,
suam-me enquanto se esfregam
e tentam colar os dedos,
mas os dedos não têm velcro,
nem cola, nem nada e eu...
peso...
tanto...
E os braços...
estão...
tão...
can...sa...dos...
E as mãos gritam-lhes para os braços não desistirem
porque sozinhas não conseguem...
E o chão cada vez mais longe,
debaixo de outros pés, nem olha para trás...
Quando cair...
Caio no chão.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sonambulismo...

Há um murmúrio desconfortável
que assola o tempo que se isola de fresco,
num mercurio venenoso de termometro que se partiu,
porque caiu no chão,
com o qual as crianças brincam a juntar gotas de morte...
Tenho medo de eleva(dores) porque sobem as escadas
mais depressa do que eu
e as descem como eu descia
quando as saltava em lances
e o embate do chão
me sabia a conquista quando estremeciam os predios
debaixo do eco dos meus pés...
Mas os elevadores elevam-se até onde quero subir
e eu tenho de deixar a porta fechar se quero ir...
Conto os pisos...
Um...
Dois...
Três...
Quatro...
E aquela musica de Vivaldi
que fala de quatro estações amarrotadas
num piano pardacento, amorfo e monocórdico
deixam-me ainda mais ansiosa e nervosa
pela claustrofobia da minha caixa...
E chego...
Lá em cima ainda existem andaimes
e açaimes de mim,
naquele piso coberto por plásticos,
de sofás que nunca foram repouso de ninguém...
E o medo vem me esperar à porta,
tinha estado a dormir e ainda tem ramelas nos olhos...
E eu sacudo o pó dos plasticos,
discretamente, com a palma da mão,
enquanto o medo lava os dentes à pressa...
E tomamos o pequeno-almoço juntos,
falamos do lixo à porta da inveja,
dos cães da saudade que mijam na escada...
Do ódio que rega as flores e molha os parapeitos das janelas
de toda a gente...
Da paixão que faz amor de persianas levantadas e nos olha de soslaio...
E caio...
Em mim, por entre pisos de sonhos...
E acordo nos meus braços porque os teus, ficaram la...

domingo, 22 de agosto de 2010

Descalça às escuras?

Conto os passos,
recapitulo,
meço o tamanho das pegadas
que se imprimiram no tempo...
Não sei se tenho tempo que me sobre,
nem se as pegadas prevaleceram
num registo nobre ou vergonhoso de passado...
Mas há um imenso cansaço que me embriaga
na fúria dos dias...
Acho que me perdi de mim,
enquanto procurava por ti...
Agora entre esquinas e encruzilhadas,
as minhas pegadas tornam-se desconhecidas
porque o caminho que eu percorri,
para chegar a ti,
apagou aquele que era o meu...
E as vidas que me acompanham
estranham o meu passo,
num andar diferente
de abraçar ausente...
Há um traço que já não traceja
o meu chão...
Não sobeja passeio largo
neste caminho vago
para que alguém me acompanhe,
sem que estranhe a irregularidade do piso,
outrora leve, liso, breve...
E ha sorrisos que me acenam ao longe
e que os sinto perto cada dia que passa...
E o tempo avança...
E os dias correm...
E os passos partem...
E eu?
Continuo a olhar para o chão,
à procura da passada que segura e liberta a pegada...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Une folle farandole...

La foule...

Je suis la foule, toute seule...
Viens, par que je pars...
Je ne regrette rien...



Tenho parafusos nos olhos e giro o mundo ao contrário...
A minha visão é uma maquina de roupa em centrifugação...
Roda e roda e roda e roda e roda e roda e roda...
E o mundo fica tonto à minha volta e cai no chão...
Pudesse a terra ser quadrada e tudo seria mais fácil,
apenas teria de caminhar para o abismo e deixar-me cair...
A culpa é dos verbos que nos seus tiranismos imperativos
sobrevalorizam as acções e desvalorizam os sentidos...
Eu amo (amo?)
Tu amas (sabes?)
Ele ama (quem???)
Nós amamos (quando compensa)
Vós amais (os materiais))
Eles amam (ser amados...)
E os parafusos dos meus olhos giram e desenroscam-se
e caem com os sonhos pendurados cheios de amor em serpentina
a escorrer...
E eu a agarrar os olhos
e os sonhos e o amor e a tentar enroscar tudo
e cada vez a cair mais mundo de dentro de mim
para esta bola quadrada onde temos que viver todos
os que nem sabemos viver...
Sim sou louca...
Sim sou...
E tu?
Tens parafusos nos olhos?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dó... Ré... Mim...

Já não existem flautas no meu olhar de violinos...
A musica partiu e deixou o roupeiro vazio,
anos e anos de vida em comum e agora parte,
sem se despedir...
Gostava de a ouvir dentro de mim,
uma vez mais, no seu tom de som desafinado...
Mas há um maestro cansado que envelhece
e se esquece das partituras...
Não há sinfonias de caos,
nem melodias melodramáticas,
nem revoltas estáticas em greves breves...
Apenas um duro e surdo silencio imenso
dentro de tudo aquilo de mim
que era uma orquestra...
Nem dó, nem sol, nem lá...
Aqui, apenas a escuridão indolor do silêncio.

domingo, 15 de agosto de 2010

Quando um é a soma de dois...

Já cultivei mil ventos dentro de mim,
fui searas de revoluções,
fui campos de revolta,
fui cavalo à solta em prados de insatisfações...
A entrega sempre me assustou
e mascarei-me de independência muitas vezes,
quando era apenas a resistência que me vestia...
A minha alma edificou uma torre com degraus íngremes
e avisos de derrocadas para desencorajar o amor...
E o amor passava todos os dias por mim,
encolhia os ombros,
acendia um cigarro,
olhava para o cume da minha torre,
piscava-me o olho e sorria!
Pelas janelas dos meus medos via-o passar
e achava-o interessante no seu modo deselegante de andar...
Mas até os medos têm um dia de folga
e nesses dias os sonhos sobem as escadas todas!
Não sei em qual dos dias me rendi ao sonho,
mas sei que foram todos a partir desse dia...
O desafio venceu-me,
porque nunca passei de um desafio qualquer,
daqueles que são uma meta ridícula que se atravessa por curiosidade...
E a idade apenas me trouxe vários vencedores de desafios
que me venceram frios,
em dores muitas vezes...
Mas no meio de tantas corridas nasceu o gosto
por ser corrida e percorrida e descoberta!
E a vontade de pertencer aprendeu a saber-se valer de direito,
no enlace, enlacei-me e encontrei-me!
Não fui feita para estar só, só isso...
Os dedos não se entrelaçam ao acaso,
nem se deslaçam sem deslizarem, intimamente...
Tudo na vida é um gesto...
E nem o ocaso resiste ao toque
da areia morna e dourada deitada em dunas de seios cheios,
à sua espera...
Tudo é parte de algo que parte, às vezes...
E um deve ser a soma de dois,
numa soma perfeita, feita de parcelas imperfeitas!

sábado, 14 de agosto de 2010

Je t'aime mon amour...

Oniricismo...

Num tempo longínquo sem tempo, nem espaço, eles amaram-se entre areias intemporais que não cabiam em ampulhetas...
Era a infância do amor e por isso, não cabia em parâmetros, nem em limites, nem neste mundo...
Fizeram juras secretas e promessas em suspiros que foram gemidos de uma conversa gestual só partilhada entre almas que se conheceram desde sempre e resistiram apenas na ânsia do reencontro...
A distância era apenas um adorno antes da nudez, existia uma consumação carnal nas palavras que elevava a mudez a prazeres multiplicados por desejos coreografados instintivamente em beijos que eram muito além-lábios, onde as línguas falavam e saciavam a mesma linguagem...
O fôlego, era o mesmo, o corpo era uma crisalida de cheiros e as almas eram uma pluralidade singular de cor chamada amor...
E confundiram-se um no outro, até a natureza não os saber distinguir ou extinguir separadamente...
Numa união que atravessa todas as vidas, morreram e renasceram milhões de vezes no abraço a que sempre pertenceram...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

God speed your love to me...

Pintando tectos de azul...

Ela voava, entre as copas das árvores, entre os sopros que beijavam as montanhas, cansadas de estar sós e geladas...
Atravessou nuvens, vestiu-se de correntes marítimas e condensou dentro de si todas as lágrimas do mundo...
Ao longe havia um ele, de costas, de mãos cobrindo olhos de magoas presos a águas profundas...
Havia um corpo magoado e curvado pelo tempo e um orgulho que partira à procura do amor...
E havia um amor que nunca encontrara o corpo onde construir o lar perfeito, onde pudesse envelhecer e morrer em leito quente, depois de uma vida inteira num peito inquieto qualquer...
E por cima de tudo isto havia um tecto mascarado de céu, além do céu azul que conhecemos em manhãs de Agosto onde as nuvens foram à praia e passaram horas a flutuar dentro de água...
Um tecto só porque tinha de haver um limite, até mesmo para os sonhos...
E porque ela, eventualmente teria de descansar de voar e ele, eventualmente, se cansaria de olhar para o chão...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Todas as borboletas douradas são dignas de pena...

CansAÇO...

Existem passos apressados nos meus passos caminhados...
A lentidão aparente é uma mascara de bicos de pés,
onde as minhas ansiedades espreitam entre os dedos...
Esgueirando-se espreitando o caminho,
de pescoço esticado, de um lado para o outro,
à espera de sinais,
de pontos luminosos no escuro do meu sentir mais denso...
Faltam-me as forças, tantas vezes...
Vivo um intenso marasmo de ausências,
onde o alimento de "pão p'ra alma" escasseia
e a alma se remedeia com as migalhas que a vida insípida vai deixando cair no chão...
Estou cansada de comer côdeas esfareladas, secas,
misturadas com terra e formigas...
Queria morrer amanhã...
(Hoje já tenho coisas combinadas e parece mal...)
Podia ser logo de manhã,
mal acordasse, tomava o pequeno almoço
e morria de barriga cheia!
(Também parece mal chegar ao céu e sentar-me a comer...)
Hoje, sinto tantas coisas ao mesmo tempo,
que nem sei o que explorar primeiro...
Um misto de cansaço e tristeza
e cansaço e inercia
e cansaço e desilusão
e cansaço e raiva
e cansaço e vazio
e cansAÇO e cansAÇO e cansAÇO e cansAÇO e cansAÇO e cansAÇO e cansAÇO...
E...
Cansaço...
Vivo entre aço e arranha-céus,
todos os dias, a olhar para cima,
com toda a gente a olhar para baixo...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

De passear no teu céu...

Vamos fazer um poema...

Vamos fazer um poema,
escrito pela mão de pena da nossa alma...
Infinito no sentido de cada palavra,
rimado, ritmado,
protegido pela estrutura desafogada de estrofes,
onde cabem todos os versos desmetrificados...
Sem palavras eruditas que só convencem os intelectuais,
que as aprendem e as entendem,
sem saber mais do amor...
Um poema analfabeto,
descoberto ao acaso,
quando os homens forem maquinas, num futuro promissor,
deslavado,
quando a poesia for uma memoria
contada por velhos medicados e fechados em hospícios...
Uma cápsula do tempo, em marco de história,
feito em letras manuscritas,
saídas do peito, aflitas...
Pode ter erros,
pode ser simples,
pode ser bronco...
Mas que seja poema no sentir!
Que nos fale de sonhos e de esperanças,
mesmo que humildes!
Que nos lembre a inocência e a valência de todas as coisas belas!
Que fale de crianças, ou de gentes apaixonadas...
Que diga apenas:
Eu gosto de ti, porque sim e não sei escrever mais nada...
Um poema filho de poemas e neto de poemas e bisneto de poemas...
Sem brasão de família...
Mas com um pai e uma mãe e um irmão
que se amem no Natal com bacalhau com todos, (ou com nenhuns)
mas de corpos encostados em calor,
porque não há lenha para a lareira...
Um poema que nos lembre a primeira vez de um beijo...
Ou a vez seguinte...
Ou as lágrimas de uma partida em despedida...
Que nos fale de alguém que fez alguma coisa,
ou que não fez coisa nenhuma,
mas que fale de alguém...
Ou que se cale em silencio por ser recordação...
Um poema que seja canção,
ou oração,
ou adivinha,
mas que seja alguma coisa!
Uma ladainha carpideira, ou um alegria em euforia..
Que relate uma vida inteira,
ou fale de um dia, ou um momento, ou o relance de um olhar...
Um poema que se lance através de nós e nos toque,
nem que seja ao de leve...
Um poema, longo, breve...
Que nos liberte, que nos sufoque...
Que seja mar, que seja rio, que seja lago, que seja poço
que seja poça, que seja gota...
Que seja vago, concreto, abstracto, directo...
Um poema que seja...
Nosso...

domingo, 8 de agosto de 2010

these arms of mine they are burning for wanting you...

Quando um homem ama uma mulher...

Quando um homem ama uma mulher,
quando a respira em essência e carne,
ardem-lhe os olhos em vela
nos sonhos em que não sonha com ela...
Quando um homem ama uma mulher,
a sua,
que podia ser outra qualquer,
mas é aquela,
porque é a única
que lhe sabe daquela forma...
Quando a toma nos braços,
e o cheiro dela lhe perfuma a pele
A distancia é uma túnica de tormento
que veste cada momento
em que os braços são deslaços mornos,
onde não moram os seus contornos...
Quando um homem ama uma mulher e não a beija um dia...
Sem o mel do seu hálito
os seus lábios desidratam e gretam
e sangram...
Porque é no seu fôlego que se completam
e amaciam ...
Quando um homem ama uma mulher e não a vê um minuto...
Os minutos da angustia em afastamento
quase matam e alimentam o tormento em entranha,
em cada separação que se arranha de luto...
O silencio de não a ouvir,
ensurdece-lhe a alma e seca-lhe a vida,
em palma de flores,
numa agonia de quase-morte...
Sem Ascenção...
Onde não existem paraísos perfeitos,
ou sina,
ou sorte,
ou absolvição terrena ou eterna...
Porque não há céu maior do que o que mora nos seus olhos,
onde se demoram as utopias e os prazeres perfeitos
gemendo por leitos e caricias de amor...
E ele aprende a voar nesse olhar
e a perder-se na dor da noite,
se a tristeza a visita,
e a lavar-se no sal das suas lágrimas nuas,
lambendo-as numa sede aflita ...
Quando um homem ama uma mulher...
Quando a aprende
e se rende
e a entende
e a aceita,
nos meios termos da sua existência,
entre demência e lucidez insatisfeita...
Quando vive para sentir a maciez dos seus seios
em abobada perfeita,
e se deixa fluir dentro do mundo
que é o corpo que o recebe em sede...
Sente-se completo num existir maior...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Wouldn't you agree, baby you and me, we've got a groovy kind of love...

Leap of faith...

Fecha os olhos...
Deixa-te cair para trás...
O amor é um imenso mundo
onde a gravidade não comanda...
Tens coragem?
É uma queda de fé,
confiança cega,
uma demanda de entrega...
Não podes ser margem amor,
tens de ser maré e onda enrolada
e agua agitada em fúria...
Deixa-te cair,
sem pestanejar,
sem abrir o olho para espreitar,
sem virar a cabeça,
aconteça o que acontecer...
Só a ti cabe a escolha de te deixares cair,
sem medo,
num mergulho de costas...
Sem saber se a água é turva, cristalina,
negra como carvão, ou apenas chão duro...
No amor e no sonho não há guião a seguir...
Tens de deixar acontecer,
tens de dar a mão e deixares-te guiar...
De vendas nos olhos em solos flutuantes,
inconstantes e desnivelados...
Ponderar é castrar,
é ser infiel
é ser indigno...
É ser incapaz...
Deixa-te cair para trás...
O amor não se pondera,
nem se espera, nem se equaciona...
É tempestade que não figura nos bolhetins meteorológicos...
Os lógicos, os racionais, não amam, nem sonham...
Deixa-te cair para trás!
Num imenso abismo de ti mesmo,
onde és tudo o que sempre quiseste ser e nunca ousaste...
Sente-te a fluir por todos os poros,
sem rótulos, sem racionalidades supérfluas,
sem indecoros mascarados de covardia...
Amanha?
No futuro?
Quantos dias ficarão por sonhar à espera do dia certo?
Amanha estarás morto na mesma,
vivas como viveres,
comas o que comeres,
serás um lindo morto saudável e racional
que fez tudo bem, só não viveu...
Tentar?
Mal não faz...
Podes sempre voltar ao que eras...
Deixa-te cair para trás!
Fecha os olhos!
Inspira fundo, confia em ti,
mereces o mundo!
Deixa-te cair para trás, amor...
Eu seguro-te!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

EANOS

Os meus olhos são medusas sanguinárias,
à beira de explodirem e tingirem o mundo inteiro...
Por momentos sinto-me gravida de todas as fúrias,
parindo em cadeia a face mais feia da desumanidade...
E agradeço a Deus não dar ouvidos ás blasfémias,
que desejo e vejo tomarem forma na minha imaginação...
Ai se Deus me desse ouvidos...
Havia quem hoje rastejasse sem pernas
e de olhos vazados e lábios colados
entre uma terra de vidros
e larvas e ratos e lesmas
a gemer as dores pelo nariz,
com os ossos todos dos braços partidos
e eu em cima deles a saltar à corda
feliz e cheia de força!!!
Mas Deus até se benze quando me ouve...
Porque não morrem uns quantos mentecaptos no mundo?
O tempo que morrem tantas crianças de fome?
O mundo está cheio de inaptos que engordam
à custa dos outros,
em tronos de trampa!
Vestidos com mantos de estupidez
e coroados de inconsciência...
Porque odeiam tanto estes reis da decadência
a felicidade alheia?
Na sua vida cheia de nada e nas inseguranças
e acne imberbe de quem nunca será um homem,
têm os bolsos cheios de inveja...
Pobres crianças-monstro com tamanhos disformes
de pêndulos caídos e apodrecidos...
Tão nojentos, peçonhentos,
pavoneando-se em cavalos de soberba
a mendigarem sexo à noite
a mulheres frígidas que lhes lavam as cuequinhas sujas atrás...
E assim se faz o mundo dia após dia mais pequeno...

domingo, 1 de agosto de 2010

Inconfidências...

Os lábios são conchas abrigando palavras,
onde os silêncios dizem mais,
porque pestanejam olhares...
Há mares imensos de desejos intensos
que nos separam e se encontram
nas fúrias cálidas das marés...
Onde a espuma das ondas pálidas
são os pés dos sonhos que nos tocam
e nos provocam em salpicos...
O amor é apenas uma das portas,
mas quantas portas abre a chave do meu anseio?
Receio saber...
O meu corpo é apenas mais uma passagem,
a minha pele é um tecido efémero
e o desejo um orgasmo profético...
A imortalidade é uma palavra branda
que não compromete a minha alegria...
Para sempre?
Tua sempre?
Porque o Sempre sossega a alma e a entrega das pessoas?
Amar agora devia chegar...
Somos tristes conspiradores de amores
perfeitos e eternos...
E nem vivemos para os ver durar...

Don't pretend to be blind...

Mandamentos são ordens...

Tapa os olhos,
tapa!
Com palas, com medos,
com segredos institucionalizados,
cozinhados por um politico-gourmet qualquer...
Tem de ser,
tapa!
Cobre!
Porque a mentira é nobre e movimenta o mundo
e a verdade é perigosa
e dolorosa e cruel e...
Tapa bem!
Ninguém quer ver
o mundo fora do seu sofá,
do seu carro à porta,
da creche dos miúdos...
Submete-te à escravatura,
remete-te à tua pequenês,
não vês, nem queres ver...
Faz doer?
Arde a vista?
Sê cobarde,
sê egoísta,
sê marioneta,
quieta de sorriso crédulo...
Eles andam aí, são perigosos...
(Eles quem?
Quem??)
Os guardiões da paz protegem-nos...
(E quem nos protege dos guardiões?)
Que paz apregoam os senhores das armas?
Que inimigos são os nossos?
Que mal nos fazem os que nos temem?
Porquê tanto medo?
Porquê tanto medo?
Porquê tanto medo?
Abre os olhos vê!
A vida não dói,
pensar não mói,
viver é um direito teu
e é agora!
Esta na hora de pensar,
contestar, sentir, existir!
És muito mais do que te pensas,
chega de recompensas envenenadas,
dadas por mãos ensanguentadas...
Deus não pune, Deus não castiga,
nem tem uma viga no céu donde observa tudo...
O mudo és tu...
O cego és tu...
O prego que crucifica está preso a ti...
A verdade tem peso?
A verdade é um poder?
Ou o poder é uma verdade?