sábado, 31 de julho de 2010

Principios buuuuuu! Distas...

Deslizo no piso molhado dos meus medos,
escorrego e entrego-me à queda...
Os segredos são facas de dois gumes,
cortam de um lado e de outro
e de repente eu sou só uma tira
e as minhas aparas caíram no chão
desamparadas...
Corte-se a mão a quem roubou um pão,
arranque-se o coração a quem ousou amar
para além do permitido ao próprio umbigo...
Quem nunca errou que atire a primeira pedra,
(se não estiver demasiado ocupado de mãos cheias
a desviar-se das pedras alheias...)
Os homens não sabem perdoar
e perdem vidas inteiras a apontar dedos aos outros...
(quem aponta um dedo, recebe sempre outros três da sua própria mão...)
Só queria acordar um dia e perceber
que toda a gente perfeitinha tinha partido...
E também podiam partir os mentirosos
e os semi-verdadeiros e os invejosos
e os venenosos e...
Todos!
E eu podia transformar-me num galho de uma sequóia!
E ficar ali,
a balançar-me ao vento,
alheia ao tempo,
entregue à bondade das minhas raízes
à espera que me quisessem alimentar
para aprender a verdadeira humildade!
Isso sim é budismo
e não andar a fazer mmmmmmmmmmmmmm
num mosteiro qualquer vestida de amarelo
de cabelo rapado e riso castrado...
O mundo é tão belo quando nós lá não estamos...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

I will run for shelter...

Zepelim, per mim, pim, pim!

Cravo as unhas no meu pensamento
e gravo racionalidades padronizadas
e aceites politicamente pelos outros
nos lençóis freáticos do sentir...
Pudesse eu existir sem isto tudo...
Sem este deslocamento constante
que me faz ser nómada de alma...
Nasci assim, em demasia,
numa manha fria qualquer,
disparada,
porque não tinha tempo de ficar la dentro,
mais tempo,
nem queria magoar a minha mãe...
Mas sofro as dores de parto
de todas as desilusões
e rio-me porque cresci assim,
a fazer de conta que só dói amanhã
e se sorrir talvez só doa o bocadinho
de quem esfola um joelho no alcatrão...
Sempre amei numa escala diferente,
não sei porquê...
Como se o mundo à minha volta tivesse
saído de dentro de mim e eu o quisesse abraçar
e beijar e embalar e ensinar a andar...
Mas o mundo é um adolescente rebelde, mimado, mal educado
que vende o meu amor para comprar droga...
E o meu amor só se afoga em dividas
e sofre de o ver emagrecer e amarelecer de dia para dia...
Só queria, que por um dia,
os outros pudessem ver o mundo pelos meus olhos...
Um dia bastava...
Para verem a nitidez das minhas cores
e o que me faz apaixonar todos os dias!
Sim...
Sou louca...
Talvez...
Uma louca deslocada que aterrou aqui,
vinda sabe-se lá de onde...
Que não se esconde daquilo que sente,
mas mente muitas vezes a si própria para tentar encaixar,
numa caixa apertadinha que nem a deixa respirar...
Sim...
Sou louca...
Talvez...
Porque acredito que há alguém bonito
dentro de ti e dele e dela e do outro e daquele
mas que esta tão afogado em contradições que nem respira
com os pulmões cheios...
E eu sou uma louca que espreita pelas janelas das pessoas
e as vê despir as máscaras
e tantas vezes se apaixona por elas,
assim nuas, de olhos da alma cansados
e rostos desmascarados e risos soltos,
envoltos em inocência e essência,
escondidinhos de si mesmos em ermos, la dentro,
fechados e sufocados tanto tempo...
Sim, sou louca porque as beijo
e as vejo todos os dias dentro de mim
e elas nem nunca repararam em mim,
nem nunca me viram despir,
nem sabem o que fazer com o meu sentir
e só me querem possuir para me dissecar
e enviar para um laboratório
e abrir impacientes o resultado das analises...
Se elas soubessem...
Se elas soubessem que sou feita apenas de agua
já me teriam bebido, há muito tempo...

And the world will live as one!

Paraíso?

Nasce o dia no amanhecer do meu corpo,
entre orvalhos de sonhos
e auroras boreais de escrutínios pensamentos livres...
Divago no universo vago do verso,
numa auto-analise em jeito de catarse...
Ser assim,
no ser de mim que nem se sabe conhecer...
Porque os manuais de instruções perderam-se
ou estavam escritos em mandarim
e ninguém os soube ler...
E eu já me cansei tantas vezes
de ser puzzle montado em peças,
dispersas pelos meus labirintos todos,
onde os instintos mais puros bastariam...
Quando o paraíso fosse uma utopia palpável,
alcançável num gesto simples de esticar o braço,
ou num abraço que acontecesse naturalmente...
E o meu doce acaba por ser o travo amargo
que me magoa tantas vezes
em infernos alternativos,
servidos em pacotinhos de açúcar com frases
lamechas, ou deixas, ou clichés, ou filosofias baratas...
E o paraíso seria lamber a colher de café
no fim,
enquanto digeria os mistérios da vida,
iluminada pela Delta!
De certeza que encontrarei mil definições
de Paraíso, mil verdades absolutas, mil porcarias
que um dia alguém escreveu e nunca viveu sequer
para além da porta de casa...
Ai o Paraíso!
O Paraíso, o sonho, a utopia!
Tenham juízo!
O paraíso é um domingo de manhã
em que durmo até ao meio dia!

sábado, 24 de julho de 2010

Ask any fool that she ever knew, they'll say Keep away from-a Runaround Sue...

Oximoro

E nasce a nossa velha história,
na memória esquecida dos séculos passados
que se encontram no dia de hoje...
Longe, no perto de ti,
há um limite que nos carrega,
no peso da entrega, preso à fúria do mundo...
Há uma antítese que se completa,
indirecta mas concreta,
porque houve um dia em que as palavras conversaram,
e se entregaram e renderam às evidências
das coincidências...
Nada é por acaso, nem o ocaso, nem nós,
nem o que sinto quando ouço a tua voz...
Louco e rouco e...
Vivo, na morte que te abandona
quando me ouves a mim...
E o fim é o começo,
onde recomeço o que terminei...
O dia de amanhã?
Não sei, nem me interessa...
A promessa ficou por cumprir,ou por manter,
ou por mentir, ou por esquecer...
São novas ruínas que se erguem...
Diferentes?
Iguais às anteriores?
Melhores?
Não...
Diferentes, apenas...
Do amor cresce o ódio?
Não...
Do amor jamais cresce algo negativo...
Num gesto emotivo talvez te odeie, dois minutos ou três...
Mas não tenho tempo para lutos,
ou para raivas, ou para me consumir a pensar num motivo
para odiar isto tudo que me envolve...
A amizade devolve-me a mim, o perdão também,
não quero ir para o céu...
Mas quero cá andar feliz, muito tempo!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Another sun soaked season fades away...

22072010 O dia em que a poesia morreu...

O céu enegreceu ante o semblante do teu breu...
A voz embargou-se, soluçou-se e silenciou-se,
escondendo as vogais na arrecadação da ilusão...

Hoje, a poesia morreu.
Vitima de pneumonia atípica ou fatídica,
nem sei...
Tossiu a noite toda, cheia de febre,
com os pulmões infectados de amor,
num delírio constante chamava por nós...
Mas não existia nós, apenas Tu
e apenas eu...
E uma dor imensa que nasceu em mim
e a contagiou...
No fim ela pediu para me aproximar,
queria que eu cumprisse as suas ultimas vontades...
E eu nem tinha coragem para chorar,
quanto mais para cumprir promessas...
Permanecia no quanto do quarto,
a olhar para ela deitada na cama,
amarelada, as letras dos cabelos sem brilho,
as estrofes das faces sem viço,
as metáforas do corpo escanzeladas...
E ainda assim era bela...
Uma moribunda profundamente bela,
sem medo nos olhos ante o rosto da morte...
Morria de pneumonia e de desgosto,
mas morria sem medo...
Pediu-me para lhe dar a mão
e nem isso consegui fazer,
porque estava demasiado ocupada a sofrer...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

But sooner or later in life the things you love you lose...

O sonho é o alimento do meu tormento...

Visto-me de seda sede em agua algodão,
no caminho peregrino do meu perdão...
Bebo o mel das palavras que me pingam na pele
cada vez que soletro o teu nome,
num incompleto saciar compulsivo...
Falo com as miragens dos meus olhos
e soltam-se pétalas de recordações
entre orquídeas selvagens e desejos fugidios...
Chamo os beijos para jantar,
porque já pus a mesa,
mas, sem surpresa,
os teus lábios permanecem frios,
distantes, ausentes, dormentes, errantes...
E o meu amor arrefece no prato,
farto de esperar, perde a fome,
ou come a tua espera já fria...
E a poesia?
A poesia...
A poesia chora letras, soluça estrofes,
grita motes...
O verso é um reflexo de sofrimento
no avesso do momento da partida, sofrida...
E nós?
Nós...
Nós perdemos-nos, ardemos-nos em cinzas de nada,
numa hora inacabada em que fomos um cinzeiro...
E o mundo inteiro apagou os cigarros no nosso colo
para mascarar a nossa dor...
Estendemos-nos como lenços,
em esparsos braços do vento
e morremos antes do crepúsculo suspirar
a palavra Amor...
O sonho era o músculo que mantinha o corpo vivo
e BATEU, LUTOU!
Perdeu... Chorou...
E morreu no teu olhar sempre esquivo,
ao largo de um amargo cais...
Antes, o meu mar acalmava-se
quando te ouvia chegar,
com a barriga da alma vazia...
E apressava-se a alimentar-te,
porque saciar-te era também o meu sustento...
Mas houve um todo de esquecimento que fez lodo
o que era um cais...
E o lamento do meu tormento que te servia de alimento,
não aportou, nunca mais...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Teardrop on the fire...

Intensidade...

Há um aroma a flores nas lágrimas que tombam...
Uma fragrância suave que reveste o cemitério dos pássaros que morrem em campos desafogados, no dia em que se fazem os ninhos...
As lágrimas são como nós, têm medo de morrer sós...
Num bailado de solidariedade, as lágrimas lançam-se do precipício dos olhos sempre de mão dadas...
A intensidade com que caem no chão é tão violenta que o chão não aguenta e abre-se em fendas de pranto, trespassado pela dor.
E o embate esbate-se num silêncio mórbido, como se a sua morte, fosse o inicio da morte do mundo...
Todas as lágrimas nascem com medo de morrer por isso tentam esconder-se umas atrás das outras, tentando passar despercebidas, para não serem escolhidas...
Algumas, as mais fortes, agarram-se às pestanas, imploram, choram, lutam pela vida...
Mas os olhos são apaixonados pela dor, estão cegos de amor e querem oferecer-lhe o brilho das lágrimas, para a conquistar...
Então sacodem-nas, pisam-lhe as mãos com as pálpebras, obrigam-nos a escorrer cara abaixo...
E elas tentam agarrar-se a uma ruga de expressão, numa réstia de esperança em prolongar a vida que lhes ditou o destino de nascer apenas para morrer, suplicam perdão...
A voz vê-as passar a arranhar o rosto, e soluça violinos de desgosto...
Os dedos tentam agarra-las, mas as lágrimas só podem ser tocadas por outras lágrimas...
E os lábios comovem-se por as ver fenecer e tentam beija-las antes de morrer...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pop... Six... Squish... Uh uh... Cicero...

Dores de crescimento

Cansada, exausta, gasta...
Todos os dias a mesma estrada,
onde recomeço do mesmo nada...
Um dia encontrarás...
Tantas conversas, tantas promessas,
tantas mentiras...
E as iras lavam a roupa à mão no rio
para se lamberem do mundo vazio onde nasceram...
Um dia...
E os abraços são sempre os mesmos,
com braços diferentes e gostos iguais...
Todos eles tão especiais dentro da sua imbecilidade
natural em tratar as mulheres como troféus...
Ainda jogam aos berlindes os homens,
porque têm berlindes nos bolsos...
Um...
Nenhum!
Todos...
Que importa em que porta bato
se todas as portas me levam ao mesmo recreio,
cheio de homens, de olhos vidrados
a admirar cobras de agua,
com a mania que são abafadores,
quando deviam ser abafa dores...
Espalhando salivas nos lábios
q as nossas lágrimas beijam...
Um dia...
Não hoje, nem amanha, nem nesta vida,
nem em vida nenhuma...
Porque o amor...
O amor...
Ai, o amor...
E as paixões e os apalpões
e os beijinhos e os carinhos e...
E o quê?
meus senhores?
O quê?
Um dia encontrarás...
A dor, muitas vezes em braços
de seres humanos com três pernas...
(Devia ser isto q nos deviam ter ensinado desde pequeninas...)

domingo, 18 de julho de 2010

Up and down...

O divino feminino...

Existem bailados coreografados
pela sede dos sentidos...
Vestidos acetinados de toques,
onde linhas femininas são extensões perfeitas,
feitas alongamentos delicados,
numa rede imensa de equilíbrio...
É aí que mora e se demora o desejo,
aquele que vos arrasta num delírio de martírio
em intensa fragilidade,
onde a rigidez é
uma entrega reveladora da nossa vitória!
As mulheres vencem os homens pela rigidez,
mas o mundo feminino é fluidez absoluta!
Cada movimento nosso tem arte e beleza
e os lençóis são o nosso habitat natural!
E, sim, um olhar basta,
para vos transportarmos por mares nunca dantes navegados!
Porque a agua também é nossa por direito natural,
vocês aprendem a nadar,
nós, já nascemos ensinadas
e molhadas e espraiadas nas ondas...
Somos aquele estranho elo que liga os homens aos anjos!
O desejo é a prova viva das nossas asas
e a inveja alada que as arrancou,
foi do mesmo anjo que nos desejou possuir...
Não vos deixeis cair em tentação,
porque a tentação é a maçã que as mulheres conhecem!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Who you gonna call?

Fant(Azias)...

A minha pele esta cheia de escamas de orgulho,
quando a luz me bate,
parece que estou coberta de prata
numa estranha armadura de lata
que reluz e parece iluminar uma sala...
Porque não se cala aquela voz miudinha,
dentro de mim?
Aquela vozinha ridícula e esganiçada
que nunca me diz nada
que possa utilizar na selva do dia a dia?
Sou uma estranha manta de retalhos,
numa cama vazia cheia de teias de aranha,
onde nunca dormiu ninguém...
Tenho tanta coisa guardada que se agarrou a mim...
Tanta...
Que nem um expectorante de suspiros,
me faria soltar estes fantasmas todos...
Acho que gosto de ser uma casa assombrada,
gosto de os ouvir uivar dentro de mim...
Assim,
sei,
que nunca hei-de morrer sozinha...
Moro comigo e com eles todos...
E retalho-me...
E arranco-os...
E desgraço-me...
E despejo-os...
E abraço-me...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

The magic of your smile...

A insustentavel dureza de Ser...

Não.
Não te perdoo.
Porque não há nada a perdoar,
as magoas já há muito que rumaram a sul,
juntamente com as outras aves migratórias...
E eu, que nunca fui nómada,
deixei-me ficar no azul dos meus sonhos,
a vasculhar se havia alguma coisa p'ra comer...
Não.
Não te ofendo.
Nem me prendo a provocações estúpidas,
porque as discussões só fazem sentido
quando gritamos ao ouvido de alguém:
OUVE-ME!
E eu tenho as cordas vocais delicadas...
E tu nasceste sem ouvidos...
Um dia,
há muito tempo atrás,
talvez ontem,
ou a semana passada,
ou há décadas,
nem sei...
Acreditei que havia um homem dentro de ti,
e agarrei-me a um destroço de esperança
com unhas, com dentes, com tudo...
Mas o destroço desfazia-se dentro da agua do teu silêncio...
E eu morri na praia, a olhar para ti,
mudo e sem reacção alguma...
Gritei por ti,
uma,
e mais uma
e mais outra
e outra vez ainda...
E Tu viraste as costas e foste fumar um cigarro,
enquanto poluías o teu ar, o meu ar morria...
E eu dividi-me e vi-me morrer,
deitei-me ao meu lado e chorei comigo,
porque não havia mais ninguém...
Limpei-me as lágrimas,
abri um buraco na areia,
com as mãos...
E sepultei-me o mais fundo que pude...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Transito condicionado...

Nasce-me uma vaga de alcatrão na alma,
sou estrada alcatroada de fresco,
ainda quente,
sem ter sido marcada por rodas...
Estou farta e farta e farta e faRTA e FARTA
de ser sinalizada por míopes e cegos
que me metem sempre as placas ao contrario...
Há sempre um condutor bêbado que me viola em contra-mão,
que me julga chão a dobrar e me pisa duas vezes...
Hoje vou desmanchar o armário do meu sentir,
vou fazer um carrinho de esferas e conduzir-me a mim mesma...
Vou pintar o alcatrão de branco,
arrancar os separa(dores) de pranto,
inverter os sinais,
meter portagens e limites de velocidade...
Não vou magoar-me nunca mais,
nem remendar-me...
Ao longo do meu percurso vou colar cartazes
com imagens paradisíacas, para me abstrair
do percurso cinzento que percorri tanto tempo!
Talvez nasçam flores silvestres a dividir
as faixas de rodagem,
talvez cobre abraços como tarifa de portagem,
talvez o branco do alcatrão se canse de ser chão
e aprenda a ser mar...
Talvez eu nunca me arrependa de um dia
ter agarrado o meu volante com as duas mãos,
no meu humilde carrinho de esferas,
que foi armário de tantas esperas e entregas sinceras,
tantas vezes cegas...
Talvez o carrinho se canse e se torne barco à vela,
talvez os cartazes sejam capazes de se tornar realidade!
Talvez...
Um quilometro de cada vez...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Let it rain...

Está a chover, leva chapéu...

Vesti a gabardina da minha protecção...
Por baixo do sintético impermeável,
não há chuva de fragilidades que me molhe...
Nem nuvem de sentimentos que me apanhe desprevenida
num dos estranhos acasos da vida...
Ao longe,
ouço, em surdina,
os sussurros burros do meu coração,
e pego num esquelético guarda-chuva sem pano,
que mais parece um pára-raios invertido...
Porque não sou capaz de fechar de vez,
os braços dos sonhos,
com a simplicidade com que fecho este velho guarda-chuva?
E teimo em saltar botões e casas da gabardina
para deixar entrar salpicos de emoções?
Porque saio com chinelos de enfiar no dedo,
em vez de galochas,
se sei que vou enfiar os pés nas poças?
E a agua entra sedenta e fresca
triunfante de me lavar a pele
e eu descubro que a gabardina encolhe,
fica pequenina
e é feita de papel...
E eu gosto que a chuva me molhe,
mas não confesso...
A minha protecção é um rasto quarto minguante,
num quarto sem portas, nem janelas e de telhado desdentado...
E os sonhos olham-me, riem-se, molham-me,
ganham-me, como ganharam tantas vezes o troféu do céu do meu sentir...
E eu...
Deixo-me ir...
Exausta de lutar, farta de gritar...
A gabardina diminuta luta comigo,
num abrigo claustrofóbico,
as varetas do chapéu, contorcem-se e tentam arranhar-me a cara
e o meu coração dispara em cada pingo de chuva que me toca...
E a gabardina morde-me e arde-me...
E eu insisto enquanto aguento,
mas o tempo de Inverno provoca-me terno...
E eu aceito-o dentro do peito...
Dispo-me, num baptismo de nudez integral,
intimo e pessoal...
Ajoelho-me...
De cabelos molhados, escorrendo pelos seios
cheios de amor, castigados pela dor...
E já não minto, sei o que sinto...
A agua das poças é tão morna...
A agua da chuva é tão fresca
e eu nunca gostei de gabardinas...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

To search the ends of time...

(In)pressão..

Houve um tempo em que éramos apenas essência, nessa altura não havia separação física de nada, porque o mundo físico não nos limitava, quando nos separamos para experimentarmos a vida, eu imprimi-me dentro de ti...

Somos da espécie que se conhece além toque,
que partilha um cheiro que ultrapassa gerações...
Os meus pulmões são os alvéolos dos teus
e sentem quando respiras o sofrimento,
porque se contraem e o ar também me falta...
Sou o sangue que corre sôfrego pelo teu corpo,
te invade, te aquece, te alimenta e atormenta
quando te cortas e me lambes...
Por isso fechas os olhos quando os teus lábios
sorvem as gotas de sangue que te escorrem do dedo...
Podem existir mil vidas através de nós,
mas a nossa essência será sempre a mesma,
por isso estremecemos à passagem um do outro,
a nossa energia reconhece-se e cumprimenta-se
num frenetismo de pernas dormentes a fazer espargatas...
Podemos estar em pólos opostos do mundo,
ainda assim seremos a união dos hemisférios,
provocando estranhos degelos e aguaceiros nos desertos...
Já viajamos em muitas formas,
fomos pedras imutáveis, rios furiosos, terra fecunda...
Mas a nossa essência nunca muda...
Hoje presos em vidas efémeras, limados à passagem dos anos,
experimentando os enganos da fome, da sede, da morte...
Esquecemos-nos que um dia, fomos a mesma energia...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Stay on your Island...

Titulo postumo...

Há historias que ficam marcadas no tempo,
inscritas numa pedra que não lasca,
nem se gasta, nem abraça a erosão...
São contadas por avós, amarrotados,
de sorrisos doces e almas tranquilas
que já se esquecem das coisas simples,
mas nunca esquecem de acrescentar pontos
e paragens e respirações a estas historias...
(São narradores notáveis e incansáveis os avós!)
Um dia, talvez tu viajes em lábios quebradiços,
que já beijaram outros lábios e agora só beijam netos...
Talvez sejas assunto de reformados,
que matam o tempo, que se atrasou outra vez,
e não os resgata das artroses, nem da falta de fôlego
a subir escadas
e comentam quem foste,
entre uma cartada e uma gargalhada de aceitação...
Um dia talvez sejas letras marcando pedra,
talvez sejas historia,
rendilhada na memória de alguns,
ou quem sabe de muitos...
Idolatrado por vidas de merda...
Um dia talvez sejas importante,
obra feita,
nome sonante,
estátua erguida numa praça,
onde toda a gente passa e lê o nome para ver quem é...
Nome de rua em inscrição mármore,
num bairro social, ou residencial,
ou parque industrial...
Um dia talvez...
E hoje?
Quem se lembra de ti?

domingo, 4 de julho de 2010

A primeira vez do tempo...

Hoje, visto o espaço-temporal de desejo,
apetece-me chocar e abanar os ramos das pessoas,
podar as árvores cansadas de inércia
das multidões opacas,
amar as almas fracas,
espalhar sentimentos no ar
e respirar os cheiros das gentes todas de uma vez só,
até q o cheiro do mundo seja um perfume homogéneo...
Beijo os lábios apressados do tempo
faço-o devagar...
Primeiro ternamente,
depois avidamente, mordiscando-lhe os minutos...
Sobreponho as minhas pernas nos seus ponteiros erectos,
sinto nas coxas as palpitações dos segundos,
como sinos de igrejas conspurcadas por paganismos libertinos...
As pessoas seguem-me não porque eu mereça,
mas porque o perfume do mundo as move...
São peregrinos de um amor lascivo,
que deixou de ser possessivo,
no momento em que pertenceu a toda a gente!
O amor é a arma que comove e que nos arma...
Mas o amor é como a guerra,
quem volta, fica marcado para sempre...
E hoje o tempo amou pela primeira vez...
Aprendeu que gosta de ser tocado,
explorado, desejado, beijado, despido,
mordido...
É virgem mas descobre depressa o prazer da entrega!
Hoje pertence-me e decido q este dia não terá 24 horas,
terá as horas que o mundo precisar para sentir-se
entrelaçado em si mesmo!
E o tempo, na minha cama, dorme, abraçado a mim...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Um cheirinho do meu romance novo, aguardo as vossas criticas!

in "Dançando Sobre as cinzas..."


(...)
Isabel não era uma mulher bonita, contudo tinha o seu brilho muito próprio, os seus doces 22 anos traziam-lhe o encanto de quem descobre a vida pelo tacto e pelo cheiro. A sua pele tinha o ornamento da canela como impressão suave mas vincada, nunca conhecera o pai, apenas as dezenas de novos padrastos descartáveis arranjados pela mãe, que sempre tentou o melhor que pode, dar-lhe um lar estável.
No meio de tanto esforço, a mãe de Isabel esqueceu-se apenas de uma coisa, de lhe dar amor, daqueles pequenos gestos que fazem toda a diferença, a canção de embalar que ficou por cantar…
A historia de bruxas e fadas que nunca foi contada, na magia da media luz, entre representações de personagens, entoadas com vozes diferentes e interpretadas com caretas e sorrisos…
O beijo no dedo entalado, no joelho esfolado, ou apenas a mão dada à noite, quando tinha medo da roupa pendurada no arame, que se transformava em monstros furiosos e famintos que nem a ténue luz do candeeiro de mesa de cabeceira, em esfera laranja, conseguia afugentar.
Tinha apenas 4 anos quando Madalena falou com ela pela primeira vez, estava sentada no chão de cimento, em frente à porta de casa, observava um carreiro de formigas. Era capaz de passar horas a olhar para as formigas, aquele bulício interminável fascinava-a, eram tão pequenas, mas tão poderosas, tão decididas e organizadas.
Ás vezes, Isabel pegava numa para avalia-la mais de perto, para senti-la a correr desesperada pelo universo da sua mão, gostava de apreciar o seu esforço e a sua coragem e nunca as esmagava, mesmo quando a mordiam. O que a deixava muito triste e sem compreender porque se zangavam com ela, às vezes, as amigas formigas.
Nesse dia tinha espalhado algumas formigas pelo comprimento do seu vestido azul de fitas, era o seu vestido preferido, sempre que a mãe lhe vestia o seu vestido de fitas, sentia-se bonita e especial com aqueles dois grandes laços de fita a decorarem-lhe os inocentes ombros nus. Enquanto as formigas corriam pelo seu vestido, Isabel ria, porque percebia que elas não sabiam, muito bem, como descer do vestido e voltar ao seu caminho. Levantou-se do chão de cimento e ria-se às gargalhadas, enquanto rodopiava com o vestido azul salpicado de formigas.
Rodopiou, até ficar tonta e cair no chão de cimento, a sua cabeça andava à volta e tinha dificuldade em focar, queria ver se as formigas estavam a salvo ou se tinha caído em cima de alguma, mas não conseguia ver bem, estava tão tonta…
Fechou os olhos, abriu os braços e ficou no chão durante segundos, de repente ouviu uma voz feminina dentro da sua cabeça, uma voz adulta e doce, como uma melodia tranquila, a voz disse-lhe:
- Levanta-te e foge Isabel
Mas ela estava tonta e não conseguia levantar-se, muito menos fugir, mas a voz repetia-lhe:
- Levanta-te e foge Isabel
Hoje, aos 22 anos, Isabel ainda se lembrava da primeira vez que ouviu a voz de Madalena, a primeira vez que sentiu que era protegida e amada por alguém...
Desde que Madalena estivesse por perto ela sabia que tudo corria bem, o papões e os monstros ficariam à distância, sem a poderem magoar, sem lhe poderem tocar! Madalena era imponente e forte e não deixava que ninguém magoasse Isabel, desde que Isabel estivesse disposta a ouvi-la com atenção e a seguir rigorosamente todas as suas indicações.
Madalena era sábia e pragmática, Isabel era doce e a sua inocência tornavam a visão crua que Madalena tinha da vida um pouco menos tenebrosa e enfeitada de borboletas e papoilas…
(...)

;) Beijinhos em todos!