terça-feira, 29 de junho de 2010

When I feel blue in the nights...

Sonho entorpecido...

E sonho...
Um mundo sem rotina,
onde se parte a linha pequenina do destino em pedaços,
em espaços paralelos e desfasados...
Um mundo sem limites,
sem estratosferas, sem esferas azuis...
Onde os homens não têm formas,
nem mulheres, nem outros homens...
Onde tudo é permitido
mas não se faz nada porque ninguém obriga...
Ninguém se liga a alguém,
e ninguém chora porque a ausência não dói...
E sonho...
Um dia onde os dias são sempre diferentes,
onde as pessoas não se repetem,
nem se comprometem,
nem se amam, nem se chamam pessoas,
pois nem sabem que nome se chamar...
Não existem momentos felizes,
porque não existem momentos tristes,
nem momentos,
porque o tempo não se memoriza,
desliza sempre inconstante e distante...
E sonho...
Um mundo desenvolvido
sem estar envolvido em nada...
Mecânico sem mecanismos que se avariem...
E acordo...
Porque sonhar deixa de fazer sentido....

domingo, 27 de junho de 2010

Morfol(h)ogia...

Realço o olhar a dobrar, em lápis sombreados,
o escuro do mundo pertence-me e convence-me a ser noite...
Porque se movem os olhos fechados enquanto dormimos?
Porque os ouvimos correr encerrados num quarto escuro
a embater nas paredes das pálpebras?
Talvez porque o sonho nunca descanse e não se canse de te procurar...
Doem-me os olhos...
Estão cansados de percorrer os mesmos caminhos todas as noites,
estão magoados dos açoites das pestanas que os tentam chamar à razão,
mas os olhos não ouvem,
são olhos, não são ouvidos, nem são ouvidos
porque também não falam...
A esclera é um estranho céu branco à volta da terra das íris,
num manto em nuvens de pranto prestes a explodir...
E existem relâmpagos de derrames de cansaço...
Porque choram os olhos fechados enquanto estamos a dormir?
Que parte triste da nossa alma visitam enquanto dormitam os nossos sentidos de alerta?
Que porta encontram aberta?
Em que caves e sótãos se perdem entre tralhas de recordações,
porque regressam, às vezes, cheios de arranhões
e tantas outras, cheios de brilho?
O que sabem os nossos olhos que nunca nos contam?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

It isn't easy...

Words don't come easy...

Não.
As palavras, de facto, não chegam...


Hoje suprimimos as palavras da nossa vida,
moramos no silêncio, porque o silencio nos entende...
Podíamos contar ao mundo, um milhão de vezes,
a nossa historia...
Levar meses a rescrever a memória post-mortem do nosso amor...
E ainda assim, tenho a certeza que ninguém entenderia...
Como posso eu esperar que o mundo entenda,
se o mundo não tem tempo para amar?
Um dia, quando a neve cobrir os meus cabelos
e levar os teus que já não são muitos...
Talvez possamos reescrever as palavras,
reinventar a historia,
redescobrir o amor,
encontrar o estranho motivo que nos encontrou...
Porque a morte estará perto e o medo será relativo,
nessa altura não terás nada a perder,
porque já perdeste uma vida inteira
e a minha ficou perdida pelo teu caminho...
Um dia escolhi amar-te...
Com todos os teus defeitos, que são tantos,
com todas as inseguranças, que são imensas,
com todas as tuas cobardias, que são as minhas...
Escolhi, dia após dia, amar-te, sempre,
todos os dias da minha vida,
sei que escolhi amar-te só
e só amar-te...
Tu nunca saberás como custa levar essa decisão até ao fim,
porque nunca decidiste coisa nenhuma...
Alguma vez tiveste ideia da extensão da teia do meu sentir?

Não.
As palavras, de facto, não chegam...
Nem os afagos,
nem as desculpas,
nem as culpas,
nem nada...
Porque nada te pode dar a dimensão do ar que me falta
por cada minuto que passa...
Tu nunca decidiste amar-me,
talvez tenha acontecido, por acaso,
num ocaso mais perturbador,
deste um pontapé numa pedra
e encontraste o amor...
Levaste-o para casa, dentro do bolso das calças,
meteste-o em cima da mesa e dissecaste-o
para ver como era por dentro,
não percebeste coisa nenhuma,
desinteressaste-te daquele objecto sentido, não identificado
e deitas-te-o na reciclagem das embalagens de plástico.

Não.
As palavras, de facto não chegam...
Porque tu nunca me escreveste, nunca foste sequer o traço
da linha do meu sentir,
nem o abraço que me confortasse em momentos de duvida...
E os meus braços caíram, pendurados, lado, a lado,
de um tronco inabraçado...
Não.
Tu nunca me amaste, ainda que julgues que sim,
nunca te entranhaste num amor consciente,
que mesmo doente vai trabalhar todos os dias...
Tu nunca me sentiste, nunca me viveste,
nunca me pensaste...
E a vil tarefa dos cobardes é amar sem pensar...

Não.
De facto, as palavras, não chegam.

domingo, 20 de junho de 2010

Cause I love the way you say good morning!

E... Saio... Sobre a cegueira...

Caminho com cem olhos entre homens sem olhos,
cada olhar meu deslumbra um mundo díspar do olhar seu irmão,
como se cada pálpebra fosse um remo trilhando uma corrente diferente...
Não, não há nada que me distinga,
a simplicidade da minha essencia não tem arabescos,
nem existe um mapa de tesouro por desvendar,
nunca tive pretensões de viver além-mim...
Mas, na força motriz que acompanha o universo,
tenho no verso a arma da alma que se acanha perante a ignorância
de quem acha que a força cresce nos braços e não nos laços...
Gostava que me vissem e não me despissem,
mas os cegos experimentam-me pelo tacto...
A minha face cabe-lhes na mão,
o meu coração não lhes cabe em lado nenhum...
Tocam-me de cima a baixo,
um por um...
Contornando os contornos e os adornos femininos,
em gestos pequeninos, com dedos franzinos e sujos....
Deixam-me impressões digitais na alma
e a pele mascarrada da cobiça...
Descarnam-me com a raiva da conquista,
roendo-me os ossos nus e limpando a boca aos meus cabelos...
Os braços que os tentaram abraçar
são os palitos dos dentes afiados
que me comeram aos bocados...
Carrascos de olhos baços,
vazam-me os olhos com colheres
e sinalizam-me a alma com pregos...
E os meus cem olhos choram pelos cegos
que me devoram sem ver...
Pobres dos homens que nunca amaram
porque cegaram ao nascer...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

I never really have a doubt...

CO2

O ar perdeu-se nos pulmões dela, divagou por alvéolos, queria enche-la, preenche-la, ser parte dela...
Foi ele que enviou o ar ao seu encontro, pediu que o ar fosse o corpo invisível dentro do corpo que lhe era impossível abraçar...
Ela respirou-o de olhos fechados sentindo-se inteira pela primeira vez, a alma dela embalou-se no aroma atípico do oxigénio como se o perfume tivesse absinto...
Prendeu-o dentro de si em orgasmos múltiplos de dióxido de carbono...
Se ele fosse agua ela aprenderia a respirar por brânquias, filtrando-o em litros e litros de mar, sem nunca o deixar ao acaso...
Expandiu a caixa de ar o mais que pode para lhe dar liberdade, não seria carcereira claustrofóbica da sua fluidez, doía-lhe o peito por querer tanto faze-lo feliz, alargando compartimentos dentro do seu labirinto respiratório...
Se ele tivesse espaço, se ele se sentisse confortável, talvez escolhesse ficar...
Fechou a boca, resolveu suste-lo em respiração, e morreu preenchida pelo seu fôlego!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Levarsi un fil di fumo Sull´estremo Confin del mare....

Maternidade...

Existem mil gestações dentro de mim,
transformam-se ciclicamente,
como as estações do ano...
Visto-me do bucólico no melancólico chilreio dos pássaros!
Contemplo-me em barragens espelhadas
de sonhos, onde ponho as mãos sobre um regaço de janela...
Toda eu sou um abraço intimo e ínfimo!
Ao longe, do meu sentir, cantam cardumes
escamados de galos,
redobram o canto em queixumes de alvoradas
empoleirados em capoeiras pardacentas
e pregam aos peixes das barragens lamacentas,
lições desidratadas em filosofias gastas...
Os galos são homens com cristas e não sabem nada
que me possam ensinar...
Balanço-me nas bocas de chocalho do mundo,
porque sou o som que os aconchega...
A minha alma encerra segredos de sábios,
que vivem em árvores e riachos,
mas os lábios dos homens têm medo da verdade,
vivem mentiras e vestem-me de fraudes...
Tenho a alma forte das figueiras
e a sede impiedosa dos eucaliptos...
Amo-me em fruta madura, mas colhem-me sempre demasiado depressa
e cospem-me no chão...
Sou um decidido desequilibro ambiental,
que grita ao seu redor que o amor,
no entanto,
não vive preso às estações...
Tantas vezes são as ilusões que o adubam e regam...
As flores do campo da minha essência não têm rosto,
mas têm gostos multicolores em tecidos rodados...
Concebo-me, formo-me e nasço, repetidamente,
em contracções de desejos irreflectidos de carinho...
Beijo todas as maravilhas à minha volta
e dou a mão ao coração sozinho de alguém,
não, ninguém merece ser prece sem colo...
Entre dar à luz tantos sonhos nado-vivos,
às vezes não consigo amamentar-me a mim...
E os sonhos choram e eu nem me consigo arrastar
para consolar lágrimas e barrigas cheias...
E os sonhos choram, gritam, vão-se atrás do choro,
quase nem respiram e eu pergunto-me:
Estarei preparada para ser mãe de tantos e tantos sonhos?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Because sad eyes never lie...

Os olhos tristes de Peter Pan...

Decalco esperanças na ardósia da tua alma,
subo ao palco do teu sentir,
sinto as inseguranças a puxarem-me as pernas
enquanto disserto prosas inteiras romanceadas
a céu aberto...
O sol bafeja-me de lume,
num ciume doentio e mordaz...
O sol faz eu fechar os olhos...
E eu deambulo em estados febris e senis
de encadeamentos cruzados,
em busca da arca perdida do meu sonho
em grutas magicas guardadas por 40 ladrões, 7 anões e 3 porquinhos...
As ilusões são olhos tristes e cansados
em túneis de brilhos quase difusos...
Chovem aguarelas de arco-íris confusos
que me tingem os cabelos
que agora são novelos de lã a rolarem por escadas a baixo...
E tu cabisbaixo no ultimo degrau
a chorar e a cheirar a mofo...
Amorfo...
Triste com magoas de aguas nos olhos...
Existe uma terra do nunca que nunca alcançarás...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

In the water where a center my emotion...

Entra a Tucha, puxa o cabelo, levanta a saia, agacha-se e sai...

Saltava à corda, compassando cada salto com o pedalar do seu coração...
Saltava de olhos fechados, mergulhada num universo próprio...
O suor escorria-lhe pelas costas e as mãos apertavam a corda com toda a força que tinham, como se fosse aquele o ultimo elo que a prendesse à vida...
Pudesse o mundo lá fora ter a cadencia definida da sua corda que açoitava o ar numa velocidade ritmada e fiel, pudesse o seu cansaço afogar a dor numa dormência muscular...
Desejou saltar até morrer, concentrada no impulso consciente das suas pernas, que como gémeas siamesas de joelhos cúmplices, obedeciam a um cérebro obstinado e disciplinado.
Era um violino Stradivarius a precisar de carinho e respeito, mas tinha andado em mãos que não sabiam que a musica é uma arte e não efémera companhia enquanto se faz a barba num ritual anti-testosterona...
A corda também era lamina, fazia a barba do tempo, ceifava o espaço em fatias e confundia o mundo à sua volta numa estranha cumplicidade de dor de alma...
A corda sussurrava-lhe que a vida é um estranho ciclo que nos prende como hamsters correndo freneticamente em rodas, dentro de gaiolas, receando a obesidade mórbida da rotina...
E ela lutava com a corda, suando esperanças e sonhos que lhe lambiam os cabelos e rasteavam as costas de salmoura, gritava peitos de rebeldia e resistência entre dentes de revolta, porque não sabia deixar-se morrer, nem arrastar pelo mundo moribundo que a repugnava na ausência de densidade e tacto...
Gritava metáforas, amava hipérboles, menosprezava eufemismos e devorava sinestesias...
O ritmo de aliterações da corda era um equilíbrio vidracento de redoma redonda ridícula rominando rodízios de raiva...
Não seria a personificação estrangulada do sisal, nem o timbre fracassado da redundância...
Abriu os olhos, ousou sorrir!
Então a corda descontrolou-se e bateu-lhe na cara...

Loin des yeux, loin du coeur, ça n'existe pas...

Mais um caco caído no chão...

Tenho lágrimas nas artérias,
o caudal vermelho é um transparente estranho
e salgado,
marcado pela dor...
O amor já não mora em mim.
mudou-se para uma cidade maior,
adaptou-se a um novo estilo de vida...
E eu presa na certeza desta perda repetida...
Não consigo...
Não sou capaz, nada me faz esquecer...
No momento de me perder,
levaste-me contigo
e deixaste-me sem alma...
Rasgaste o meu sentir
e eu que nunca soube coser à maquina,
remendei-me como pude...
A vida já não me ilude com dias que se adivinham melhores,
porque conto os dias que me faltam para morrer,
na esperança que não falte muito tempo...
O alento?
Esse fugiu com uma gaja mais nova e nunca mais o vi...
Todas as noites espero por ti,
espero que me devolvas, ou me envolvas para sempre.
Todas as noites sei,
os minutos feitos quilometros que o sofrimento tem.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

How many sorrows, do you try to hide?

E o amor acontece...

E o amor acontece...
Num frenético galope de emoções a rasgar raciocínios,
como crinas esbaforidas
de feridas entreabertas
das razões maturadas durante anos...
Num dia qualquer,
em que passeamos nas ruas das rotinas,
a ver montras das vidas alheias,
ouve-se o sopro ensurdecedor,
a zunir, a chegar afogueado
e cheio de sede...
Lambe-nos dos pés à cabeça,
enche-nos de borboletas por dentro,
rouba-nos a força das pernas,
rouba-nos de nós e da-nos aos outros...
O amor,
é um lutador nato e ainda lhe sabe melhor,
quando sente, quando sabe,
que queremos impedi-lo de entrar
e nos trancamos em casa,
cheios de medo,
de baixo da cama da nossa insegurança...
O amor tem um ego enorme,
quase cego,
é tão cheio de confiança que quase se torna presunçoso...
O amor sabe que nos invade,
que nos possui...
O amor flui e nós somos rios sem saber,
a correr para mares incertos...
Em desertos onde só existiam cactos de factos
e racionalidade,
ele constrói Oásis,
numa fertilidade proliferadora,
como pragas indomáveis de gafanhotos coloridos!
O amor grita-nos aos ouvidos:
CHEGUEI!
E nós, de joelhos, rezamos:
Ouvimos senhor...
Tomai e bebei este é o meu sangue,
matai a fome com o meu corpo...

sábado, 5 de junho de 2010

To build a wall between us...

Sentença sem pertença...

Entrou,
como luz alumiando caminhos,
como fendas de esperança na escuridão...
O meu coração parou,
com medo q o som o assustasse,
mas sabia q partiria em breve,
mesmo q o silêncio o confortasse num carinho qualquer
privado de justificações,
chegaria a hora de ir embora...
Olhei-o de soslaio
porque já não tinha forças
para encarar despedidas reencarnadas,
escolhi fingir
q não o via partir...
Parte de mim morreu,
há muito tempo,
numa dessas despedidas,
enterrei-me na areia da praia das minhas fraquezas...
Hoje fujo,
porque aprendi a correr,
não me deixo apanhar,
nunca mais...
Magoei alguém,
provavelmente voltarei a magoar,
mas esta minha incapacidade
de confiar no amor
vai-me magoar
e castigar todos os dias,
todas as magoas serão vingadas
e penitenciadas...
Sou réu dos meus próprios julgamentos,
os meus sentimentos são penas sucessivas...
E eu apenas quero estar na minha sela
a cumprir o meu tempo...