quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Se fosse um instrumento seria um violino...

44ª Sinfonia tri-partida em dó menor...

Há um piano leito onde me deito
e uma flauta que agarras com a mão
e me pedes para tocar, devagar...
Cada nota um desejo,
cada clave a chave de um beijo...
Somos instrumentos de sopro ao relento,
de ritmo lento
que aquece com a respiração
e ganha forma pelos lábios...
pudessem as palavras ser pautas de Wagner
E eu compor sinfonias de Beethoven em escalas decimais...
Há um misto de loucura e tortura nesta musica...
Os tempos estão descompassados e as batutas tortas talvez...
E as áreas de ópera são quadros barrocos
onde o cristal não tem lugar...
Amo-te em violoncelos no meio das pernas
e trompetes desafiando clarinetes...
Mas tu só percebes linguagem gestual, nada mais...
Não reparas no som há tua volta,
quando subo um tom acima
e digo o teu nome...
Falaram-me de harpas mas eu só ouço tambores tribais
que provocam os violinos e lhe lambem as cordas...
E as valsas de Strauss são rumbas descaradas de ombros nus,
numa Viena infestada de odores de tangos argentinos,
em acordeões transpirados de sal e vontades lascivas...
E o teu corpo uma guitarra portuguesa que chora partituras de fado antigo,
num chão ornamentado por xailes onde me perco, agora, contigo...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

If we found each other first?

Humus...

A cabeça é um relógio de cuco cansado,
as penas estão pardas e gastas
e os chilreios amordaçados...
O tempo é um sem abrigo morto na calçada...
Agora há quem lhe atire moedas
e quem o cubra de mantas...
Agora que já não mexe...
E cresce dentro de mim este frenesim de angustia...
os minutos são lutos lentos...
E as horas lapides imortais...
Não me chorem mais que eu já não ouço...
Já não me sinto,
estou mergulhada num absinto morto,
que respiro de pulmões sôfregos...
Ao longe dobram os sinos...
E as flores gritam arrancadas ao chão,
sobre o meu caixão de magoas...
Choram pétalas e esta seiva de saliva
que os caules entornam...
As ruas são abutres cegos
a comer gravilha...
E dançam almas nuas numa escuridão de pregos...
E um buraco no chão grita o meu nome,
esculpindo-me as medidas...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dissertação sobre o nada...

A utopia tem o sabor do açúcar de cana, sorve-se devagar, em prazeres suaves, num convite a saborear cada momento intimamente...



Há um tormento prateado na saudade,
que se destaca na escuridão
e nos prende a atenção
entre divagações belas...
É uma verdade que se aprende a aceitar,
que nos decalca a agrura dos dias
numa insegura impaciência
de sermos incompletos e inacabados...
É a demência que cresce
na metade que nos falta,
há falta que temos de nós mesmos...
Porque há sempre algo nosso que amamos
e emprestamos aos outros...
Um gesto, um afecto, um esgar de sonho...
E aprendemos a viver nos outros,
mudando de casa, mudando de alma,
mudando de cama, de norte, de sorte...
E ao longe a morte que nos acena,
todos os dias mais perto...
E vagamos os dias,
procurando a solução na palma da mão,
num destino qualquer que justifique,
ou quantifique sentidos...
E choramos semi-vivos a semi-morgue
que nos guia, dia após dia...
Adormecidos num coma profundo...
Alheios do mundo...
Protelando, esperando, planeando...
De olhos presos num futuro...
Baço, escuro que não conta connosco,
nem nos conhece...
A escrevermos projectos que caem dejectos
e podres no chão,
e pobres comemos
as migalhas na mão do presente...
Porque não entendemos que amar é o suficiente...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sem limites para sonhar...

Telecinésia...

Ás vezes, nos revezes do alento,
tento abraçar-te e amar-te dentro de mim...
E juro que te sinto a respirar junto ao meu corpo
quando fecho os olhos e me entrego ao paralelismo
de quem sou...
Quando acordo, sofro...
Porque há uma força de forca,
que me estrangula o pensamento,
e uma fronteira que delimita o fim do meu sonho...
Mas entre loucura e desejo reside esta esperança infinita
de existir um limbo qualquer...
E um beijo que ama os nossos lábios condenados,
que nunca se tocaram, mas se conhecem tão bem...
Sei de cor todas as caricias que procuras nas minhas mãos
e a forma como o prazer te encontra...
Já viajei em auto-estradas do teu cheiro,
paguei portagens de saliva e orgasmos,
gritei que era tua, selvagem e nua!
Num fervor urgente selei o meu corpo no teu
com um timbre de eternidade...
Fomos selins indomáveis, de um sentimento sem rédeas..
Corpo e alma comungando carne e imortalidade,
porque o amor não obedece aos grisalhos do tempo,
tão somente prevalece e se alimenta da vontade!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

...

E morreram infelizes para sempre...

A princesa era um sonho mordido por dentro...
O poder daquele som ecoava dentro dela devorando-lhe as ilusões e mastigando-lhe os sentimentos...

Sim...

Uma palavra que mudara a percepção de toda a realidade que acreditara pisar... Uma afirmação simples que lhe mostrava o inevitável, aquele nunca fora o seu conto de fadas...
Os príncipes das historias nascem mortos sem saberem... Porque só vivem nas mentiras que adornam os vestidos das princesas... E hoje ela era uma borboleta nua, sem vestidos...

Sim...

E a seguir o silêncio das ruínas do seu amor... Aquele amor que nunca foi seu, nem nunca a quis amar, só a sorvia em golos breves e entre cortados por uma realidade gelada...
A princesa sentiu uma dor que a vestiu de vidros... Não articulou palavra, nem respirou sequer... Sabia que merecia ouvir aquela confiança a destruí-la, convicta do território que era seu, mostrando-lhe que a princesa pequenina trespassava solo alheio...
A dor, roubou-lhe a cor do vestido, arrancou-lhe as rendas, desfez-lhe os laços... A pele dela amareleceu, os olhos eram rios sem brilho, o coração esqueceu-se de bater e o sangue gelou-lhe mesquinho nas veias...
Morria sem saber o que era morte, porque nunca tinha morrido antes...
Merecia morrer assim...

Afinal os contos de fadas não merecem finais felizes.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

But if you make me mad...

Espantalho...

Sou o espantalho ridículo onde pousam os teus pardais...
O meu corpo de fitas magoadas pelo vento que sopras
já não me isola...
Tenho frio, mas os campos não me aquecem,
nem se compadecem as nuvens que me choram em cima...
Ás vezes fazes de mim um alvo fácil,
atiras-me pedras, pegas-me fogo...
Mas logo te cansas...
E vais-te embora porque sabes que eu não me movo...
E os pardais troçam de mim,
fazem-me ninhos atrás das orelhas,
usam as minhas palhas para se aquecer...
E o meu olhar fixado no caminho
que te viu desaparecer, uma vez mais...
Perguntam-me os pardais:
-Porque não cais espantalho
de coração feito em frangalho?
Porque não vais para longe daqui?
Mas os meus braços abertos teimam esperar por ti...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cause I love the way you say good morning! ;)

Um nome em todas as coisas...

O meu rosto tem muitos nomes,
porque existe uma multidão dentro de mim...
Sempre fui um cais suspenso,
de braços voltados para o mar,
a ver chegar e partir muitos náufragos...
Tenho esta estúpida vontade de curar o mundo...
De lamber as feridas dos outros
e ama-los de muitas formas...
Um dia, num dia qualquer
fui mãe de muita gente
num colo de agua salgada que os embala
e lhes cala as dores...
Amamentei os silencios todos,
beijei-lhes as mãos doidas,
comidas pelas desilusões
que hoje são cotos de vontade...
Cresci sem ter idade e morri
sem estar doente,
mas renascia no dia a seguir
para permitir ao tempo fazer um trabalho
mais tranquilo...
Hoje, não sei quem sou,
perdi-me entre tanta gente,
confundi-me nas vidas todas
e amei alem mim...
As vezes sinto-me como o chão
que sustem toda a gente,
mas ninguem olha com atenção...
Ou a agua que mata a sede mas não tem um sabor definido
e mascaramos muitas vezes com sumo de limão
e passa a ser outra coisa qualquer...
Tenho mil nomes em mim,
mil rostos,
mil dores,
mil sonhos...
E um sorriso constante que é a minha capa de chuva...

domingo, 12 de dezembro de 2010

Desire...

O amor não se faz, acontece...

Existem cheiros almiscarados nas sombras
que dançam na noite...
São timbres de sons, a meio tom,
que se entrelaçam, confundem e difundem
em ecos respirados e gemidos...
São sentidos que estendem a mão e se enrolam pelo chão
num abraço que dura para além do tempo
conquistando espaço,
entre caminhos transpirados
na rigidez que se acaricia...
A pele é uma terra macia que se palmilha pelo gosto,
no prazer que te contrai e te ilumina o rosto...
E há uma fluidez de sabores de carta gourmet
no teu corpo que eu provo sem pressa,
enquanto o coração dispara depressa
e a respiração é uma locomotiva de expectativa...
Há bandos de beijos migratórios
e línguas nómadas que exploram todos os orgasmos
das primaveras do teu corpo em fogo...
E os labios são templos obrigatorios
onde nos encontramos, selamos juras
e timbramos os sonhos com promessas,
escritas em prazer e suor,
que se repetem infinitas...
Somos peças de lego, tentando encaixar de varias maneiras,
num desejo cego de pertencerem para sempre,
de costas, de lado, de frente...
Caravelas de velas soltas pioneiras nas descobertas,
apaixonadas, revoltas em ondas acidentadas...
Somos a mesma espécie, o mesmo Ser, o mesmo sabor,
o mesmo sonho, o mesmo prazer, na mesma palavra:
Amor!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sweet dreams are made of this...

Via de sentido único...

Que sabem os outros?
Que sabem eles para emitirem pareceres esquematizados
e documentados por vidas de outros outros,
se nunca lhes rolaram na cara as lágrimas?

Estou cansada de ideias idealizadas por idiotas...
De me dizerem para tentar o intentável,
para ter coragem quando nunca fui cobarde...
Estou farta de pensar que é da próxima vez
porque as vezes anteriores não estavam destinadas...
Não estavam?
Porque não estavam?
Que sabem os outros do meu sonho, ou dos sonhos dela?
Das nossas expectativas?
Que filosofias selectivas e elitistas são essas???
Tenta mais uma vez, os que morreram antes não contam...
Não contam?
Morreram dentro de mim, eu fui a campa que os abraçou,
morreram comigo,
não morreram sozinhos, houve quem os chorasse,
quem os perfumasse de flores...
Que sabem os outros das minhas dores,
ou das dores dos outros?
Existem lapides dentro de mim
que são visitadas muitas vezes...
E são minhas, não as arranquem de mim
nem as subestimem, nem as minimizem,
nem as atropelem de asneiras...
Há tantas maneiras de morrer,
eu vivi...
(Má sorte ser assim,
resistente à puta da Morte...)

Segue em frente, dizem-me os outros,
os que são estúpidos se acham que posso voltar para trás...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

For my sorrow and pain, I'll do my crying in the rain...

Lágrimas estéreis...

Se eu pudesse pintar um mundo mais simples, onde tu e eu fossemos donas dos nossos sonhos e maestras das nossas orquestras, juro-te todas as telas virgens teriam pinceladas nossas!
Se pudesse erradicar a dor e todas as cores partidárias associadas, maquilhava as nossas faces de felicidades solidarias e humildes, que na sua pureza concretizam mais, do que mil conquistas fúteis...
Pergunto-me muitas vezes porque teimamos em tentar trazer um pouco de nós ao mundo?
Se todos os dias existem sombras nossas que se espraiam nos corredores da vida e deixam sombreados nos outros, enquanto permanecemos pálidas e tracejadas e continuamos inacabadas...
Onde se esconde o traço que queremos traçar?
Será soberba nossa desejar deixar um legado abençoado neste mundo desabitado há tanto tempo?
Neste momento choro, ao olhar a mesma lua da dor que é tua, esta noite...
Nas costas jaz o mesmo açoite que te roubou o riso e o levou para longe...
Hoje somos mais que amigas, somos aquilo que fomos e aquilo que seremos depois do agora...
Dizem que chorar faz bem,
por isso, hoje, descansa e chora...
Seca-me os olhos que eu seco os teus com os meus...
Da-me a mão neste chão de ninguém, que implora por caminhantes...
Nada será como antes, porque o antes nunca se repete...
Sim tudo melhora...
Mas apenas porque não podemos chorar todos os dias...
Adormecemos de cansaço, sem nada nos braços,
porque as nossas lágrimas já nascem vazias...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

You'll be perfect just like me...

Ecolalia...

Amo-te!
amo-te...
Amo-te!
amo-te...

Vives no eco das minhas acções
repetindo mecanicamente
os meus sentimentos
em gestos testos de argamassa...
Minha estátua humanizada de mim
que chora as minhas magoas sem as doer...
E eu a ver o espelho que me colocas
à frente num ângulo diferente
que me distorce a imagem
e torce a vontade...
Gritas se eu grito
aflito se eu sofro,
amorfo de imitação
a levares o meu coração emprestado,
no bolso roto do casaco amarrotado...
repete rePETE REPETE REPETE
As coisas que eu sinto quando minto a mim mesma...
sente senTE SENTE SENTE
As minhas dores de amores massacrados,
mastigados,
enlameados de enlaces deslaçados...
Faz tudo como eu faço...
Cada expressão, cada emoção, cada traço...
Se eu me encontrar em ti
pode ser que me apaixone por mim...

domingo, 28 de novembro de 2010

Fight!

Feridas de guerra também são medalhas...

Não existem palavras mortas, nem caricias terminadas, nem caminhos errados...
Algures entre o caos e a ordem encontrámos e arrombámos as portas certas, entre beijos sepultados num prado de esperança qualquer...



Fiz-me mulher nesta vontade
de querer sempre mais,
porque é a condição soberana
da insatisfação eterna!

Existe na nossa ânsia um toque de asas pelo divino
que os comuns homens, mortais, jamais entenderão...

Sempre usei armaduras
e espadas aladas em guerras desalinhadas
que me perseguem etapa a etapa
das quais a minha alma não escapa
impune ou imune...

Deus deu-me as armas todas, deu-me aulas de esgrima mental
deu-me uma pele que sara rapidamente e deixa cicatrizes leves e breves...


Felizes dos pobres de espírito que nunca enriquecem...

E a ti?

E aos tantos outros que olham para mim
como se eu fosse duma espécie diferente?

E aos outros tantos que me querem meter no picadeiro, fazer-me correr às voltas,
colocar-me o arreio e montar-me à inglesa?

Estou cansada de lutar,
espernear,
arrebentar arreios
mandar cavaleiros ao chão...
Estou cansada...


Talvez devesse deixar-me ir, pela corrente, de trela ao pescoço, pesos nos pés, olhar rente...

(Talvez...
Talvez...)

Se a maré dos outros me levasse,
se eu me deixasse ir,
a desistir aos poucos dos bocados loucos de mim...
Se eu me deixasse e me abandonasse,
se me esquecesse de como sabe bem voar...

(Se...
Se...)

Mas Deus não me iria armar se não fosse para lutar!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

E o sonho acontece, entre brisas e sabores de terras magicas e longiquas...

Permeabilicultura...

Existe uma permeabilidade transparente
nas aguas que lavam os sonhos,
um sussurro ausente de palavras...
Uma agilidade doce de mãos que nos fecham os olhos,
enquanto os dedos sossegam os lábios rebeldes,
ávidos de beijos quentes...
Há rituais ancestrais que se estendem nus
em florestas vestidas de árvores femininas
que se balançam e seduzem homens vento
que as desfloram e as exploram em gemidos uivados
e fecundados em terra fértil...
E as folhas são gestos que caiem em
orgasmos perfumados que rebolam no chão...
E as pedras das pegadas do tempo arrastam-se
invejam o cheiro a prazer dos meus sonhos,
o corpo de algas marinhas que se agita
numa fita aflita de esperança transpirada
e encharcada de desejo,
e encosta-me a paredes de recusas,
lambe-me indecisões e solidões intimistas...
Prova-me a carne ardendo e gemendo ordens...
Os meus cabelos de limos bravios e fugidios
entrelaçados em punhos autoritários
de medos, são crinas admoestadas
em rédeas frustradas...
As censuras são estribos
e o comodismo esporas
rasgando auroras...
E ao longo de tudo isto
uma noite de xisto que escurece
a permeabilidade das aguas,
as veste de magoas e as afoga em luto...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Fly away...

Nenufar...

E ela nasceu, assim...
No seio de um botão de rosa qualquer, com um perfume próprio e terno e nas costas duas asas decalcadas por um sonho imenso...
Abraçou o mundo com o primeiro sorriso, embriagada por esperanças de linho em mantilhas de inocência...
Nos olhos duas crisálidas de brilho esvoaçando utopias, nos lábios gargalhadas rodando saias e na alma um nenúfar de profundidade à espera de se deixar descobrir!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Love is all you need! :)))))))))))))

O amor é cego e vê, não sei porquê...

O amor é um rascunho da eternidade,
uma fenda de paraíso que nos lambe as mãos,
num gesto impreciso de afecto...
É aquela busca interminável
por uma verdade absoluta,
uma demanda resoluta
por uma causa maior!
Esta além e aquém de nós mesmos,
numa centelha que nos transforma
na utopia que não se conforma...
É a humildade descalça e simples
e a magia que nos permite beijar o céu!
O véu de sonho que nos cobre a alma
e nos descobre tal como somos!
A calma que conforta
O silencio que entende
O olhar que se importa e compreende...

domingo, 14 de novembro de 2010

...

E depois da meta?

Quebra-me o medo em passo de corrida,
levantando poeiras mortas fartas de inércia...
Há caminhos ávidos de passos e cheiros de terra molhada
que eu nunca abracei...
Os meus braços estão laços de tantas desilusões...
Mastiga o tempo por mim,
estou cansada da borracha que não consigo digerir...
Existem em mim recantos inóspitos
que nunca foram explorados, ou descobertos...
E céus de cores boreais que nunca foram
paraíso de ninguém...
Sou penínsulas de praias desertas sem bússolas,
onde só se chega pelo coração
e pelo instinto da alma...
Talvez seja destino permanecer longe das mãos de todos,
mas cheia de mãos para todos...
Há um universo de solidão cheio de luas
onde me invado e deambulo e me preencho...
Há esta incerteza de destreza natural para ser livre...
Quando a angustia me anoitece, não me mexo, deixo-me ficar
à espera que o sentido das coisas me encontre...
Andamos desencontrados há algum tempo...
Porque é sempre o tempo que nos desencontra...
Temos tanto medo da felicidade...
Se a alcançarmos o que podemos desejar depois?
Tem de haver sempre uma meta discreta na nossa existência
que desafie a consciência, a racionalidade, a mortalidade...
Sim somos felizes...
E depois?
Sim somos...
E depois?
Sim...
E depois?
...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Without my wings i feel so small...

Senhoras e senhores, meninos e meninas....

Eles não sabem...
Eles não querem saber...

Ela é um circo de riso,
com trapezistas de lágrimas
a brilharem nos olhos...
Os domadores de leões alimentam-se
de aplausos e os leões sonham savanas
e mordem as dores de açaimes invisíveis...

Eles não sabem...
Eles não querem saber...

O corpo dela foi cortado em ínfimas partes,
por um ilusionista sebento,
sedento de fama e de magia a serio...
Existem mulheres fúteis rapando barbas
de nada em belezas inúteis...
E um palhaço pobre que ambiciona ser mais...

Eles não sabem...
Eles não querem saber...

O sonho dela é um palco destruído
por avalanches de elefantes mancos,
que sobem em bancos, cheios de medo...
Onde malabaristas cortaram as mãos
e deixaram cair no chão bolas de todas as cores...
Há um apresenta(dor) vestido de gala
que chora de joelhos no meio da sala vazia...
E uma criança lança facas à mãe ante a alegria do pai
que a ensina a ter pontaria...

Eles não sabem...
Eles não querem saber...

Porque a tenda é tão colorida...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Loneliness is such a waste of time...

Quando o carvão dos olhos arde...

(O meu olhar de carvão já não pinta quadros, perdeu-se na mistura das sombras,
enquanto raspava os dedos, ao de leve, para dar expressão ao rosto...
Hoje vê ao longe as obras de arte, perguntando a si mesmo, qual a parte de si que morreu, no breu eterno de um carvão de Inverno...
)

Antes ardiam estrelas na noite dos meus olhos,
eram constelações inteiras
de ursas cheias de afecto
que floresciam primaveras num deserto austero...

(Talvez tenham sido nuvens que tenham vestido as estrelas...)

E havia uma brisa bravia que se erguia,
dia após dia, a dançar uma gargalhada!
Hoje nem brisa,
nem bravura,
nem dia,
nem riso,
nem nada...

(Agora, só a poetisa morta e velada na noite escura, que ninguém chora...)

Antes haviam janelas no meu olhar,
hoje só uma porta ferrolhada,
por onde me canso de espreitar...
Houveram pálpebras de braços
sempre à espera dos teus passos
que passaram ao largo,
num escárnio amargo...

(E este abraçar de promessa que ficou suspenso, até que o tempo se esqueça...)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cause this time you won't control..

Mensagem numa garrafa...

O ar é um fôlego fugidio,
que se estrangula devagar
na ânsia de chegar a ti...
Como se a respiração fosse codigo morse
adocicado num embriagado travo a anis,
numa vontade etilicamente inebriante
e viciante...
Travo após travo...
Gole após gole,
Inspiração após inspiração...
O meu peito esta cheio do teu cheiro e de gestos teus...
É um baú amachucado onde cabes inteiro,
cheio de arestas por limar,
onde passo os dedos e aprendo
a amar todas as falhas...
O amor não só é cego como também
tem um tacto permeável...
Nego-me tantas vezes e
renego-me outras tantas,
tentando entender recados divinos
e mensagens codificadas do destino
em tudo o que me rodeia...
Juntando peças invisíveis,
absorvendo sinais aleatórios,
numa cadeia articulada de propósitos
que só eu vejo...
E desejo ter razão no coração
que me guia,
dia após dia,
noite após noite...
Açoite... Após açoite...
E acho-me louca...
Mas luto pelo meu inaceitável luto...
E grito aos meus ouvidos,
gemidos de improviso,
num aviso de esperança...
Grito até ficar rouca...
E sem voz escrevo com os dedos
em letras garrafais até se gastarem as mãos...
E as mãos gastam-se mas a vontade
não desiste e o sonho insiste,
insiste, insiste...
Talvez um dia acordes
deste sonho-miragem...
E vejas a mensagem que segue na garrafa...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

We don't say goodbye...

Disturbios psico-motores...

A nostalgia tem o tom escuro e aveludado das amoras, uma seda de noite que se desfaz na boca e tinge os lábios... Como se a saudade tivesse o paladar dos frutos silvestres e a mesma sede daninha de crescer sem poiso certo, ou lugar pré-estabelecido...
Talvez seja como o perfume do louro que dizem venenoso, mas nos seduz a lambe-lo para nos contagiar daquele aroma quase hipnótico que se perpetua para além das folhas, numa espécie de incenso proibido...
Talvez apenas uma palavra que reúne em si todas as letras das dores do mundo, num dedilhar de ausencias em harpa, numa invulgar paleta de sentimentos ásperos em degradé constante...
Mas seja qual for a definição mais justa, ou poética, ou pratica, ou ridícula que guarde em si e para si é na nostalgia e nos recantos secretos que abriga que encontramos aquele estranho prazer de amarmos algo num alguém além-nós!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Everything will change but love remains....

A morte das bonecas de trapos...

Os vultos são tumultos sobrepostos,
em olhares que paralisam sons contemplando rostos...
Há uma neblina acentuada na tua voz
que mora no Inverno dos medos,
fugindo da aurora das caricias
em milícias de homens armados até aos dentes,
roubando a inocência em malicias infantis
de beijos roubados em lábios mais curtos
que fugiram para um canto inacessível
que a língua não alcançou num azar escasso...
Há um passo que se prende na ausência
do querer e do poder e do alcançar
e o mundo treme e chora e sofre...
Mas avança...
E a criança cresce, aprende e descobre
que as bonecas eram amigas de plastico e olhos vidrados...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Will you?

Pablo Picasso também via o mundo aos quadrados...

Sou o sopro roubado do sonho,
entre o ar que se solta e o ar que se retém...
O imaginário que contem o espolio livre das ilusões,
em transpirações perfumadas de sacrifício...
Sou o selar de ambos os lábios num toque suave,
como um beijo de desejo rarefeito em sussurro...
Um murmúrio quente que te prende a voz,
que te despe e te abraça e se enlaça
em nós num momento intimo,
breve, belo...
Sou o desfolhar leve de uma árvore,
que se casa com o Outono,
num abandono apaixonado de si mesma...
Sou uma resma de preconceitos
a ajoelhar-se nos leitos lascivos
dos amantes possessivos que se amam em segredo,
num medo mordaz e incapaz de se entregar,
sem magoar...
Sou a letra trabalhada de cada palavra
articulada, demoradamente,
no teu pensamento mais sóbrio,
numa insensatez deliciosa e orgulhosa...
Que GRITA!
Que se agita numa rebeldia infinita
de alquimia linguística que modifica
a metafisica de um mundo sempre desfasado
e desarticulado do amor maior...

Porque choram os homens sem lamberem as lágrimas,
se a dor tem um sabor deliciosamente viciante?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

I'm laughing at clouds So dark up above The sun's in my heart!

(A pedido da borboleta... Sorri!!!) "Dançando sobre as cinzas" Capitulo IV (parte 2/2)

-Frederico, desculpa lá, mas queres explicar-me o que se passa?
- Não! Mas em breve percebes sozinha!
E dito isto Frederico dá um salto numa poça enorme, numa das bermas do passeio, salpicando Isabel. Isabel encolheu-se num gesto instintivo e olhou para ele atónita… Ele tinha acabado de a molhar… Estava doido?
Olhou para as calças de ganga dela e estavam cheias de salpicos…
-Frederico, tu és atrasado mental??
Mas em vez de resposta, recebeu outro banho resultante de outro pulo de Frederico dentro da poça.
-Eheh és tenrinha, nem dás pica, vais ficar aí a reclamar ou vais defender-te?
Isabel estava atónita ante a atitude despropositada de Frederico, que raio de momento “twilight” se estava a passar, onde se tinha escondido o David Lynch?
Enquanto tentava perceber o rocambolesco daquele cenário, Frederico começou a ficar mais agressivo, saltava cada vez com mais força bem no centro da poça e desta vez conseguira salpica-la na cara! E Ria que nem um doido com as caretas enraivecidas de Isabel que, nitidamente cada vez se irritava mais, enquanto lhe pedia para parar com aquela parvoíce, num momento extremo de fúria Isabel alça a perna esquerda e aplica um pontapé na agua da poça atingindo Frederico, enquanto gritava:
PÁRA JÁ COM ISSO, VÊ LA SE GOSTAS.
Mas Frederico, que parecia completamente enlouquecido, em vez de barafustar, deliciou-se a rir e investiu sobre a poça ainda mais resoluto, saltando freneticamente com os dois pés lá dentro enquanto dizia:
-Não dás pica, fraquinha, uns salpicos de caca!
Isabel então possuiu-se, tomada por uma raiva assustadora, salta também para dentro da poça, saltando com os dois pés com toda a força que tinha, molhando e salpicando de lama Frederico que às tantas até na boca já tinha lama, acidentalmente um salpico atinge-o no olho e Frederico tentava limpar o olho desesperadamente enquanto Isabel saltava que nem uma alucinada de dentes cerrados e punhos fechados…
-Isabel espera, tenho terra dentro do olho…
Mas Isabel nem o ouvia, cada vez saltava mais e com mais força a roupa dos dois já estava uma vergonha, passado algum tempo o cansaço começou a ganhar à fúria, Frederico já há muito não saltava, apenas chorava do olho que estava muito vermelho e tentava falar com ela, tentando em vão, esquivar-se aos salpicos de lama na boca… Pouco a pouco Isabel foi acalmando, entre cansaço e falta de luta e começou a olhar para ele, todo sujo com um olho todo vermelho, subitamente bem mais pequeno do que o outro… E parou progressivamente de saltar, como se as pernas não conseguissem suspender aquela missão imediatamente e tivessem primeiro que abrandar, até pararem completamente. Frederico estava de facto uma lástima, até nos dentes tinha lama… E estava com um ar muito desconsolado com uma mão a tentar tapar os olhos e a outra no ar a tentar servir de raquete aos salpicos…
Analisou aquela imagem detalhadamente e de repente percebeu que havia um barulho de fundo familiar que vinha dela própria, ela estava a rir-se, às gargalhadas!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dance me...

:) "Dançando sobre as cinzas" em Janeiro de 2011

Espero que tenham gostado dos primeiros capítulos do meu novo romance: "Dançando sobre as cinzas", obrigada a todos os que deixaram as suas opiniões e leituras!!
Até ao fim do ano o romance estará pronto e à semelhança do "Descalça às escuras" será publicado em Janeiro!
Muito obrigada e um beijinho em todos!!!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Capitulo IV "Dançando sobre as cinzas" (parte 1/2)

Capitulo IV
Um príncipe encantado de galochas



Frederico era solto e descontraído, daqueles pedaços de mau caminho que detestam usar trela, nunca fora praticante dos compromissos a longo prazo, mas apaixonava-se perdidamente por mulheres e mais mulheres, ficava doido com o universo feminino, tudo o que o habitava era um verdadeiro fetiche seu!
Quando desligou o telefone ficou com um sorriso descarado nos lábios, sabia que provavelmente não acabaria essa noite sozinho, as mulheres carentes gostam de mimos e ele assim juntaria o útil ao agradável, fazia uma boa acção animava Isabel e acabava a noite em beleza, como ele gostava de dizer, numa agradável corrida de patos!
Isabel não era linda, nem boazona, mas aquele tom de pele dela, mexia muito com ele, tinha uma pele suave como cetim que ele adorava acariciar, só de pensar nisso já estava doido. Conheceram-se no Hospital, ele era administrativo e ela voluntária, a enfermeira que a acolheu no primeiro dia, avisou-a logo que Frederico era material contagioso, mas Isabel não se deixou intimidar, sabia que não corria o risco de se apaixonar facilmente. Mas que ele era engraçado e tinha ar de quem tinha jeito para a coisa, isso tinha! No entanto, nos primeiros dias, nem trocaram uma palavra, ele olhava-a e media-a dos pés à cabeça e dizia-lhe bom dia e ela, com ar meio descarado, respondia-lhe: - Vamos ver…
Foi num dia de Inverno, daqueles que fazem justiça à estação que tudo mudou, chovia torrencialmente, nesse dia, creio que em meados de Novembro, se não me falha a memória, morreu Sofia, com 11 anos, vitima de uma leucemia esfomeada, Isabel acompanhava o caso há apenas uma semana, mas já tinha estabelecido uma boa relação com os pais que por sinal eram adoptivos, tinham adoptado Sofia com 3 anos porque Mariana era estéril… Foi a primeira vez que Isabel lidou com aquela situação e ela achava que estava preparada, mas era óbvio que não estava, consolou Mariana e Ricardo como pode, também ela lavada em lágrimas e a sentir uma imensa injustiça a galgar terreno dentro dela. Depois deles saírem do hospital arrastou-se mecanicamente para a casa de banho e perdeu as forças em frente ao lavatório, deixando-se cair, quase sem sentir, de encontro ao chão, ficando ajoelhada a chorar agarrada à base, de joelhos metidos para dentro, a soluçar alto, sem sequer se dar conta…
Com os nervos não percebeu que tinha entrado na casa de banho dos homens, queria lá ela saber em que casa de banho tinha entrado, o mundo parecia-lhe, todo ele um lugar estranho e disfuncional…
Frederico que estava na zona dos urinóis percebeu tudo o que se tinha passado, deixou-se ficar resguardado para não a envergonhar, tentando fechar a braguilha sem fazer barulho. Mas Isabel de repente levantou-se, lavou a cara e saiu, sem se ter apercebido de nada.
Frederico achava-lhe piada e derretia-se, como caramelo, com as lágrimas de uma mulher, apetecia-lhe logo despi-las e fazê-las felizes! Tinha que remediar aquela angústia de alguma maneira, ele era perito em conseguir fazer uma mulher triste sorrir, foi até à rua e entrou na loja do chinês que ficava do lado oposto ao Hospital e comprou dois pares de galochas, umas tamanho 39 (de certo ela não calçaria mais do que isso) e outras tamanho 43, as dela rosa choque e as dele amarelas. Calçou logo as dele e pediu ao senhor, ao balcão, para meter os sapatos dele num saco e as galochas dela noutro. A seguir voltou ao hospital e procurou Isabel, a enfermeira Tânia disse-lhe, com ar desconfiado, que Isabel tinha acabado de abandonar o serviço há 2 minutos e provavelmente, já devia estar no parque de estacionamento. Frederico apressou-se a sair do Hospital pela saída de funcionários e depois de procurar pelo automóvel de Isabel um Volkswagen Golf do tempo da pedra grená, encontrou-a, estava a chorar dentro do carro, com a cabeça apoiada sobre os braços no volante, ele abriu a porta do carro dela, pelo lado do condutor, impulsivamente e assustou-a, provocando um grito estridente:
-Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh
Frederico atrapalhou-se com o sucedido e respondeu meio atabalhoado:
-Desculpa Isabel, desculpa, não te assustes sou eu…
Isabel olhava para eles com aquelas azeitonas límpidas meio incrédulas esperando uma justificação para aquela atitude estranha de Frederico, afinal que quereria ele e que fazia ele ali? De repente contrariamente a qualquer hipótese saída da sua imaginação, até numa fase mais rocambolesca, ele tira o par de galochas cor de rosas, de dentro do saco e sorri-lhe, mostrando os seus dentes belos e perfeitos, (caramba o gajo era mesmo giro, aquele sorriso era mesmo um sarilho…) E diz:
- Aceitas um desafio completamente idiota e despropositado?
Isabel, estava incrédula, aquele dia estava cada vez mais estranho… Madalena desde manhã que lhe dizia aquilo que começa mal por norma termina bem, como se tivesse prazer em martelar-lhe um enigma irritante ao ouvido e agora Frederico ali, de galochas cor de rosa na mão…
Sem se intimidar com o silêncio de Isabel, Frederico começa a mostrar-lhe as galochas que tinha nos pés, alternadamente, com um ar vitorioso, eu já estou preparado, resta saber se tenho adversária à altura! Primeiro que tudo tens de calçar estes transatlânticos cor-de-rosa e depois fazeres-te a mares nunca dantes navegados!
Isabel deixou cair o lábio inferior quase ao chão, não podia acreditar no que estava a ouvir, por certo tinha entendido mal, Frederico não estava, com certeza, a sugerir-lhe que ela calçasse as botas de borracha…
-Desculpa Frederico, não estou a perceber, o que se passa?
Frederico, olhou-a nos olhos, sem ponta de insegurança, os olhos negros de Frederico viajaram de encontro aos de Isabel transmitindo-lhe uma sensação de tranquilidade e disse:
-Confia em mim, vai ser um momento realmente ridículo mas vai valer a pena, prometo, calça as galochas.
Isabel estava cansada mas havia um pontinho de curiosidade que crescia dentro dela e a desafiava a descobrir que raio de ideia absurda era aquela, resolveu entrar no jogo, afinal uma certeza já tinha, pior do que tinha sido até ali o dia não poderia ser…
- Então temos mulher?
Aquele ar trocista de Frederico começava a enerva-la, arrancou-lhe as galochas da mão e disse:
-Sempre quero ver onde isto vai levar… Detesto cor-de-rosa.
Descalçou as sabrinas castanhas e calçou as galochas, ela calçava 37, de facto sentia-se dentro de um transatlântico!
-E agora? Perguntou secamente.
-Agora sais do carro e vens comigo temos de procurar o lugar perfeito.
A mente meio adormecida pela dor de Isabel ainda teve ousadia para divagar em terreno libidinoso… O lugar perfeito – pensou - este gajo não me quer dar uma queca de galochas, espero eu… - E quase ousou rir…
Frederico liderava o caminho, olhando para um lado e para outro em busca de algo que Isabel desconhecia, mas que pela postura dele, sabia exactamente o que era…
Isabel seguia-o intrigada, com vontade de voltar para o carro e de ir para casa tomar um banho quente.
De repente parou, virou-se para trás e disse:
-Chegamos! Preparada para o momento que vai destruir anos de maturidade?
Isabel, confusa, olhou ao seu redor, estavam numa rua paralela ao Hospital, uma zona residencial sem grande piada, um claro dormitório, despovoado pelo precoce da hora,
que ainda não tinha atingido a puberdade, da agitada hora de ponta. Sem falar, procurou um sinal que lhe indicasse o que faziam os dois naquela lugar, de botas de borracha nos pés, às 16h… Mas a busca foi infrutífera, nem um café havia, era uma rua com prédios amarelos e castanhos de um lado e outro, será que Frederico morava ali e estava a querer arrasta-la para casa dele? De galochas??? Mas que raio… Que merda de fetiche era aquele? Muito kinky…

domingo, 17 de outubro de 2010

Je creuserai la terre jusqu'apres ma mort pour couvrir ton corps d'or et de lumière...

Capitulo III "Dançando sobre as cinzas" (parte 2/2)

Ela abraçou-o, apertou-o, arranhou-o sem querer, no pescoço, por fazer força de mais, o sangue dele nas unhas dela tingiam o desespero…
-Não vás, por favor não vás… Eu morro se te perder também a ti…
-Está bem, amor, não vou… Não chores…
Lentamente, subiram as escadas, uma vizinha olhava incrédula à porta, o cenário estranho dos vizinhos do terceiro andar. Ela chorava descontroladamente, apertando a camisa dele com força, o pescoço dele cheio de sangue, o rosto dele angustiado e ela a repetir baixinho, vezes e vezes, sem conta:
-Ficas, não ficas? Ficas? Ficas, não ficas?
E ele num murmúrio, desvitalizado, respondia:
-Sim fico, sobe as escadas por favor…
A vizinha encarou-o, ele baixou o olhar, visivelmente envergonhado e a vizinha fechou a porta, devagar.
Cármen estava numa espécie de transe, a medicação começava a fazer efeito, em breve adormeceria e ele sabia que no outro dia teria de começar tudo do zero, porque a vida deles era assim, um recomeço constante…
A vida deles? Que vida era aquela?? Há muito tempo que ele não sabia o que era sentir-se vivo… Reflectiu…
Deitou-a na cama e ficou a segurar-lhe na mão até ela adormecer, a seguir foi para a sala e chorou ele…
Casaram por amor, ela era radiosa quando a conheceu, alegre, inteligente, divertida! Hoje tudo isso lhe parecia tão distante, apesar da vida deles só ter mudado há 1 ano atrás. Jamais imaginaria que uma palavra pudesse destruir a pessoa que ele conhecera e que amava ainda com as poucas forças que tinha…
Mas sim, ele amava-a, ou pelo menos não tinha coragem de a deixar de amar, sabia que era desumano não a amar depois de tudo o que se tinha passado… Que tipo de monstro a deixaria de amar? Que tipo de monstro a abandonaria? No entanto, muitas vezes, temia que um dia a resposta a essas perguntas fosse o seu próprio nome, porque ultimamente só lhe apetecia sair enquanto ela estivesse a dormir e não voltar nunca mais… Talvez ela conseguisse superar tudo, talvez ela fosse mais forte do que ele… Ela era uma sombra da mulher por quem se tinha apaixonado, já não sabia ser feliz… E ele?
Estaria condenado a amordaçar-se aquela angustia para sempre? Apetecer-lhe viver fazia dele o quê? Deveria ele estar a reagir como ela? O amor que ele tinha a Martim era menor do que o dela? E a ela, amava-a ou não?
Mas que raio de amor, era o dele afinal?
Tinham casado por amor!
Na saúde e na doença? Até que a Morte nos separe?
A Morte já os tinha começado a separar e o conceito de doença, quando juramos amor eterno e aceitamos essa parte espiritual do contrato, estamos a pensar em constipações e gripes…
Pelo menos era nisso que Gonçalo tinha pensado…

Capitulo III "Dançando sobre as cinzas" (parte 1/2)

Capítulo III
Até que a morte nos separe…

Há um estranho conforto na despedida, um formigueiro tépido que nos abraça por dentro e nos enlaça no horizonte de alguém que nos pertenceu ou faz pertencer, é como se o nosso micro-universo se expandisse, por tempo indefinido, violando apaixonadamente a bolha de outro alguém…
Mas há despedidas que nos arrastam com elas, nos rasgam a carne da alma, nos consomem e nos tornam errantes de nós próprios como se nos perdêssemos para sempre.
Foi numa dessas despedidas que Cármen teve a certeza que a sua vida nunca mais seria igual, não sabia aceitar aquele adeus, aquele fechar de porta e as paredes do seu mundo tremiam, ameaçando ruir a qualquer momento.
Em segredo desejava morrer, todos os dias, porque a dor que a comia por dentro era cada dia mais insaciável…
Haviam o Gonçalo e a Margarida, mas ela, secretamente, desejava ser egoísta o suficiente para se matar sem ter de se preocupar com eles e muitas vezes pensava que, provavelmente, estariam melhor sem ela, até porque ela quando estava com eles ou estava a chorar, ou a dormir, ou drogada a olhar num vazio imenso…
Margarida precisava de atenção mas ela nem conseguia olhar para ela, porque tinha os mesmos olhos de Martim, aqueles olhos que nunca mais veria e Gonçalo à noite nem se encostava a ela o que a incomodava por um lado e aliviava por outro, porque haviam dias que o cheiro dele lhe dava vómitos, tresandava a amor e o amor para ela tinha morrido naquela cama de hospital com Martim. Desejara tanto Martim, tanto…
Hoje tinha sido mais um dia igual aos anteriores, Gonçalo fez o almoço, levou Margarida a casa da avó para passar um fim de semana menos complicado e voltou para casa, sabia que Cármen ia estar no sofá, imóvel, alheia a ele, alheia a Margarida, alheia a tudo…
Chegou a casa. Ligou a t.v. e perguntou-lhe:
-Queres que deixe aqui, amor?
Cármen olhou para ele com o olhar completamente gelado e nem respondeu…
Ele suspirou e fez zapping ao acaso, sem se conseguir concentrar em nada, aquele silencio, aquele olhar, aquela situação, interminável, davam cabo dele…
-Podias ao menos tentar responder-me, de vez em quando, sabias?
Cármen nem se esforçou para voltar a olha-lo, sentia em si um misto de desinteresse e inércia que lhe desarticulavam as palavras antes de se formarem na boca.
Gonçalo atirou com o comando para o sofá dela e gritou:
-EU ESTOU AQUI CÁRMEN, EU TAMBÉM SINTO A FALTA DELE. A MARGARIDA TAMBÉM SENTE E A TUA FALTA TAMBÉM.
Carmen elevou os olhos e encontrou os dele, ele estava de pé e tremia dos nervos, ela queria chorar, gritar, mas em vez disso desviou novamente o olhar e permaneceu em silêncio…
Gonçalo não aguentou mais, saiu da sala, agarrou as chaves do carro em cima da sapateira no corredor e bateu com a porta da rua.
Carmen, estremeceu por dentro… Ele ia-se mesmo embora?
Levantou-se à pressa do sofá, nem dera pelas lágrimas que já a maquilhavam de sal, tinha de o abraçar…
Ele ia-se mesmo embora??? – Os pensamentos martelavam-lhe bigornas de angustia…
Correu para a porta, abriu-a começou a descer as escadas, sem se lembrar que estava de cuecas, de meias e com uma ridícula t-shirt vermelha com a frase: Sou magra porque faço todos os dias!!”, que tinha sido oferta de uma campanha qualquer de uns cereais de fibras.
Descia as escadas, freneticamente, saltando os degraus de dois em dois e derrapando com as meias e gritou:
-GONÇALO ESPERAAAA…
Já perto da porta da rua, ele parou, vermelho, desejando que ela não estivesse a correr escadas a baixo, não queria virar-se e quase podia jurar que a ouvia saltar de meias, pelo baque seco que se aproximava a grande velocidade, numa cadência compassada e acelerada. Virou-se… Lá estava ela, lavada em lágrimas, agarrada ao corrimão do ultimo lance de escadas, ofegante, desesperada, a olhar para ele, a soluçar o nome dele…
Abraçou-a e disse:
-Eu ia só comprar tabaco, amor…

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Baby can i hold you?

Capitulo II "Dançando sobre as cinzas" (parte 2/2)

Cecília virou as costas à sua filha com um misto de raiva e de culpa, tudo era mais difícil por causa dela, esta frase mordia-a por dentro, sabia que Isabel não tinha culpa, no entanto…
Cecília era uma mulher muito bonita, ainda que a vida, entre dentadas cruéis, lhe tivesse roubado parte dessa beleza, sempre quis ser actriz desde pequenina e toda a gente lhe dizia que possuía a postura, o talento e o carisma para o conseguir. Mas a vida escolheu-lhe um papel diferente, o amor foi o vilão que roubou os sonhos à bela protagonista…
Hoje sabia, que se nunca se tivesse apaixonado, teria tido uma vida muito mais fácil, por isso Cecília menosprezava o coração e muitas vezes usava os homens como quem usa toalhetes de cozinha, arrancava-os num repelão à vida que conheciam, usava-os e deitava-os fora sem olhar para trás. Jamais deixaria que Isabel passasse pelo mesmo que ela, ia ensina-la a ser implacável e intocável e isso só se consegue com rigidez, pensava ela… Um dia também Cecília olhou o mundo com os mesmos olhos amendoados e sonhadores, um dia também ela teve sonhos inconcretizáveis, um dia também ela foi sensível, inocente e com este mundo cor de rosa só conheceu espinhos e a vinda de Isabel… Isabel era no entanto, por muito estranho que pudesse parecer a sua verdadeira razão de viver e o motivo pelo qual se sacrificava tanto, amava-a muito apesar de não o saber demonstrar, nem gostar de o admitir… Depois de lhe ter batido caminhou em passo corrido, não podia olhar para trás, ela tinha de se tornar forte, mas ouvia-a soluçar baixinho…
Parou…
Sentia o ar a fugir-lhe com a névoa do remorso que a pouco a encobria, teria batido com demasiada força?
Porque estava ela assim toda suja, porque não compreendia o quanto lhe saiu do suor do corpo cada milímetro de tecido daquele vestido?
Porque não entendia ela, que Cecília tinha trabalhado 12 horas seguidas e só tinha comido uma sandes de manteiga ao almoço porque Raul, em vez de encher o frigorifico, ultimamente só tresandava a álcool, este também tinha que ser despachado, mas Isabel sempre a dizer que gostava dele, sempre a complicar-lhe a vida com aquele ar carente e meigo…
-Gosto do Raul mamã, o Raul é meu amigo…
Enquanto, os pensamentos a atropelavam como ondas indecisas a musica de fundo do choro ténue de Isabel…
Respirou fundo e olhou para trás, lá estava ela, sentada no chão, toda suja, lavada em lágrimas, chorando baixinho, os joelhos encolhidos para dentro, as mãos na terra acariciando o chão em busca de aconchego, a imagem de Isabel venceu-lhe a resistência e ela gritou:
-Levanta-te do chão Isabel, anda cá já e dá-me a mão, não te bato mais.
Isabel, olhou para ela, levantou-se cambaleante, limpou o ranho com as costas da mão e avançou para ela a correr, aquele trajecto de metros pareceu-lhe imenso… Chegou perto dela e abraçou-se às pernas de Cecília enquanto soluçava:
-O Raul matou as formigas todas mamã… Ele matou as formigas…
Cecília não percebeu a razão de tanto alarmismo, que importância tinham as formigas? Sacudiu-lhe a terra das mãos, as unhas estavam negras e os dedos encardidos e esfolados,
deu-lhe a mão e disse:
-Não chores, amanha já nascem mais, as formigas são assim morrem mas nascem logo outra vez!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Capitulo II "Dançando sobre as cinzas" (parte 1/2)

Capítulo II
Gosto do sabor da tua pele…

-Foge Isabel… Foge, minha querida…
E ela fugiu, correu com todas as forças que tinha, enquanto tentava entender o que se tinha passado, Raul, sempre fora seu amigo, mas os olhos dele estavam estranhos… De todos os namorados da mãe, Raul, sempre foi o seu preferido, brincava muito com ela, fazia-a rir muito, enchia-a de cócegas e de beijinhos, constantemente…
-Deste gosto muito mamã, não mandes este embora…
Mas a mãe, com o desinteresse que lhe era característico, respondia-lhe com frieza:
- O Raul não é teu pai, não gosta de ti, não quer saber de ti, um dia vai embora como os outros e é assim mesmo que tem de ser. Não tens pai, é assim mesmo, nunca será diferente.
Enquanto corria desalmadamente, aquela voz doce voltou a soar nos seus ouvidos, não sabia de onde vinha, mas sabia que devia seguir as instruções à risca, Raul assustou-a e a voz avisara-a para fugir, desde o principio…
-Estas a salvo Isabel, calma, respira fundo… Podes parar de correr, estas a salvo…
E Isabel parou, deixou-se cair no chão, exausta de joelhos… As lágrimas começaram a lavar-lhe o rosto rosado e transpirado…
Raul também estava transpirado, cheirava a suor enquanto a agarrou em cima da cama, por causa dela todas as formigas estavam mortas… Quando ele se meteu em cima dela deve ter esmagado todas e Isabel chorou por ter morto as suas amigas… Ainda sentia o cheiro dele nos braços…
-Gosto do sabor da tua pele…
dizia-lhe ele enquanto lhe lambia a perna, do joelho para cima, ao principio, Isabel rira-se muito, aquilo fazia-lhe cócegas e ainda estava meio tonta de tanto rodopiar, ele tinha-a ido apanhar do chão…
-Vais sujar o teu lindo vestido, a tua mãe zanga-se contigo Isabel, uma menina tão bonita não deve andar deitada no chão…
Deitara-a na cama, onde ele e a mãe dormiam à noite, em cima dos lençóis desarrumados e encardidos… Fizera-lhe festas no rosto, cheirou-lhe os cabelos e as sobrancelhas e encostou-a a ele… Ficou assim alguns minutos de olhos fechados e Isabel começou-se a rir,
-Estas a dormir Raul?
Então ele olhou-a nos olhos e começou a lamber-lhe a perna, joelho acima…
A voz que ouvira lá fora, quando caiu no chão, voltou a segredar-lhe:
-Foge Isabel, esconde-te debaixo da cama, ele vai fazer-te mal…
E Isabel, pela primeira vez sentiu-se nervosa e desconfortável, olhou Raul nos olhos e sentiu medo, começou a tentar empurra-lo e a pedir para ele parar…
Lembrou-se, de repente, das formigas e percebeu que ele as devia estar a esmagar e começou a gritar:
-Pára Raul, vais mata-las, vais mata-las, sai de cima de mim, vais mata-las….
Raul então parou… Todo ele tremia, lutava contra o desejo de amar Isabel, possuir toda aquela doçura, sim, ele amava-a, o amor às vezes é uma doença tenebrosa e sombria…
Os olhos de Raul marejaram-se de lágrimas e disse:
-Desaparece daqui Isabel.
E a voz, voltou a dizer:
-Faz o que ele diz, corre, foge daí Isabel, foge minha querida.
E Isabel, saltou da cama e desatou a correr… Raul ficara de joelhos em cima da cama agarrando os lençóis com força, chorando como uma criança.
E ela correu, atravessou a porta do quarto e chorava, assustada, sem saber bem porquê,
os olhos de Raul estavam diferentes, mas diferentes como? Porque chorava? Tantas perguntas, tanto medo e aquela voz dentro da cabeça dela que lhe gritava:
-Corre Isabel, corre, sai de casa…
E ela correu, porta fora, chorando, soluçando, sem saber bem porquê, de repente a visão da mãe a subir a rua, com o seu ar cansado, saco das compras numa mão e a mala castanha desbotada do uso, no ombro oposto…
-Mamã… (soluçou de lágrimas nos olhos rasgados pelo medo, medo do quê? Não sabia…)
A visão da mãe, aquele abraço faria tudo ficar melhor, correu direita ao abraço que precisava, ao colo onde pertencia, ao cheiro do conforto materno… A mãe viu-a a correr, o cansaço de um dia de trabalho a suar-lhe no corpo e agora vinha Isabel a correr toda suja, com o vestido que ela lhe tinha comprado com tanto sacrifício, porque não tinha cuidado com nada, porque não dava valor ao esforço q ela fazia todos os dias para a vestir, calçar e não deixar que a fome lhe tocasse?
Porque lhe tornava a vida tão difícil, porque olhava para ela com aqueles olhos amendoados tão cheios de sonhos inconcretizáveis? Encheu-se de uma raiva inflamada pelo cansaço, olhou-a com desprezo e rancor, tudo era mais difícil por causa dela, quando Isabel a alcançou, preparada para lhe saltar para o colo, recebeu-a com um valente estalo na cara… Isabel recebeu aquela chicotada no rosto e na alma, recuou três passos com o impacto da dor, confusa e deixou-se cair para trás, paralisada, pela espiral de sentimentos, balbuciou apenas:
-Mamã…

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

I need some distraction...

"Dançando sobre as cinzas" Capitulo I (2/2) Principio, meio e fim (cont.)

Quando morria uma criança Isabel chegava a casa, despia-se completamente, fechava a luz do quarto e deitava-se debaixo da cama, sobre o tapete encolhida, em posição fetal, gostava de sentir que a colcha da cama formava paredes sólidas e impenetráveis que a protegiam do mundo lá fora, como uma tenda ao seu redor, ficava ali horas, a chorar até adormecer… Sabia que Madalena se sentava no chão encostada à cama a ouvi-la soluçar, às vezes Madalena cantava para a acalmar, outras apenas lhe dizia aquilo que ela tão bem sabia, que fora melhor assim…
Madalena sabia, que todas as noites, Isabel rezava a Deus para dar paz aquelas crianças, mas Deus não era propriamente célere ou pontual, o seu relógio não é igual ao nosso, tem ponteiros mais lentos e sem duvida mais pesados…
Os anjos também morriam, Isabel sabia isso muito bem, na verdade os anjos morriam um pouco todos os dias. Ser anjo era uma maldição terrível, Isabel descobrira o peso terrível que era carregar aquelas asas nas costas, quando fizera 7 anos, nesse dia alguém lhe chamou, meu doce e frágil anjinho e ela percebeu que ser anjo era um defeito e não uma virtude, por isso foi castigada tantas vezes, as asas de facto eram um fardo pesado de mais…
Madalena avisou-a, não deixes Isabel, não deixes… Mas ela não pode impedir, ele continuava a chamar-lhe de anjinho doce, enquanto a apertava nos braços e lhe dizia, fecha os olhos meu amor, já passa, os anjos nasceram para isto… Nesse momento Isabel fechou os olhos e imaginou que alguém a vestia de anjo, a voz de Madalena continuava a tentar fazê-la resistir, fugir, lutar, mas ela sabia que não valia a pena, os anjos nasceram para isto…
Tinha chegado a altura de envergar as asas da vergonha e da culpa, aquela era afinal a sua máscara de Carnaval, imaginou-se a desfilar lá fora entre serpentinas…
O seu corpo tinha crescido, imaginou-se adulta, no meio de toda aquela gente mascarada e assustadora…
A ligadura de gesso moldou-lhe a cara, copiou-lhe os traços, as linhas, os segredos e os caminhos...
A alma padeceu e fez-se esconderijo, entre a brancura estática, tornou-se uma estátua expressiva, como os santos em altares de talha dourada...
Fizeram-lhe umas asas, arrancaram as penas a patos e gansos mortos, como se as aves mortas voassem...
Vestiram-na de branco, mas a túnica trazia nódoas invisíveis que ela sentia e que a faziam sentir imunda e exposta...
Quem lhe dera a nudez, quem lhe dera o olhar de reprovação dos outros salpicado de inveja e desejo...
Quem lhe dera que o gesso mascarado de máscara de anjo, não se tivesse agarrado à sua cara e à sua alma para sempre....
No fim do terror, daquele corso improvisado, ele diz-lhe apenas uma frase, vai-te lavar estás suja e a tua mãe não gosta de te ver assim… Isabel levantou-se da sua cama e foi-se lavar, ardia por dentro e enquanto a agua a lavava percebeu que os anjos eram muito infelizes e que devia ter ouvido Madalena quando ela lhe disse, foge para baixo da cama, para ele não te ver, ele esta bêbado…
Agora, debaixo da cama, ela chorava a morte de Martim, um anjo doce que também tinha conhecido a crueldade de envergar asas, desde aquele dia tinha aprendido a procurar aquele refugio, só conseguia chorar ali, só se sentia segura ali, os monstros não se escondem debaixo da cama, não gostam de dormir no chão…
Ás vezes a cobardia e a fuga são as nossas maiores aliadas, nem sempre fugir é a pior solução, muitas vezes é a única solução que nos pode proteger de ficarmos perdidos e magoados para sempre, quando estava triste Isabel sentia em si o cheiro nauseabundo daquele dia, do momento em que descobriu que a fuga, é muitas vezes a única forma de mantermos nossa felicidade…
Enquanto soluçava, o tempo voava, nem teve consciência se esteve ali, minutos ou horas, acabou por adormecer como acontecia sempre. O sono de exaustão foi interrompido pelo som estridente do telefone, primeiro como se estivesse muito longe e as campainhas mais não fossem que peças decorativas de um pesadelo onde habitavam barulhos estranhos em fugas de chão movediço, Por fim, mais perto, as campainhas tornavam-se um som cada vez mais familiar e gritavam na sua mente uma única palavra: Acorda! Meio confusa e ainda embriagada do sono e do cansaço Isabel abriu os olhos, o seu corpo estava gelado, o seu telefone não parava de tocar, ainda hesitou uns momentos entre deixar tocar, sem dar importância, ou atender a chamada, acabou por ganhar coragem, arrastou-se para fora do seu esconderijo secreto e seguro e alcançou o telemóvel que estava na mesa de cabeceira, era Frederico…
-Onde estas borracho?
-Em casa…
-Então daqui a uma hora passo aí, vamos sair, não adianta dizeres que não, sei que te esta a fazer falta!
Às vezes recebemos a solução dos nossos problemas no colo, sem esperarmos acende-se a nossa luz ao fundo do túnel. Naquele momento Frederico era tudo o que Isabel precisava, o abraço meigo, a gargalhada roubada, talvez até mesmo a noite partilhada…
Sentou-se no chão durante escassos minutos, analisando se, de facto, lhe apetecia ter companhia, as pernas gelavam-lhe contra o chão frio, abertas em formato de relógio marcando as 4h35m. A maquilhagem descia em degradé negro e esborratado sob os olhos até às bochechas rosadas, respirou fundo, fechou os olhos e teve a certeza, precisava mesmo daquela fuga, precisava de um bom banho e de uma dose reforçada de Frederico Maia!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os primeiros capitulos do Romance "Dançando sobre as Cinzas" para os seguidores deste blog! :)

Dançando sobre as cinzas


Capitulo I
Principio, meio e fim…

Todos nós, de quando em vez, falamos sozinhos, como se fosse uma maneira de apelarmos à nossa sábia voz da consciência. É uma maneira estranha de conforto que procuramos dentro de nós, talvez a busca inconsciente pelo nosso anjo da guarda, ou pelos nossos guias espirituais, talvez seja apenas uma ferramenta que auxilia a nossa concentração, talvez seja o nosso narcisismo que nos leva a gostar de ouvir o timbre familiar da nossa própria voz…
Isabel tinha levado esse hábito um pouco mais além, ela tinha Madalena, a sua melhor amiga, a sua única amiga. Era impossível para Isabel decidir fosse o que fosse, sem consultar a sabedoria de Madalena, sempre foi a rede do seu trapézio e Isabel sempre teve muito medo de cair, ainda assim caíra tantas vezes…
Isabel não era uma mulher bonita, contudo tinha o seu brilho muito próprio, os seus doces 22 anos traziam-lhe o encanto de quem descobre a vida pelo tacto e pelo cheiro. A sua pele tinha o ornamento da canela como impressão suave mas vincada, nunca conhecera o pai, apenas as dezenas de novos padrastos descartáveis arranjados pela mãe, que sempre tentou o melhor que pode, dar-lhe um lar estável.
No meio de tanto esforço, a mãe de Isabel esqueceu-se apenas de uma coisa, de lhe dar amor, daqueles pequenos gestos que fazem toda a diferença. A canção de embalar que ficou por cantar…
A historia de bruxas e fadas que nunca foi contada, na magia da media luz, entre representações de personagens entoadas com vozes diferentes e interpretadas com caretas e sorrisos…
O beijo no dedo entalado, no joelho esfolado, ou apenas a mão dada à noite quando tinha medo da roupa pendurada no arame que se transformava em monstros furiosos e famintos que nem a ténue luz do candeeiro de mesa de cabeceira em esfera laranja, conseguia afugentar.
Tinha apenas 4 anos quando Madalena falou com ela pela primeira vez, estava sentada no chão de cimento, em frente à porta de casa, observava um carreiro de formigas, era capaz de passar horas a olhar para as formigas, aquele bulício interminável fascinava-a, eram tão pequenas, mas tão poderosas, tão decididas e organizadas, às vezes Isabel pegava numa para avalia-la mais de perto, para senti-la a correr desesperada pelo universo da sua mão, gostava de apreciar o seu esforço e a sua coragem e nunca as esmagava, mesmo quando a mordiam o que a deixava muito triste e sem compreender porque se zangavam com ela, às vezes, as amigas formigas. Nesse dia tinha espalhado algumas formigas pelo comprimento do seu vestido azul de fitas, era o seu vestido preferido, sempre que a mãe lhe vestia o seu vestido de fitas, sentia-se bonita e especial com aqueles dois grandes laços de fita a decorarem-lhe os inocentes ombros nus. Enquanto as formigas corriam pelo seu vestido, Isabel ria porque percebia que elas não sabiam muito bem como descer do vestido e voltar ao seu caminho, levantou-se do chão de cimento e ria-se às gargalhadas, enquanto rodopiava com o vestido azul salpicado de formigas… Rodopiou, até ficar tonta e cair no chão de cimento, novamente, a sua cabeça andava à volta e tinha dificuldade em focar, queria ver se as formigas estavam a salvo ou se tinha caído em cima de alguma, mas não conseguia ver bem, estava tão tonta… Fechou os olhos, abriu os braços e ficou no chão durante segundos, de repente ouviu uma voz feminina dentro da sua cabeça, uma voz adulta e doce, como uma melodia tranquila, a voz disse-lhe levanta-te e foge Isabel… Mas ela estava tonta e não conseguia levantar-se, muito menos fugir, mas a voz repetia-lhe, levanta-te e foge Isabel… Hoje, aos 22 anos, Isabel ainda se lembrava da primeira vez que ouviu a voz de Madalena, a primeira vez que sentiu que era protegida e amada por alguém, desde que Madalena estivesse por perto ela sabia que tudo corria bem, o papões e os monstros ficariam à distância, sem a poderem magoar, sem lhe poderem tocar, Madalena era imponente e forte e não deixava que ninguém magoasse Isabel, desde que Isabel estivesse disposta a ouvi-la com atenção e a seguir rigorosamente todas as suas indicações.
Madalena era sábia e pragmática, Isabel era doce e a sua inocência tornavam a visão crua que Madalena tinha da vida um pouco menos tenebrosa e enfeitada de borboletas e papoilas…
O dia correra-lhe mal, morrera mais uma criança hoje, os pais estavam desfeitos, oscilavam entre o desconsolo e o alívio. Martim sofria de cancro e tinha apenas 4 anos, não saia do Hospital há 9 meses, vivera um sofrimento desnecessário que cada dia se tornou maior, sem ter maturidade para entender porque não podia ser saudável como a sua irmã Margarida.
Cada vez que era picado, gritava a arranhava a mãe que nem tentava evitar, os pequenos arranhões que Martim lhe fazia em nada se poderiam comparar às dores que ele estava a sentir, ficava apática como se a dor lhe tivesse roubado a alma…
Isabel era voluntária na unidade pediátrica de oncologia, já visitava Martim e os pais há 3 meses, finalmente aquela criança tinha parado de sofrer, os pais podiam agora chorar e voltar a dar atenção a Margarida que passara para segundo plano durante todo este tempo e também não entendia, nos seus doce 7 anos, porque tinha o seu irmão de ir para o céu…

(parte 1/2)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

...

Avant-morte...

Há um dueto vago de sombras que descem dos meus olhos, às vezes...
Caminham em passos lânguidos nos passeios do meu sofrimento e entoam versos que mais não são do que desesperos em listas de compras, onde faço cruzes que me recordam as dores que já suportei para não ter de as repetir...
Há dias em que todos os sentidos se perdem e todos os caminhos parecem rudimentares e pouco iluminados, nesses dias fecho os olhos e penso que quando os abrir talvez as luzes me acompanhem, mas as luzes são pirilampos rebeldes que só alumiam quando lhes apetece e nos abandonam num breu angustiante que nem as mãos à frente confortam...

Hoje o dia escureceu, entre nuvens, desilusões e intenso breu, num imenso negrume, entre ausências e betume de um cimento cinzento que se chama ciume...

E os meus olhos são viúvas de véus negros com caras lavadas de pranto, espelhando uma dor que não passa porque se habituou à tristeza e já nem sabe viver sem ela...
Falta-me o ar todas as noites e eu prefiro assim porque algum dia, se faltar de vez a dor também se cala e eu ganho a batalha por desistência... Quem me dera ter 80 anos e ver a vida a escapar-me entre os dedos e não recear mais nada porque já tinha vivido mais do que supunha, mas os anos não são ambiciosos o suficiente para caminharem mais depressa e cada martelar do minuto rasga-me a alma por dentro...

Um dia quando morrer hei-de saber porque motivo o destino foi tão esquivo comigo...


sábado, 9 de outubro de 2010

Predestinação...

O horizonte bafejou-a com um hálito quente, terno e doce... Como se o futuro fosse um mel atrevido e suave que a invadisse por dentro...
Lambeu-se, passando a língua nos lábios, provou-se devagar num prazer prolongado, demorado, perpetuado por segundos saboreados em câmara lenta...
Fechou os olhos num orgasmo de ambições...
Podia sentir cada espasmo da sua vontade a encher-se de esperança!
Mordeu ligeiramente o lábio inferior, quase sem dar conta, como se um acetinado gosto a sangue tornasse o cenário num paladar perfeito...
Riu-se atirando a cabeça para trás, deixando descobrir a linha alva e perfeita de um pescoço que gosta de ser caminho...
O amanha amava-a impetuosamente,possuindo-a sem demoras ou hesitações.
A profecia da felicidade pertencia-lhe e tornava-a pertença de novos dias em que o cheiro dela se misturava em caricias de momentos imaginados e concretizados em futuros merecidos e revividos na sua imaginação vezes sem conta...
Era feliz apenas porque sabia sê-lo!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

E o mar se faz mais calmo por nós dois...

A branca de neve era uma sonsa...

Os dias passam, fugindo entre os dedos,
como areia fina...
Tudo faz um estranho e cruel sentido...
Apesar do coração continuar a olhar
iludido
para paredes negras...
Às vezes o coração é cego,
às vezes o coração é ego...
às vezes o coração é lego
teimando encaixar onde sabe que não cabe...
Tenho saudades de acreditar em contos de fadas!
Mas as fadas sempre foram umas falsas
e umas fúteis...
E os contos eufemismos inúteis...
E eu nunca adormeci com historias de encantar...
Uma palavra tua tornaria o céu uma escalada perfeita...
Mas o céu está sempre longe de mais...
E eu estou cansada de olhar para cima
à espera de uma nuvem dispersa
que me leve depressa a sonhos
que te esqueceste de sonhar...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

You must know me, I'm one of your secrets...

Innuendo...

Já não tenho segredos, nem parábolas,
nem historias...
A minha vida é um livro de folhas espalhadas,
onde as memorias voam soltas
numa liberdade desmedida...
Nunca fui de guardar recordações,
mas vesti as emoções todas
em cada dia da minha vida...
Amei, fui amada,
magoei, fui magoada
talvez tenha odiado um dia ou outro,
mas ri alto noutros tantos!
Se morresse amanhã não lamentaria nada,
porque sempre dei tudo
sem esperar muito em troca
e assim, não tenho agiotas
à minha porta...
Olhei sempre nos olhos das pedras do meu caminho
e algumas carreguei no colo tempo demais,
acho que até me esquecia que as levava
e elas deixavam de me pesar...
Nunca sofri de mais,
ou de menos,
mas sofri...
E aprendi que o sofrimento
ajuda a crescer...
Chorei muitas vezes
mas podia ter chorado muitas mais,
por isso tive sorte!
A morte não me assusta,
porque vivi!
E só tem medo de morrer
quem nunca ousou viver...

domingo, 26 de setembro de 2010

ASD SX Um novo principio...

Não sei despedir-me...
Há sempre uma parte de mim que fica...
Nas vicissitudes do tempo há sempre portas que se abrem, mas as que ficam atrás de mim
nunca se fecham...
Eu tenho a sorte de poder dizer que nunca perdi ninguém, porque quem mora dentro de mim viaja sempre comigo!
Desta vez faltam-me as palavras e nem consigo dizer mais do que um abraço transmita...
Vou sentir a falta dos nossos risos, mas será essa falta que me alimentará...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Hans Zimmer...

A História...

Havia um tempo sem tempo, além tempo, onde os corpos além corpos se pertenciam...
Nesse lugar, antes de existirem todos os lugares do mundo, eles criaram o amor pela urgência de se unirem para sempre...
Passaram-se anos, além dos nossos, rotas milenares, ou constelações de tempos paralelos, nasceram os planetas e os satélites e as luas e eles continuavam a contemplar-se no infinito, esculpindo e inventando a saudade em corpos celestes que se tocavam, ao de leve, de quando em vez, mas se bebiam em rastos sôfregos...
E assim, sem querer, inventaram o desejo e essa sede que o alimenta...
Ele espalhava, ao relento do espaço, fragmentos de si próprio para a poder alcançar, desfazendo-se em gotas de sonho e Ela, bebia-lhe todas as partículas para o renascer dentro de si...
O universo, que é uno, compadeceu-se do seu sofrimento e prometeu-lhes que uma vez, em cada ciclo quaternário poderiam pertencer um ao outro...
Amar-se-iam dentro dos limites físicos da mortalidade, para poderem abraçar-se em cada nova aurora do começo do tempo e para ensinarem à vida que o amor é a única fonte eterna do renascimento...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Heart...

Castelo de água...

Ela desenhava rostos no sombreado das gotas da chuva, cada gota guardava os lábios que tinham ficado por beijar, os traços não tocados, desencontrados dos seus...
A chuva escorria dela em nascente temperada, entre dor, amor e um nada que não se define...
Naufragavam escunas nos seus sonhos de portos distantes que perderam a bússola em hálitos de sal...
Os olhos eram faróis que iluminavam caminhos perdidos de aguas escuras, num anormal iluminismo de esperança...
Ao longe, erguido o castelo erigido por povos apaixonados que ainda assim precisavam de torres para protegerem almas frágeis...
E haviam pontes elevadiças que oscilavam nas batidas mortiças de um peito desfeito.
E haviam bandeiras que eram ligaduras que abraçavam feridas sangradas de desilusões e fraquezas incompreensíveis...
Na pedra da sua intemporalidade gravado o nome do seu nome que era a pertença de todo o teu ser e a maldição do seu sentir...
E a erosão que se vergava ao império de um sonho perfeito feito para ser lenda que teimava em ser apenas desejo desmembrado pelo medo...
E ela desenhava os rostos alheia às intempéries que em serie descompassadas e implacáveis de acontecimentos a tornavam cascata em agonia...
Um dia talvez os rostos tomassem forma e se soltassem do seu castelo de água...

domingo, 19 de setembro de 2010

2000 visitas Obrigada!!!!!!!!!!! :)))))))))))))

Olá a todos os seguidores e visitantes!!! Libris Scripta Est que completou um ano de existência recentemente, atingiu já mais de 2000 visitas!!! :))))))))))
Muito obrigada a todos pela atenção, carinho e curiosidade pelos meus devaneios literários!
Um beijinho e um abraço apertadinho em todos!
Inês Dunas

I've been alone all along...

Claustro Fobia.

Prisão de sonho envolto em pó dourado,
onde me abraças esperançado...
Claustro do meu rasto solto,
envolto em betão cego e morto,
cimento que sopras no meu pulmão,
enquanto me acenas de gaiola na mão...
Os comedores estão cheios?
Admiras orgulhoso os poleiros
que me construíste...
Quando decidiste ser meu dono?
As asas das minhas guias foram cortadas
por dentadas...
Entro...
Os braços medem o espaço que os confinam,
os pulmões definham num ar a conta-gotas...
E eu não grito porque não posso...
As ampulhetas viraram-me as costas,
Os passos confinados no chão,
a mão tacteando limites impostos,
rostos que me analisam a toda a hora...
Clausura insegura de olhos perscrutantes,
que me condena em pena, à pena,
nas penas que me despiram..
Não me roubes o ar...
Morta de que te valho?
Sobrevivo melhor longe,
meus pulmões são velas soltas,
ou velas acesas...
Temo e corro...
E morro na areia do tempo...
Deixo-me ir para um purgatório metafórico...
Dizes e pensas que me amas...
Mas matas-me às migalhas...
Há um escrutínio cruel nos teus dedos de pincel...
Que só me tocam para ler mensagens subliminares,
para ver se eu gemo ou temo alto o suficiente...
Queres marcar-me a carne com um ferro em brasa?
Etiquetar-me?
Por-me uma corrente à volta da alma?
Vendas-me os olhos
mas eu mesmo
cega vejo o mundo la fora...
Agora está na hora de abrir a gaiola...
Encerro a minha porta à tua lupa,
fecho-me em casa...
Desculpa...
Mudei-me e não deixei contacto,
num acto irreflectido e protegido...
Odeio caixas fechadas e mulheres amordaçadas...
Quanto mais me apertaste,
mais escorri entre os dedos...
Não tenho segredos,
nem símbolos secretos...
Por baixo da minha pele, só carne e sangue...
O espaço da prisão que detens na tua mão,
esta preenchido por ti...
És o maior grilhão da tua perna,
essa angustia eterna é a tua tumba...
Desculpa, apaga a lupa, apaga a luz,
apaga a dor...
O amor não se vê...
Sente-se...
Aqui a única gaiola sempre foi tua...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Meta(fisica)...

Fim...
Vestígio vertiginoso,
calam-se os gumes,
choram navalhas...
Há sempre um velho que se encontra nas rugas do nosso rosto...
Um, dois, três
desejos por despir...
Mortalhas de sonhos
jazigos mordazes,
ferozes,
abrigos de covardes...
Há sempre um sonho que se perde nas muralhas do nosso conforto...
Cabrummmmm...
Relâmpagos trémulos
debaixo da cama
com medo do amor...
Os trovões ralham
num silencio absurdo, surdo.
Lá fora a esperança dança...
Nua, provocante,
envolvente, sufocante,
crua...
Tua...
E os corpos fogem no chão
numa procura ausente
de serem sombras...
Há sobras de emoções
em toalhas velhas de piqueniques...
E nós depenicamos-nos
com medo de nos devorarmos
em ilusões e paixões
eternas...
Os homens temem e teimam aquilo que desconhecem...
Pim pam pum
as pernas são metralhas
de metralhadoras castradas...
Já não correm,
morrem aos pés dos pés...
E tu em vez de as chorares
tentas planta-las outra vez
no fundo da tua alma
para crescerem junto a ti...
E eu balanço-me de ancas inacabadas
à espera da quimera do nosso motivo
esquivo de ser...
A morte da meta desperta o principio!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sad eyes never lie...

Geo(grafia)mecano(grafica)...

Há um espartilho no teu olhar,
que me aperta e me cinta a cintura...
E eu dedilho as ilhoses onde passa o fio
e se enlaça o laço que embeleza a minha gaiola...
Sinto as tuas mãos a medirem-me
e a esculpirem-me a respiração...
E um beijo frio que me tarda
e me arde na tarde que não chega...
E medes-me em polegadas pardas,
criando cartas geográficas,
numa topografia demográfica
de saber os habitantes per capita
que habitaram o meu coração
e lavraram o meu corpo,
tantas vezes morto pela precipitação...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Estrelas vão se apagar...

Jardins e baloiços...

Sim, eu sei...
Que a perfeição nunca se encontrou contigo, porque chegaste sempre atrasado, ou não apontaste o local do encontro, ou apontaste e perdeste o papel, ou não perdeste mas deixaste no bolso das calças que meteste para lavar...
Mas são as tuas imperfeições que marcam aquela diferença que te faz humano como eu! Nunca persegui príncipes encantados, porque a realeza nunca me seduziu...
Sempre preferi amar pessoas, aquelas que se riem às gargalhadas e perdem a compostura tantas vezes, que se esqueceram de crescer, que choram nos funerais porque amaram e querem la saber se está tudo a olhar...
(Pois que olhem e aprendam que o amor tem de se deixar escoar, se não explode-nos por dentro e se quer sair dos olhos que assim seja...)
Pessoas que têm medo, mas não têm vergonha de o admitir, porque abraçam a sua fragilidade e assumem a sua fraqueza...
Os heróis nunca foram os invencíveis, a meu ver sempre foram os que sabiam que podiam ser vencidos, mas tiveram a ousadia de tentar ainda assim... Aqueles que ainda olham as estrelas à noite e almejam dias melhores na eternidade da noite que os veste...
Todos os dias começo de novo, porque acordo e nunca soube hibernar...
E nesse recomeço, encontro sempre algo novo que me liga a ti, porque me apaixono pela vida todos os dias, mesmo nos dias maus...
Não escolhi este caminho, porque sempre me senti em campo aberto, as hipóteses sempre foram todas e as escolhas é que me escolheram, no entanto, no imenso jardim da vida, onde corro em ziguezague, porque nunca soube correr a direito, tenho a certeza que a relva do destino, soube guiar o trilho dos meus pés e no meu acaso, nada é por acaso!
E se baloiço algumas vezes nas duvidas, não é por indecisão mas porque sempre gostei de andar de baloiço...

Libris Scripta Est já tem um ano!!!!!!!!!




Muito obrigada a todos pela atenção e paciência!!!
Beijinhos :D

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

I will find you darling I'll bring you home!

Imortal(idade)...

Não há tempo, não há lugar,
não há espaço...
Os limites fizeram as malas e partiram
para um planeta distante chamado saudade!
E nós chamamos-nos imortalidade
porque rompemos a fronteira da morte...
Não...
Não há barreira, ou meta, ou troféu, ou corrida,
a vida não nos ganha em tempo,
porque o tempo nunca importou,
pertencemos a uma eternidade perpetuada
em sonhos e amor!
E os sentimentos não vêm em varetas graduadas,
nem são dedutiveis no IRS, taxados a 6%...
Por dentro somos invencíveis,
porque somos o mesmo átomo
e o indivisível, não se parte ao meio!
O tempo que se arrependa,
o espaço que se envergonhe,
o lugar que se modifique,
porque nós não temos idade,
somos a imortalidade perpetuada
e o nada que nos une é o tudo que rende o mundo!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Para a borboleta! :)

Fly away Butterfly!

Num dia qualquer,
num abrigo arbitrário e solitário do tempo,
em que procurava o meu caminho,
que corria desalmado sozinho,
para qualquer parte incerta,
cruzei-me contigo...
Trazias o mapa da tua vida numa mão,
a bússola do teu sentir na outra mão, aberta,
e esse ar de quem sabe tão bem o que quer...
Também estavas perdida,
mas tinhas a passada apressada e decidida!
Na mochila pesada que trazias às costas,
havia uma garrafa de água cheia de sede de respostas,
uma redoma vazia onde te fechavas às vezes,
umas asas de liberdade dobradas ao meio,
e o fundo estava cheio de sonhos amachucados...
Sonhados com tanta sensibilidade que pareciam tesouros...
Trazias as algibeiras da maldade vazias
e um cantil de gargalhadas de felicidade
de onde me deixaste beber,
apesar de muitas vezes a sede ser tua!
Caminhamos lado a lado,
ante as fases da lua do nosso percurso...
Contamos estrelas e as constelações que nos cabiam
foram só nossas!
Partilhamos o curso do rio dos nossos sonhos,
desbravamos versos e sentires imensos,
desenhamos traços no céu,
em abraços nossos!
E nesse caminho de carinho,
eu encontrei-me um pouco mais e tu,
sem saberes para onde vais,
ainda assim,perto de mim,
aprendeste a caminhar um pouco mais devagar!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Turn a different corner and we never would have met... Would you care?

Acabar o príncipio...

Nada...
Abismo frio vazio,
eufemismo de um abandono...
Retorno em vai e vem
que nunca fica...
Adorno de prateleira ou de ego...
Ovo cego, anembrionado...
Fecundação imatura e insegura
na concepção...
Corpo liberto fechado atrasado...
Canto que cobre a voz,
essência sem nós...
Efervescência...
Espírito pobre de espírito...
Acabar o principio...

Principio?
Acabar?
O espírito é pobre...
Pobre efervescência...
E nós??????
Essência...
Voz num canto, ao canto...
Cobre o teu corpo atrasado...
Fechado?
Não... Liberto!!!
Concepção cega...
Fecundação embrião,
maturado, segurado...
Ovo galado!
Ego?
Prateleira?
Adorno?
Ficaaaaaaaaaaaa!!!!
(Nunca vem...)
Vai!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Retorno?
(Abandono...)
Eu...
Fé...
(Mi)mismo...
Vazio....
Frio...
Abismo...
Nada.

domingo, 29 de agosto de 2010

You cut me open...

Par(tu)( ri )(ente)...

Rasuro o tempo,
tento rasga-lo,
parti-lo ao meio,
descobri-lo de dentro para fora,
num parto provocado em cesariana de descoberta...
E a ferida aberta do tempo sangra...
São minutos paridos em contracções lentas,
minutos doridos,
filhos de horas violentas
que respiram o ar pela primeira vez...
Embalo-os um a um,
são todos parecidos comigo...
Há vozes que ecoam ao longe
que lhes querem pegar...
São memorias velhas na menopausa
com saudades da fecundidade,
a quererem sentir a maternidade
de novos dias junto aos seios secos e murchos...
E os minutos choram,
escancaram a goela,
porque elas têm pelos no buço
e os picam quando os beijam
e cheiram a naftalina que tresandam...
E as memorias revoltadas
quase os mandam de cabeça para o chão
num impulso frustrado e despeitado...
Mas seguram-se e pousam-nos no berço,
com olhar de desdém dizem:
Têm o feitio bravio da mãe!
E eu adormeço-os um a um,
lembro o momento em que semeei cada um deles...
E sei que nenhum filho sai rebelde por mero acaso!