sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A herança de Shakespeare...

A boca sabia-lhe a chumbo,
aquele gosto metálico que têm as ostras…
Encolheu a cabeça, como se desejasse ter uma carapaça,
mas a cabeça não recolheu…
Ficou ali,
tentando passar despercebida pela vida,
fazendo balanços, balancetes, inventários mentais…
Tentou encontrar o inicio de tudo,
como quem acha a ponta do novelo...
Em vez disso,
sentiu-se mergulhada num prato de massa esparguete…
(A ponta nunca era aquela que ela queria encontrar…)
A vida mudava demasiado depressa
e ela, pela primeira vez,
não tinha pressa nenhuma…
Queria viver as emoções uma, a uma,
mas o botão de pausa não existia…
Tantas coisas ficaram por viver, por dizer, por saber…
Depois fica apenas o gosto do chumbo, como quem lambeu correntes...
O rosto marcado por máscaras diferentes que nos protegem,
ou apenas escondem da dor, ou do amor,
ou de ambas as coisas q tantas vezes se confundem…
Queria apenas perceber como tinha chegado até ali,
aquele preciso momento,
queria apenas entender o objectivo…
Se havia motivo?
Se passara por tudo em vão?
(Ser ou não ser, eis a questão…)
Nenhum adjectivo servia aquele pronome,
que fora o nome esquivo do seu sofrer,
ou razão estranha de viver…
Estava à espera de perceber…
Queria, precisava, mas não conseguia descortinar…
Se ainda o amava,
mas já não o sabia amar…

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