terça-feira, 6 de outubro de 2009

Dentes brancos cravados no tronco....

O tronco da figueira era irregular,
cada nó, de madeira centenária,
servira de açaime a todos os castigados q a tinham abraçado, sem forças...
Escorregando por ela como invertebrados cansados,
entoando uma ária de ópera mórbida qualquer,
entre graves, agudos e urros de animal...
Nunca perguntaram à árvore se assentia em ser carrasco passivo,
serviam-se do seu corpo como quem se serve de uma mulher e nem lhe pergunta o nome...
A árvore assistia, dia após dia, chorando folhas e sentindo a dor dos condenados...
Cruzavam as mãos deles, por trás dela,
em corda de sisal,
deixando-lhes as costas descobertas para receberem as feridas abertas...
Os corpos eram da cor da noite, mas vestiam-se de magma,
como vulcão em erupção, enquanto o chicote dançava...
As lágrimas regavam-lhe as raízes como aguaceiros infelizes...
Alguns caiam de joelhos, como padres velhos a rezar, sem acreditar em nada....
Outros,aguentavam de pé,
eram crentes...
Acreditavam num Deus q os fizeram de côr diferente...
Recebiam o castigo, sem odiar,
sentindo o sangue a escorrer pelas costas abaixo até às pernas arqueadas,
fazendo força nos dedos dos pés e rangendo os dentes,
mais brancos que os dos senhores,
q eram os donos dos escravos...
Esses tinham fé e não costumavam morrer abraçados à árvore,
que tremia com eles,
q sofria e chorava com eles,
q pedia com eles,
dia após dia,
noite após noite,
que terminasse o açoite...
Que se cansasse o braço branco do chicote q odiava a cor da noite...

Sem comentários: