quarta-feira, 20 de junho de 2018

Maré cheia...

A imperfeição é a minha maior arma,
o Karma que resolvo e me envolvo em acção.
Não sei odiar, nunca aprendi o contrário do amor,
a dor ensinou-me a agradecer as outras coisas...
Não acho que a felicidade dos outros seja o antagonismo da nossa,
isso é cinismo e preguiça!
Há uma força que existe dentro de mim
e me ensina que a sina não é um abismo!
Sou assim, anormal, imperfeita e mortal...
Matéria feita de sonhos e de carne,
feliz por natureza e por defeito!
Uma séria candidata à incerteza como caminho,
cheia de opções e de mutilações cicatrizadas!
Às vezes os membros fantasmas ainda doem
porque os vivi intensamente e a morte é sempre dura...
Um dia não encontrarei uma cura
ou alguém que me faça feliz,
um dia não encontrarei a metade da minha alma,
um dia...
Eu sou feliz agora, um dia posso não cá estar para me encontrar...
E se ás vezes choro é porque adoro o mar
e ás vezes sabe-me bem trazê-lo assim, dentro de mim!

domingo, 10 de junho de 2018

Banco de jardim

Deambulo entre o inicio e o fim de mim,
um caminho tortuoso e orgulhoso que me descobre
e encobre o que o passado passou, sem ter apagado...
Quero a paz que se faz cá dentro,
o Amor sem cobrador, ou dor alguma,
a tranquilidade da verdade sem máscaras.
Cansei-me de correr atrás da reciprocidade,
prefiro descansar o peito e dar tréguas à alma...
A idade não me assusta, nem me acalma
e o leito ainda não me chama para a Morte...
Tenho sorte e sou feliz quase todos os dias!


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Coração de borboleta (meu novo conto infantil)

Era uma vez uma pequena lagarta castanha chamada Lola que se sentia borboleta.
Lola vivia num lindo prado encantado rodeada de várias lagartas castanhas como ela, os dias no prado passavam tranquilos e doces e à exceção de Lola todos no prado eram felizes por serem simplesmente aquilo que eram, mas ela passava os dias odiando a sua condição e observando as maravilhosas mariposas coloridas que desfilavam deslumbramento entre o perfume inebriante das flores. Lola não tinha inveja de ninguém, nem se sentia superior às suas irmãs, no entanto sentia-se muito estranha e infeliz no seu corpo de lagarta.
Ninguém compreendia o sentimento que a torturava, todos lhe diziam que se ela nasceu lagarta devia sentir-se orgulhosa daquilo que era, aprender a gozar a sua vida, divertir-se a rebolar nas folhas como as suas semelhantes e tomar grandes e revigorantes banhos de sol nos troncos das árvores que se confundiam com ela e a protegiam dos animais perigosos.
As lagartas, suas irmãs, gozavam com ela, chamavam-lhe maluca e esquisita, não compreendiam como alguém podia sentir-se insatisfeito no corpo com que tinha nascido. Consideravam Lola uma ingrata por detestar tanto ser uma lagarta como elas.
Lola, porém, não lhes desejava mal nenhum, até sentia pena de não poder ser feliz como elas que passavam horas a brincar enquanto faziam cocegas na barriga umas das outras e se riam às gargalhadas, ou quando via o prazer com que comiam as frescas folhas verdes. Todos os dias se esforçava para encontrar na vida de lagarta o mesmo prazer que as outras lagartas, mas não conseguia e isso deixava-a cada vez mais triste e sozinha. Lola sentia que no prado inteiro ninguém a compreendia, nem mesmo as borboletas que a fascinavam, porque mesmo essas desdenhavam dos seus desejos e desprezavam Lola, chamando-lhe invejosa.
Sempre que Lola passava por elas, cabisbaixa e infeliz as suas irmãs gritavam:
-Olha, olha lá vai a lagarta com a mania das grandezas!
-Coitada, acha-se melhor do que nós e tem vergonha daquilo que é!
-A infeliz é mesmo ridícula! Então lagartinha deprimida já te nasceram asas? Então lagarta chorona já ganhaste outras cores?
Lola umas vezes nem respondia, outras só dizia:
-Eu não tenho culpa de sentir que nasci no corpo errado… Não vos quero mal, só quero ser aquilo que o meu coração diz que sou. Eu sei que nasci para voar!
As outras lagartas riam-se a bom rir!
-Olha esta presunçosa! -Dizia uma!
-Nasceste para voar? Então voa daqui para fora! - Dizia outra
-Se não te consideras lagarta não devias viver no meio de nós! -Acrescentava uma terceira
-Enches-nos de vergonha só pela tua presença, devias ir-te embora de uma vez! -Finalizava outra
Os dias passavam muito devagar para Lola, cada vez mais isolada e presa na sua condição, não tinha um único amigo, alguém que mesmo sem compreender a frustração e angústia dela ao menos a respeitasse e a aceitasse como era.
Sentia-se humilhada e julgada por todos e por mais que procurasse respostas dentro de si a única certeza que tinha é que aquele corpo não era o corpo que a fazia feliz.
O coração da pobre lagartinha estava cheio de dor, a vida era uma tortura constante, cada vez saía menos do buraquinho onde se habituara a esconder.
Começou a evitar os dias de sol para não ver o reflexo do seu corpo nos ribeiros e não almejar o voo dançante das borboletas que tanto admirava. Começou a evitar os dias de chuva por não conseguir participar na alegria das suas irmãs que tomavam longos banhos de imersão nas folhas mais concavas.
Sentia-se uma borboleta sem asas obrigada a rastejar pelo mundo sem nunca poder abraçar a sua verdadeira condição de ser alado.
Se desaparecesse do prado talvez a sua vida se tornasse mais fácil, mas nem tinha coragem para tentar ir para longe, achava que em parte nenhuma do mundo alguém a poderia entender ou estender-lhe a mão.
Um dia encheu-se de coragem e resolveu partir, saiu do seu buraquinho, desceu o tronco castanho da sua árvore e lançou-se no caminho da sua felicidade, tinha de tentar ser borboleta, não conseguia mais sentir-se assim desajustada e incompleta, algures existiria alguém que a pudesse ajudar a encontrar uma maneira de se sentir bem e feliz!
As suas irmãs quando a viram partir ficaram tristes, apesar de estarem sempre a contestar os seus desejos, gostavam de Lola e no fundo sentiam-se um bocadinho traídas por ela não se sentir feliz no meio delas…
As borboletas pousaram todas nas flores para a ver partir, seria esquisito não voltar a ter o seu olhar deliciado de admiração cada vez que passavam por ela. Aquela pequena lagarta maluquinha que queria tanto ser como elas, começava a deixar saudades e ainda agora a viam partir.
O caminho novo que se apresentava aos seus pés era desconhecido e assustador, mas cada passo que ousava dar a fazia sentir mais segura de que tinha de encontrar uma nova vida que fizesse sentido no seu coração. A noite aproximava-se e com ela o medo de um mundo cheio de dúvidas e incertezas, a pequena Lola estava cansada de tanto andar e o escuro que tingia o céu fê-la ter saudades do buraquinho seguro no seu tronco de árvore. Lola tremia de receio e de frio devia ter trazido o seu cachecol que comprara na feira dos bichos da seda, a noite era fria e sombria e a lagartinha estava só e desprotegida.
De repente aparece uma coruja branca, a coruja olhou para a Lola e lambeu o bico, estava com fome e Lola era um opimo aperitivo enquanto não aparecia nada maior. A coruja atira-se em voo, faz apontaria ao pequeno corpo de Lola e com a patas: “Trás-pás!” apanha a pobrezinha em pleno voo.
O primeiro instinto de Lola foi de gritar de terror:
-Ahhhhhhhhhhhh!!!!!!!
Mas, subitamente, Lola sente-se a voar, pela primeira vez, voava, se tivesse que morrer por causa disso então que fosse! Enquanto a Coruja a elevava no ar os olhinhos verdes de Lola brilhavam de alegria, sentia-se a rasgar os céus, a brisa no rosto, o fresco das nuvens na noite estrelada, a liberdade de sentir-se leve pela primeira vez e sem se aperceber exclamou de alegria:
-Oh! Que maravilha finalmente o céu!
Estupefacta a Coruja não queria acreditar no que ouvia, a Lagarta estava contente?
-Olha lá lagarta desmiolada! Eu sou uma coruja! Tu sabes que as corujas comem lagartas, certo?
Lola, até corou de vergonha, ia morrer e ainda assim só dizia parvoíces, mas respondeu à coruja:
-Sim, eu sei, provavelmente vais comer-me, mas eu sou uma borboleta presa no corpo de uma lagarta e o momento em que me permitiste voar contigo, foi o momento mais feliz da minha vida, até agora!
A coruja estava cada vez mais confusa e pousou com a lagarta num ramo para perceber melhor o que se estava a passar ali, naquele momento peculiar e insólito,
-Uma borboleta presa no corpo de uma lagarta? Como assim, eras uma borboleta e uma lagarta comeu-te? És uma borboleta que perdeu as asas? O que raio és tu, afinal?
Lola nada tinha a perder e resolveu esclarecer, como podia, a coruja,
-Eu nasci com corpo de lagarta, mas alma de borboleta, toda a minha vida senti que estava deslocada no mundo, que a natureza me tinha pregado uma partida e me tinha dado um corpo que não me pertencia. Sei que nasci para voar, mas nasci sem asas, sei que nasci para colorir a primavera, mas sou da cor do tronco das arvores, sei que nasci para beijar as flores, mas em vez disso vejo-me obrigada a comer-lhes os caules e as folhas.
A coruja não queria acreditar no que estava a ouvir, nunca tinha conhecido ninguém tão angustiado e corajoso ao mesmo tempo, devia ser muito difícil sentir tudo aquilo. Era coruja e como todas as corujas era sábia e perspicaz, não podia comer a pobre e atormentada lagarta, na verdade a história dela já a tinha comovido e agora era impossível torna-la numa mera refeição fugaz.
A coruja pensou e por fim suspirou:
-Deves sofrer bastante por te sentires assim, como se não pertencesses completamente a nenhum desses teus dois mundos…
-Sim. -Disse Lola enquanto baixava o olhar marejado de lágrimas – É difícil…
Porém uma estranha e intensa esperança tomava agora conta do seu pequeno coração, pela primeira vez sentia que alguém a tinha compreendido um bocadinho, acabara de sentir a compaixão e empatia da coruja branca. O animal que a podia ter devorado sem pestanejar foi o único que, até então, a ouviu sem julgar e se compadeceu do seu sofrimento.
-E que fazes aqui pequena lagarta? A noite é perigosa para animais pequenos e desprotegidos. Olha que da próxima vez podes não ter tanta sorte e receberes apenas uma boleia pelos céus!
A pequena lagarta sorriu ante a observação da coruja,
-Eu sei que tive muita sorte por te ter encontrado a ti, és boa e simpática linda coruja branca, mas tive de abandonar o prado que me servia de lar, não era feliz entre as lagartas e era desprezada pelas borboletas, senti que tive de encontrar um novo caminho, talvez nesta minha aventura possa encontrar uma forma de me tornar por fora aquilo que sinto por dentro.
A coruja admirou o empenho e perseverança de Lola, era admirável que alguém lutasse tanto pelos seus sonhos, já há muito tempo que nada, nem ninguém a conseguiam surpreender tanto e resolveu ajuda-la na sua demanda.
-Espero que encontres o teu caminho e em breve ganhes as asas que te pertencem por amor e direito, mas és pequena e estás cansada e o solo não é lugar seguro para uma pequena lagarta. Vem chega-te a mim, no meu tronco, esta noite dormirás abrigada no calor das minhas penas, a tua vida não correrá qualquer perigo e assim, amanhã estarás mais forte para continuares a perseguir o teu destino.
Lola chorou de alegria, a coruja tinha-lhe permitido voar pela primeira vez, tinha-lhe poupado a vida, ouvido, respeitado e agora ainda se prontificava a protege-la durante a noite. Pela primeira vez Lola sentia o calor da amizade que se reconhece imediatamente pelo coração, a coruja branca salvou-a de muitas maneiras com o seu amável e louvável gesto e acabava de lhe dar forças para não desistir de procurar a sua felicidade.
Nessa noite aquecida e protegida pelas alvas penas da sua nova amiga Lola dormiu tranquilamente e sonhou que voavam de asas dadas.
No dia seguinte, revigorada, despediu-se da coruja branca com o maior abraço que o seu pequeno tamanho permitia,
-Obrigada querida coruja branca pela tua compreensão e amizade, nunca me esquecerei de ti, da tua bondade, nem do meu primeiro voo!
-Tem cuidado lagartinha-borboleta. Evita os predadores esfomeados e tenta arranjar um abrigo seguro todas as noites, quando realizares o teu sonho vem visitar-me e voaremos juntas.
A crença que a coruja depositava na possibilidade de a lagarta alcançar o seu objetivo encheu-a de alegria. Lola partiu, mas era uma nova Lola, cheia de alento e de sorriso estampado no rosto.
O dia acordava cheio de sol, o perfume das flores decorava e espalhava magia no ar ainda decorado com pequenas gotas de orvalho. Lola depenicava uma folha pequena e tenra e bebericava pequenas gotas de agua, contemplava a natureza a acordar, o espreguiçar dos gafanhotos, o voo buliçoso das abelhas, o marchar incessante das formigas madrugadoras e questionava-se se algum animal estaria aprisionado no corpo errado, como ela. Depois de um bom pequeno almoço retomou o seu caminho.
Lola andou sem descansar, num passo constante, mas não demasiado acelerado para não perder o ritmo, nem o folego, o sol já ia alto e a vegetação tornava-se tão densa que Lola não sabia que trilho seguir. Resolveu então subir a uma arvore para estudar, lá do alto, melhor as possibilidades do seu destemido itinerário. O tronco do velho Carvalho era rugoso e forte e cheio de nós sarapintados de musco verde e fofo. Quando o seu pequeno corpo cilíndrico serpenteava pelo tronco do velho Carvalho, soou uma sonora gargalhada:
-AH! AH! AH! AH!
E uma voz rouca e portentosa continuou:
-Quem se passeia pelos meus nós de madeira?
Lola empalideceu com aquela voz que parecia um trovão perdido no tempo, encaracolou-se toda e ficou a tremer, sem emitir qualquer resposta. Mas o velho Carvalho continuou:
-Quem anda aí? Quem és tu que me arrepias com tantas cocegas? Eu gosto muito de cocegas!
Lola retomou a respiração, a voz vinha da arvore que estava a subir, nunca tinha ouvido falar de arvores malvadas por isso não devia correr perigo. Recuperou a sua cor, refez-se do susto e respondeu:
-Olá, eu chamo-me Lola e sou uma borboleta presa em corpo de lagarta!
-Olá Lola! Sê bem-vinda! Ah! Pois uma borboleta presa em corpo de lagarta, isso é difícil sim, já vi isso acontecer outras vezes…
Lola ficou estupefacta,
-Tu, tu… Conheces outras como eu?
-Claro que conheço, já aqui estou há muito tempo, já vi muita coisa!
O coração de Lola começou a palpitar de excitação, afinal aquilo que ela sentia não era assim tão anormal, nem singular e subitamente apercebeu-se que o velho Carvalho podia ter as respostas que precisava.
-E onde estão as outras borboletas presas em corpo de lagarta, como eu? Podes dizer-me? Preciso de as encontrar!
O velho Carvalho pensou, pensou, coçou a sua copa com um ramo, voltou a pensar e respondeu:
-Sabes minha querida, a última que vi já partiu há muito tempo, vocês têm uma vida mais breve do que nós, nós somos edificados para durar muitos Invernos.
-Mas para onde foi ela? Conseguiu ser borboleta? Vinha de onde?
-Bem… De onde vinha ou para onde foi não sei… Mas sim, conseguiu, não foi fácil, teve de sofrer uma grande e profunda mudança, um pouco dolorosa até, demorou bastante tempo, em tempo de lagarta, mas tornou-se numa linda borboleta!
-Oh! A serio? Oh! Isso é tão maravilhoso!!! E como se deu essa grande e profunda mudança?
-Como te disse foi um pouco doloroso, ela teve que despir o seu corpo de lagarta, teve de o ver morrer, para renascer como borboleta. Sofreu uma metamorfose, as metamorfoses são processos complicados.
-Uma metamorfose? Nunca ouvi falar em tal coisa… E isso faz-se onde?
-Esse é o problema a metamorfose tem de se fazer dentro de ti, de dentro para fora. Tens de a aceitar no teu coração, mas se a quiseres verdadeiramente surge a mudança que precisas para te poderes transformar.
-Uau! A metamorfose! E posso começar já?
-Não sei, só poderás mudar quando estiveres realmente preparada e o mundo também tem que se preparar para te aceitar como és, a mudança começa em nós, mas estende-se aos outros. Temos todos que estar receptivos para a aceitar.
-E quando saberei que eu estou preparada? E se os outros nunca me aceitarem? Quando saberei que é o momento certo?
-Primeiro tens de percorrer o teu caminho, sem pressas, tens de te descobrir devagarinho, aceitares a mudança, ninguém muda assim da noite para o dia e todas as mudanças são um pouco assustadoras. Quando ganhares autoconfiança e segurança na tua decisão, a pouco e pouco o corpo entende o que precisa de ultrapassar, inicia-se o processo. Depois os outros acabarão por entender, uns mais depressa, outros com mais resistência, mas terão de te ver como realmente és, porque agora só conseguem ver aquilo que pareces. Mas não vai ser fácil, tens de ter consciência que existirão muitas dificuldades até ganhares as tuas asas.
-Aquilo que sinto agora também é muito difícil sábio Carvalho, toda a minha vida senti a dor de não me reconhecer no que vejo ao espelho das aguas límpidas do rio. A mudança pode ser difícil e dolorosa, essa metamorfose de que falas, mas sentir aquilo que eu sinto é uma agonia que mata devagarinho e me rouba a alegria de pertencer onde sei que pertenço.
-Compreendo o que dizes e acho que no teu coração o processo já começou. Confia em ti e tudo será possível, a força de um coração determinado é mais resistente que o tronco secular de um velho e resistente Carvalho!
Lola tinha agora um novo objetivo alcançar a sua metamorfose, não sabia muito bem em que consistia, nem como se desenrolava o processo, mas sabia algo que desconhecia até então, ainda que eventualmente dolorosa, havia uma solução para o seu problema e isso já era um grande progresso na sua demanda.
Do alto do velho Carvalho Lola tinha uma visão mais ampla do melhor trilho a percorrer, era magnifico poder ver o mundo de cima, sentir a brisa que agitava cada folha dos ramos daquela arvore. Agora o futuro parecia-lhe mais nítido, já não percorria um caminho errante, vagueando ao acaso sem um destino concreto. Lola agora sabia que havia uma razão para ter abandonado o buraquinho seguro do seu tronco, ela perseguia a sua mudança, ela tinha direito a ser aquilo que sempre soube que era.
O velho Carvalho sentiu uma leve inveja boa do olhar jovem e cheio de sonhos da lagarta-borboleta, como eram sonhadores doces os jovens, a descobrirem o mundo a seus pés e como às vezes era implacável o mundo a recebe-los.
Lola despediu-se do velho Carvalho prometendo visita-lo novamente quando fosse borboleta e agradeceu-lhe do fundo do coração por tudo aquilo que o sábio amigo lhe ensinou. Precisava de retomar o seu caminho de forma a abraçar o seu destino e tinha de avançar o mais possível durante o dia porque, tal como prometera à coruja, à noite tinha de se abrigar.
O dia tombava depressa e as aves principiavam a recolher-se em bando nas árvores, Lola resolveu procurar um cantinho aconchegante onde pudesse mergulhar no mundo de Orfeu, olhou à sua volta e procurou criteriosamente o melhor lugar para descansar, descobriu por fim um pequeno buraco num tronco oco e partido, arrastou o seu pequeno corpo cansado para dentro do buraco, o buraco era estreito à primeira vista, mas lá dentro alargava, alargava e tornava-se numa grande câmara escavada na madeira. Era muito escuro, mas parecia confortável e seguro. Tateando o chão, com cuidado, Lola explorava curiosa a sua dormida quando, sem nada que o fizesse prever, Lola sente-se presa, assustada Lola começa a debater-se, mas em vez de se soltar, parecia que surgiam fios de todos os lados que a envolviam numa armadilha mortal e claustrofóbica. Completamente aterrada Lola gritava com todas as forças:
-Socorrooooo, socorrooooo!!! Alguém que me ajude!!! Estou presa!!!
E no meio da penumbra ouve-se apenas:
-Xiu!
Lola ficou meio atordoada com uma resposta tão seca à sua aflição tão acentuada e pensou que o “Xiu” que tinha ouvido fosse fruto da sua imaginação e voltou a gritar:
-Socorroooooo, socorroooo!!! Preciso de ajuda!!! Estou a morrer apertada!!!
E novamente, ecoa na camara de madeira:
-Xiu! Borboleta barulhenta.
Lola ficou estupefacta, a voz no escuro tinha-lhe chamado borboleta…. Será, será…. Será que ela já se tinha transformado? Até se esqueceu, por momentos, da aflição que vivia, presa e apertada no meio da escuridão.
-Quem falou? – Perguntou Lola.
-Eu já sou uma borboleta? Consegues ver-me? Eu já mudei? – Continuou ela.
-Olha e já agora, estou presa, podes ajudar-me? -Arriscou ainda
Eis que, entre o negrume cerrado, começa a surgir uma ténue luz que se aproximava rapidamente, na verdade a rapidez com que a luz se deslocava era tão grande que Lola ficou na dúvida se seria uma luz ou várias. Subitamente a luz que parecia correr enlouquecida estava a cegar-lhe os olhos.
-Aiii! Estás a cegar-me!! -Gritou Lola
-Xiu! -Ouviu-se novamente
Mas então os olhos de Lola começaram a habituar-se à intensidade da luz, começaram a cooperar e aos poucos Lola começou a ver quem falava com ela, era uma aranha amarela e com ar de poucos amigos.
-Olá, sou a Lola… - Disse - Desculpa ter entrado na tua casa, não sabia que moravas aqui, só me queria abrigar da noite.
-Vocês borboletas estão sempre à procura de sarilhos, não estão? – Respondeu a aranha.
-Tu chamaste-me borboleta, outra vez! Por favor, diz-me de que cor são as minhas asas? E já sou completamente borboleta ou ainda sou meio lagarta?
A aranha amarela ficou abismada com a conversa de Lola.
-Olha lá tu, perdeste o juízo? Que conversa é a tua? Sei lá de que cor são as tuas asas, eu sou uma aranha cega. E como assim, meio lagarta?
-Tu és cega? -Exclamou Lola abismada.
-Sim, sou cega mas ao menos não entro pela casa dos outros sem pedir licença, tropeço em tudo e fico enrolada como um casulo de bicho da seda.
-Tens razão aranha amarela, peço desculpa por toda esta confusão. Mas se és cega porque é que me chamaste borboleta?
-Porque eu tenho a capacidade de ver além dos olhos e senti aquilo que és, és uma borboleta, certo?
-Sim, sou, sou uma borboleta! Mas não sei se já deixei o meu corpo de lagarta, podias soltar-me por favor para poder ver se o meu corpo já está diferente?
-Tu não me pareces muito boa da cabeça… Não sei se é boa ideia soltar-te… Não estás a fazer muito sentido.
Lola então resolveu explicar tudo à aranha amarela, como tinha chegado ali, o encontro com a coruja e com o velho Carvalho, a sua busca por aquilo que era e o seu desejo de se sentir completa e feliz. A aranha ouviu-a em silêncio, ser cega tornava-a uma excelente ouvinte, no fim soltou Lola. Lola quando se viu livre da teia da aranha percebeu que ainda estava presa no corpo de lagarta e começou a chorar, o seu coração tinha-se enchido de esperança e agora via que nada tinha mudado. A aranha amarela entendeu como era premente a sua necessidade de ser borboleta, não é fácil sermos diferentes aos olhos do mundo, mas sermos diferentes aos nossos próprios olhos devia ser ainda mais complicado. Deixou-a desabafar toda a angustia e frustração daquele momento e no fim disse-lhe apenas:
-Eu não sei como é o teu corpo, mas sei o que os meus sentidos apurados me dizem e eu garanto-te que tu és uma borboleta. Aquilo que os olhos veem nem sempre é a verdade, o que é realmente importante vê-se com o coração e absorve-se com a alma. Estás desculpada por teres entrado na minha casa e és bem-vinda a passar esta noite.
Lola sentiu-se confortada com as palavras da aranha amarela, agradeceu a hospitalidade da nova amiga e descansou numa cama de rede feita de teia, na camara escura de madeira iluminada pela ténue luz que emanava da sua minúscula lanterna de pó de pirilampo, era estranho como uma aranha cega conseguia ver o mundo e os outros com tanta clareza. Uma coisa era certa, estava a mudar de certeza porque a aranha sentiu que ela era uma borboleta, antes mesmo de Lola lhe contar a sua história e isso só podia ser um bom sinal!
O dia amanheceu da cor dos sonhos azul e esperançoso, Lola despediu-se da aranha amarela com um grande e vigoroso abraço e retomou o seu caminho. Aproveitou para fazer uma perspetiva da sua aventura e percebeu que desde que tinha partido tudo começou a correr melhor, fez 3 novos amigos, com os quais se sentiu apoiada e compreendida, descobriu que havia uma solução para a sua condição e ainda que já começava a sentir alguns sinais da eventual mudança que tanto ambicionava.
O mundo parecia-lhe agora um lugar mágico, ao longe as joaninhas faziam piqueniques, as cigarras afinavam as guitarras e os bichos de conta ensinavam matemática aos seus filhos. O dia estava bonito como se fosse o mais bonito dia de todos os dias desde o princípio do mundo. Lola respirava determinação e pela primeira vez sentia que tudo podia correr efetivamente bem.
Enquanto deambulava absorvida pelos seus pensamentos Lola deparou-se com duas espetaculares folhas vermelhas perfeitas como asas gigantes, Lola interpretou a sua descoberta como um sinal, não podia ser um mero acaso aquelas folhas tão perfeitas ali abandonadas, não podiam estar ali sem um motivo. Seria que? Sim, só podia ser isso, aquelas seriam as suas asas, pareciam leves o suficiente para se içarem com o vento e resistentes o bastante para aguentarem os voos mais arrojados. Lola estendeu cada uma das folhas, delicadamente no chão, guardando o preciso espaço, do seu corpo, entre elas e deitou-se de olhos fechados com uma asa de cada lado, sem se mexer, esperançosa de que a qualquer instante a mudança se desse, as folhas se colassem ao seu corpo e ela finalmente se tornasse numa linda mariposa. Lola ficou ali, imóvel durante muito tempo, sem desistir da sua empreitada, sempre a pensar que ia conseguir.
De repente ouve uma voz:
-Olá miúda, precisas de ajuda? Estás a sentir-te bem? Já aí estás no chão há muito tempo…
Lola abriu os olhos e viu um enorme caracol cinzento debruçado sobre si.
-Olá sou a Lola, muito obrigado pelo teu cuidado, estou só aqui à espera da minha metamorfose.
-Da tua meta quê? E ainda demora muito e tens de a esperar deitada no chão? Estás aí há imenso tempo…
-Me-ta-mor-fo-se! Sim, suponho que demora o seu tempo, o velho Carvalho disse que era um processo complicado. Tenho que esperar que estas folhas se colem ao meu corpo e se tornem asas para poder tornar-me numa borboleta.
-Ah…. Olha não leves a mal, mas não me parece que esse plano vá resultar Lola.
-Eu sei que parece impossível, mas eu sou uma borboleta presa em corpo de lagarta e preciso mesmo que esta transformação aconteça.
E Lola contou a sua história sem omitir qualquer detalhe ao atento caracol, todas as suas privações no prado e todos os seus encontros ao longo do percurso. O Caracol refletiu e de repente o seu rosto iluminou-se como uma lua brilhante.
-Espera! – Disse ele- Acho que te posso ajudar a minha baba é uma espécie de cola liquida, espessa e forte. Se colares as folhas ao teu corpo com a minha baba e tentares voar pode ser que a magia aconteça e pelo que me contaste quando voaste, com a Coruja Branca, tiveste a melhor sensação do mundo!
Lola ficou feliz e embevecida com a generosidade do caracol cinzento, a ideia dele fazia todo o sentido no seu coração, de facto, tentar voar só podia ser a derradeira resposta que lhe faltava.
Cuidadosamente o caracol cinzento colou as duas folhas vermelhas e majestosas no corpo da pequena e sonhadora lagarta. Lola nunca se tinha sentido tão feliz e tão completa, parecia mesmo, mesmo uma borboleta! Vaidosa começou a passear mostrando as suas asas a toda a gente, exibia o melhor sorriso de sempre e estava genuinamente feliz, todos a iam entender agora, as lagartas, as borboletas, todos!
-Ficam-te bem as asas novas pequena borboleta!
-Oh muito obrigado querido caracol cinzento, pela primeira vez sinto-me linda e completa!
-Agora tens de as estrear! As asas fizeram-se para voar! Vamos, vais saltar desta pedra alta, espera que a brisa te embale e quando sentires a boleia do vento salta e alcança o teu sonho!
Lola esperou impaciente no cimo da pedra alta, o seu coração parecia o trote de um cavalo tal não era a excitação. Estranhamente não tinha receio de cair, nem equacionava que se tudo corresse mal a queda da pedra poderia ser perigosa, mortal até. O seu coração tinha a certeza que chegara o momento de ser feliz e viver com o corpo que identificava como seu.
Sem esperar muito a brisa anunciou-se chegar, o vento envolveu o corpo vestido de folhas vermelhas da corajosa Lola e elevou-a no ar! As asas de folha estavam a cumprir brilhantemente o seu papel. Lola gritava de felicidade:
-Iupiiiiiii!!!!!!!! Estou a voar, estou mesmo a voar!!!
E o caracol cinzento fazia claque, cá de baixo
-Boa Lola, tu és mesmo capaz! Mostra-lhes como se voa miúda!! Eh!! Eh!!
Todos os animais estavam com os olhos presos no céu a ver a alegria daquela lagarta a voar pela primeira vez, com as suas improvisadas asas de folha, achavam a situação caricata, mas não conseguiam evitar de rir com a alegria contagiante de Lola, alguns animais até a aplaudiam e incentivavam:
-Isso estás a conseguir! Não desistas!!
O vento cada vez a elevava mais alto e Lola sentia-se completa e feliz!
No entanto o seu momento perfeito estava prestes a ruir, a força do vento movimentava-a com violência e as asas de folha começaram a rasgar-se ligeiramente no meio. Lola sentiu-se a rodopiar sem parar, tentou manter o controle, mas as folhas cada vez mais rasgadas já não a conseguiam ajudar a manter o equilíbrio e perdia altitude a grande velocidade numa espiral de desespero rumo ao chão. Lola gritava, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto:
-Nãoooooooooooo as minhas asas…
O caracol cinzento gritava:
-Oh! Não, não pode ser, isto é uma catástrofe…
Mas ante o terror de todos os animais que assistiam impotentes ao desespero de Lola, ela caiu violentamente, no chão, enrolada nas asas de folha.
Os animais tentaram alcança-la, mas Lola não se mexia, nem respondia, a pequena lagarta estava morta, enrolada para sempre nas asas que por momento a tinham feito tão feliz. O caracol cinzento chorou a perda da amiga e muitos animais se comoveram com a sua história contada pelo caracol.
Os dias passaram e a tragédia de Lola foi praticamente esquecida, mas quando alguém falava nela chamavam-lhe sempre borboleta e nunca se referiam a ela como lagarta. Só o amigo caracol cinzento não se conformava com a perda da amiga e de quando em vez ia meter pétalas em cima das asas de folha que lhe serviam de jazigo.
Um certo dia em que o caracol cinzento fora prestar homenagem à sua saudosa amiga apanha um grande, grande susto, quando ia pousar as pétalas em cima das asas de folha, estas começam a estremecer… O pobre caracol até caiu para trás e ficou com a casa virada ao contrário…. Misteriosamente as asas de folha continuaram a estremecer e uma casca dura surgia debaixo delas, uma espécie de casulo rígido que estranhamente parecia estar-se a partir. Meio a medo o pobre caracol cinzento pergunta, muito assustado:
-Quem está aí, quem perturba o eterno descanso da minha pobre amiga Lola?
Não obteve nenhuma resposta, mas viveu a maior surpresa da sua vida quando uma linda e maravilhosa borboleta de asas vermelhas surge de dentro da pulpa.
Lola tinha-se transformado finalmente naquilo que sempre soube ser, uma mariposa!
Graciosamente Lola dirigiu-se ao espantado amigo e disse-lhe baixinho, já com voz de borboleta:
-Muito Obrigado Meu amigo por teres acreditado em mim, teres-me aceite como eu sou e ainda nunca me teres abandonado durante a mudança, sem ti teria sido muito mais difícil!
Os dois amigos abraçaram-se e choraram de alegria, agora finalmente Lola sentia-se completa e feliz e podia voltar ao prado onde tinha nascido para fazer as pazes com as suas irmãs e voar com as outras borboletas!
Fim

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Expo 98' Sempre, sempre, sempre!

Será sempre uma das minhas memórias mais bonitas, ter feito parte da Expo 98' é um grande motivo de orgulho e choro sempre só de ouvir ou ver a musica, ou de começar a falar no assunto, acho que chorarei sempre e ainda bem!






Este era o verdadeiro espírito de equipa da Expo, estávamos todos juntos no ultimo dia e fomos todos molharmos-nos na cascata ao pé do Oceanário, um ia, iam todos!! Eu estou lá atrás... Todos encharcados, 100 que eram só um, sempre! Aí não estavam os 100, a maioria dos que aí estão foi o turno que tinha acabado de fazer a ultima visita do pavilhão dos Oceanos durante a Expo 98 e eu fui um deles e serei um deles sempre!

domingo, 20 de maio de 2018

Take off your clothes...

Não quero juras de amor, beijos, mãos dadas,
sentir nada que me obrigue ou abrigue o peito...
Não quero partilhar o leito, nem os sonhos.
Fecha os olhos, fecha a alma,solta o corpo,
deixa que o toque te troque as voltas,
quero respirar sobre ti, que me sintas
apenas mulher,
só corpo nu sobre o teu,
só desejo sem história,
só encaixe e monossílabos,
deixa-me sentir prazer as vezes que eu quiser
e depois sai,
não quero dias seguintes,
promessas,
alianças,
confianças que se quebram sempre.
Não quero saber o teu nome,
não interessa.
Quero só corpo, sem mente,
porque alguém mente sempre...

sábado, 19 de maio de 2018

Eutanásia!

A felicidade não existe nos braços de alguém,
nasce connosco por direito e por defeito!
Não quero encontrar quem me possa provocar borboletas na barriga,
quero eu ser a borboleta e voar enquanto consiga respirar!
Amei sempre e descobri, todas as vezes, que sofri sozinha
de braços abertos a dar colo ao mundo,
a justificar o egoísmo alheio com cinismo benevolente.
O inferno está cheio de amantes infelizes...
O inferno está cheio de gente...
Amei-te com todas as forças,
mas o músculo enfraquece quando a alma anoitece
e eu, agora, deixei a aurora para trás!
 Talvez tenhas dias contemplativos
e vás visitar o teu amor aos cuidados paliativos
e lhe leves flores para tornar as dores mais suportáveis...
Viver é mais do que isso,
Amar é tudo o que existe para além disso,
é tudo o que insiste...
Mata-me dentro de ti,
nada mais presta,
nada mais resta,
nada mais,
nada.




Must have been...