sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

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   (...) O sorriso dela era porto onde ele nunca tinha atracado, um rumo difuso que só trazia incertezas... A beleza tantas vezes reside no olhar, naquele alçapão que nos transporta pela mão até ao profundo da alma, nos abraça e diz que já chegaste a casa. 
Ela tinha a inocência de quem acha que viver é um instante, ele de semblante sempre carregado, transportava o mundo nos ombros, demasiado ocupado a pensar viver depois... 
Estavam os dois errados, a vida acontece naquele crepúsculo em que o amor nos anoitece e embala, nem demasiado cedo, nem  demasiado certo, nem demasiado tarde. 
Fala-me de ti, pediu ele, ela encolheu os ombro e disse sou um livro, a descoberta daquilo que sou começa na tua leitura. (...)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Bismillah

Quero a vida bebida de um trago,
um rasgo de loucura,
uma tortura deliciosa sequiosa de prevalecer além-razão.
Gosto que o chão me fuja de quando em vez.
De enfiar os pés em areias movediças
só pelo prazer de escapar mais tarde.
O Amor é fogo que queima e arde
e eu material combustível,
inacessível a lareiras desinteressantes.
Odeio meios termos, 
Amores mornos
de fornos a meio gáz ...
Preciso de fogo, 
de lume, 
de ciúme, 
de voracidade e necessidade.
Preciso de me sentir prioridade!
Preciso de roupas arrancadas,
de palavras tontas,
de juras idiotas,
de abraços intermináveis...
De serenatas ao luar,
de ser musa, de ser musica, de ser mar!







domingo, 2 de dezembro de 2018

Try to catch the deluge in a paper cup...

Desço as escadas até ao fundo de mim,
no fim da essência,
onde a paciência outrora morou…
Quero o agora,
estou cansada deste nada
que sobra na vida engasgada de futilidades.
Se eu morresse hoje o que mudaria no mundo?
Haveria um profundo silêncio?
As árvores perderiam as folhas?
O mar imenso aquietava-se?
Repensarias as tuas escolhas?
Não.
A minha existência é insignificante,
um acaso errante de átomos...
Somos sintomas do acaso, Amor... 
Aves migratórias com oratórias perfeitas,
desfeitas pelas dores da vida,
a voar por obrigação genética,
numa perdição profética que nos recusamos a ver...
Ás vezes preciso de chorar,
para deixar escorrer o que já não cabe...
o amor não sabe o que me faz,
é uma criança egoísta que não se cansa de ser protagonista...
E eu preciso de paz.






Simurgh

A tristeza do mundo é um manto nos meus ombros,
vasculho os escombros dos outros,
ávida de esperança...
Perdi a confiança na evolução humana
que olha uma criança com total desapego
só porque o tom da pele não combina com a ambição
da decoração da sua casa de catalogo,
que vai à missa confessar pecados superficiais
porque acha que os mortais não são pecados...
Que dá um pacote de arroz trinca para o banco alimentar contra a fome
e come a escravatura do mundo com talheres dourados...
Quero a loucura dos que gritam e se agitam porque não se encaixam
e não se acham melhores do que os pobres,
porque sabem que somos todos mendigos do Amor...
Odeio Nobres de sentimentos,
caridosos sequiosos de holofotes...
Quero a simplicidade das coisas,
o reconhecimento do olhar a empatia que resolve quase tudo...
As agonias do mundo civilizado
poluído pelo ruído dos bancos a tilintar moedas
e a destruir vidas sem sentir nada...
Se Deus nos fez deve chorar todos os dias...



sábado, 1 de dezembro de 2018

Lost and found

Tactuo o chão
à procura do coração que deixei cair
num sentir impossível qualquer.
Há uma mão invisível que tento alcançar,
no escuro,
seguro a voz e o nó na garganta,
esta vontade tanta de chorar...
Mascarar a alma de tranquilidade e calma,
a mente mente-nos sempre...
Gosto da nudez que o silêncio nos fez,
esta transformação que nos acolheu
num céu cinzento da nossa personalidade...
É nos dias tristes que conhecemos melhor os outros...
Tento despir-te...
(Mas tu insistes em usar armaduras como se fosses caçar dragões todos os dias...)
Não te escondas,
não mordas aquilo que és,
sempre em bicos de pés para seres igual a toda a gente....
Quem quer ser um rosto fosco na multidão?
Sinto a tua mão, no escuro,
seguro-te e digo que te amo, baixinho...
Encontro o meu coração, estava contigo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

wounded birds...

O meu rosto é uma gota de orvalho a humedecer a noite,
um rasgo de emoção que o coração deixou escapar
e tenta segurar para permanecer trancado...
Há um recanto de nós que nunca foi explorado
e não tem mapas ou placas de sinalização.
Sempre que choro há uma parte de mim
que parte para sempre,
de mochila às costas,
sem olhar para trás.
A solidão faz falta
e nunca me falhou...
A multidão é apenas ruído,
acéfalos a bater palmas
num espetáculo sem nexo...
Sexo de anjos assexuados que nunca amaram,
só se preocupam com espelhos
e vivem a vida toda de joelhos...
Preciso do silêncio que se partilha
quando me canso de ser ilha selvagem!
Do beijo que diz tudo,
do desejo que é mais do que um sonho
e alcança uma realidade palpável,
exequível,
simples, tranquila,
uma esperança alcançável,
que me permita respirar em todos os intervalos
e não me omita de mim mesma para segurança dos outros.




terça-feira, 27 de novembro de 2018

Nocturno de Chopin...

Existe um vão de escada
entre a tua alma e o mundo lá fora,
uma aurora nublada encharcada de incertezas
que te faz questionar constantemente
a diferença entre rumo e fumo.
A mente é um beco sem saída,
um ruído de fundo,
um poço profundo
poluido por milhares de corpos mortos
que flutuam, inchados, à superfície...
Não percebo as vicissitudes da vida,
nem concebo as definições da morte,
o presente é um enorme ponto de interrogação
que ora me aperta o pescoço ora me namora à porta de casa...
Podíamos nascer com um guião na mão
mas não era a mesma coisa, pois não?
Gostamos de cometer erros,
de experimentar a dor,
de aprender que desconhecemos o Amor
e ainda assim nos perdemos por Ele...